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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Deus e o Diabo na Terra no Sol
Keanu Reeves enfrenta anjos e demônios em Los Angeles
A luta
entre o céu e o inferno é um tema recorrente
no cinema. Fascina roteiristas, diretores e espectadores há
anos, gerando produções em todos os estilos,
desde o clássico terror até mesmo comédias.
Constantine
é baseado em quadrinhos, outra mídia apaixonada
pelo assunto, e rendeu um belo filme. Uma aventura interessante,
com o equilíbrio correto da ação e da
filosofia (ao estilo de Matrix,
também com Reeves) presentes no enredo, efeitos especiais
criativos (no limite da paciência e da artificialidade),
mas com uma estética realmente muito bem definida presente
em todo o filme, criando o clima ideal, semelhante ao ritmo
e ao ambiente das HQs. Eu não simpatizo nem com Keanu,
que aqui trabalha tão mal quanto em produções
de segunda linha como Johnny
Mnemonic (1995), e nem com Rachel Weisz, embora tenha
que reconhecer que está em uma de suas melhores interpretações.
A produção
é esmerada, com câmeras ótimas, ângulos
inusitados, efeitos que alteram o tempo da imagem, cores e
focos embaralhados para ajudar contar os flashbacks e como
funcionam as passagens entre o céu e o inferno. Surpreende
até certo ponto aqueles que esperavam apenas um passatempo
de Reeves entre um blockbuster e outro - como eu, confesso.
Entretém, diverte eé uma aventura bem superior
a tantas outras do gênero. Constantine
deixa o sabor de uma continuação, suscita a
todo instante a necessidade talvez até de uma série
para os não-aficcionados por Hellblazer, a revista
que deu origem ao filme. Mas essa inquietação
acontece pela qualidade e pela criatividade das histórias
que envolvem as lutas entre anjos e demônios, e não
por uma necessidade financeira de continuidade do ''filão''
- que é o que certamente move Hollywood.
Outro
ponto interessante é a mistura do lado bom e do lado
ruim destes seres sobrenaturais com o ambiente urbano. Uma
boate, por exemplo, abriga negociações entre
os agentes de Deus e do diabo, comandados por Djimon Housson.
Um dos demôniosé um perfeito e irritante gângster
em seu terno risca de giz. Os truques adotados pelo herói
John Constantine para destruir os entes do mal também
divertem. Eles, muito mais poderosos e escorregadios, aparecem
feiosos e assustadores, mas se dissolvem com água benta,
são abalados pela luz e orações - como
já vimos no cinema desde o tempo de Peter Cushing caçando
vampiros. Aliás, os coadjuvantes funcionam muito bem,
com poucas exceções: ponto para Tilda Swinton
(Adaptação),
num papel do anjo híbrido Gabriel. Sua figura mescla
beleza feminina e uma certa agressividade masculina. Sensacional.
Já o representante oficial do Inferno aparece no final
do filme, exibindo alguns estereótipos. O roteiro preferiu
que o ator Peter Stormare (em cartaz com Reencarnação)
nos apresentasse mais uma vez um diabo afetado, com toques
homossexuais e dementes - o que não precisava.
A história
original, passada na cinzenta Londres, foi transferida para
a ensolarada Los Angeles. De resto, o filme não deixa
se abalar por estes deslizes, nem com a má interpretação
do astro de Matrix
- que, aliás, foi imposto pelo estúdio. A equipe
e o diretor Francis Lawrence preferiam outro ator mais próximo
daqueles dos quadrinhos. Na revista, Constantine é
loiro e britânico, mais próximo do ator inglês
Paul Bettany (Uma
Mente Brilhante), por exemplo, um dos preferidos de Lawrence.
Segundo os especialistas, o criador de Hellblazer, Alan Moore,
criou o personagem com base nos traços do cantor Sting.
Mas imaginem, com o talento que vimos na ficção
dos anos 80 Duna,
acho que Sting seria pior que Keanu, não é mesmo?
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