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| Cena
de Cinema |
por
Renato Martins |
Excesso de Códigos
Adaptação do best seller é puro entretenimento, mas chega a dar dor de cabeça
No premiado Uma Mente Brilhante, o diretor Ron Howard ganhou o Oscar ao
dirigir Russell Crowe no papel de um matemático esquizofrênico que decifrava
enigmas numéricos numa velocidade tão impressionante quanto na quantidade de
informações processadas. John Nash, o personagem de Crowe, foi enlouquecendo
aos poucos. Bebendo muito de perto na mesma fonte, o mesmo Howard recebeu a
missão de dirigir a mais importante adaptação do ano - ou até mesmo de
início deste século - e por muito pouco, passa a mesma sensação para o seu
espectador: o excesso de enigmas, quebra--cabeças, anagramas e pentagramas
quase levam o público à exaustão e ao cansaço mental. A culpa pode não ser
do cineasta, uma vez que a versão está sendo considerada fiel a partir do
livro de Dan Brown, um fenômeno de vendas literárias calculado em 45 milhões
de exemplares vendidos. O problema foi encaixar todo esse macarrão de jogos
cerebrais em duas horas e meia - tempo perigoso demais para um filme onde a
expectativa é mais preponderante do que qualquer coisa.
No livro, os enigmas se apresentam num timing diferente do cinema, e,
obviamente, o leitor tem todo o tempo do mundo para decifrá-los, refletir
sobre eles, ou mesmo ignorá-los e passar para o próximo passado. Na tela, a
interatividade é dependente exclusivamente do tempo de cada um dos
personagens. O espectador é passivo, e portanto só lhe cabe aguardar os
resultados dos quebra-cabeças - que aliás, vem aos borbotões. Quando a morte
misteriosa do curador do Museu do Louvre, na bela e charmosa Paris, une a
polícia francesa, o especialista em simbologia Robert Langdon (Tom Hanks,
com cabelo mais seboso do que nunca) e a neta da vítima, a criptógrafa
Audrey Tatou, os mistérios começam de maneira interessante, envolvendo a
platéia perfeitamente. O misto de suspense e ação, regado a armadilhas
mentais, funciona durante toda a primeira metade do filme. A curiosidade é
atiçada na mesma medida que a fantasia de Brown reina no roteiro, com suas
teses mirabolantes e arapucas matemáticas e históricas. Langdon as vai
resolvendo da mesma maneira que Nash resolvia em Uma Mente... - estranha
falta de criatividade para o diretor ou ele já teria criado um estilo?
Quanto às teses, são divertidas e interessantes. Maria Madalena seria a
esposa de Cristo? Ele teria tido filhos com ela e os herdeiros ainda
estariam entre nós? Ela estaria retratada na Última Ceia, pintada por
Leonardo da Vinci? O Santo Graal não seria o cálice sagrado, e sim uma
pessoa, ou mesmo uma mulher onde a igreja poderia basear todo o seu
fundamento (mas não o quis)? Essas e outras assertivas estão lá, no livro e
no filme. Tudo isso que incomoda os cristãos, em especial os católicos, é
uma gostosa e legítima fantasia que a produção do filme assumiu como puro
entretenimento. Os protestos e campanhas contra o filme (que só fazem
aumentar a curiosidade sobre a obra) tendem a cair com o tempo no ridículo.
E, ao fazer a adaptação, tudo ficou mais divertido ainda. A aula sobre o
quadro de Da Vinci, por exemplo, é também uma bela palestra ao público do
historiador vivido por Ian McKellen. É praticamente um cartão de visitas do
livro de Brown, para quem não o leu. Blasfemo? Que nada, legítimo direito de
poder criar um universo paralelo, envolvendo fé, igreja, história e arte,
recheado de enigmas quase que adolescentes. Aos combatentes do projeto, um
recado: encarem como se fosse um Harry Potter misturado com Indiana Jones
(de preferência A Última Cruzada, que também trata do Santo Graal...).
O exagero dos jogos, ou de como isso foi mal resolvido no roteiro de Akiva
Goldsman (nova-iorquino autor de bons roteiros como O Cliente e que
trabalhou com Howard em Uma Mente Brilhante e A Luta pela Esperança), se agrava na
segunda metade do filme, aproximadamente quando a cena sai de Paris para
viajar a Londres. A quantidade de informações aumenta e o filme, que vinha
num bom ritmo de ação, cai para ficar patinando nas infinitas descobertas do
casal protagonista. Ao se completarem duas horas exatas, Howard poderia ter
saído de cena elegantemente, com final dignamente hollywoodiano e direito a
gancho para uma continuação - "Código da Vinci 2 - O enigma supremo", quem
sabe? Mas os 30 minutos restantes, embora narrem o que realmente está no
livro, são dispensáveis do ponto de vista de ritmo cinematográfico. Algumas
das cenas são tão delicadamente surreais que correm o risco de causar o
efeito contrário: o riso, ao invés da admiração. Lá pelas tantas, dá a
impressão que a pergunta mais simples necessita de um quebra-cabeça antes.
Algo como "vamos ao supermercado?" "Ok, mas antes decifre este pentagrama de
25 números e 89 letras invertidas".
No entanto, depois da recepção fria de O Código... no Festival em Cannes
algumas injustiças foram proferidas quanto ao filme: primeiro, o casal Hanks
e Tatou, apesar de não trocar de roupa e não tomar um banho durante toda
a saga, não está mal em cena. McKellen de fato é melhor, seguido de perto
por Jean Reno, um policial dividido no cumprimento do dever, e Paul Bettany,
um monge assassino completamente transtornado pelo excesso de fé, que se
auto-flagela em cena que faz inveja às chibatadas de A Paixão de Cristo.
Elementos auxiliados também por um bom script, que desde o início sabe
mostrar o assunto - símbolos - de uma maneira provocativa, quando da
palestra de Langdon. Aliás, para um roteiro tão cuidado, alguém sabe me
explicar como o bispo vivido por Alfred Molina consegue falar no celular em
plenos ares num avião? E porque o professor Langdon, depois de rodar a
Europa inteira fugindo de seus algozes, destrunido carros e vivendo perigos,
retorna à França para decifrar mais um mistério, chega num lugar discreto e
paradisíaco e aciona o alarme do carro???
O grande e único defeito de O Código... é ser demais: ele não é pretensioso,
mas atravessa a linha do razoável, se excedendo nas ferramentas criativas
que ele mesmo criou. O que é bom se torna ruim, uma vez utilizado demais. É
o caso dos flashbacks exaustivamente usados por Howard. As locações
maravilhosas, o Louvre com exclusividade, o clima estético muito bem
conduzido, compensam em parte estas falhas e transformam a obra num filme
bom - muito pouco para quem quer chegar na barreira de um bilhão de dólares
em bilheterias. É um bom passatempo, mas é um filme menor do diretor e do
próprio Hanks. Mas vale conferir. E a piadinha final do pé de Tatou na água,
pouca gente ri. É só para quem leu a Bíblia. Ou Brown.
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