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Cena de Cinema
por Renato Martins


Carreira Sem Controle
Apesar do carisma, o comediante Adam Sandler se repete e cai na mesmice


E a máxima de Lavoisier impera em Hollywood: “nada se cria, tudo se transforma”. Bem que esta nova comédia de Adam Sandler poderia ser melhorzinha. Click é uma salada bem temperada, com frutas e legumes frescos, mas com temperos de muitos outros filmes. Parte do princípio da velha história de que a vida poderia ser melhor e o espectador tem o direito de observar essa hipótese, divertindo-se com situações imagináveis como se fosse realidade. Nicholas Cage já caiu nessa em Um Homem de Família. Agora é o ator de "O Paizão" que, enfarado de sua vida corrida, consegue um controle remoto mágico para controlar o tempo, as pessoas, os sons e até seu cachorro. Com isso ele evita muitas coisas indesejáveis e descobre o verdadeiro sentido da vida. A premissa é bem interessante e o trailer no Brasil deixou muita gente com água na boca. A idéia é do roteirista que também produz o filme, Steve Koren, que se inspirou numa briga com a própria namorada, quando apontou um controle remoto para ela e simulou para que ela ficasse calada. E se todo mundo pudesse controlar a sua vida assim? Perfeito mote para uma deliciosa comédia! Mas infelizmente não é o que resulta na tela.

De novo a praga da indefinição ronda os projetos do ator e mais uma vez o filme que quer ser engraçadinho - e tem bons momentos de riso -, descamba em sua segunda metade para um dramalhão dos mais canastrões. Esquizofrênico, o script pula de uma ponta à outra como se o espectador apertasse aquele botãozinho de avançar capítulos no controle (que piadinha, hein?). Mas a sensação de desarticulação é grande e a fita só funciona por causa do tema principal, do carisma de Sandler e de algumas seqüências de destaque - ainda que esquecidas 15 minutos após o final da projeção. Quando o filme abandona a tentativa do riso e quer fazer chorar (mas será que era isso mesmo, ou o roteiro é tão ruim que do humor brota a tristeza?), vêm novas referências já recentemente adotadas pelo cinema de entretenimento americano. O personagem principal, o arquiteto estressado vivido por Sandler, surge gordo como Eddie Murphy em Dr. Dolittle, ou mais atualmente citando, Ryan Reynolds em Apenas Amigos - comédia aliás bem menos pretensiosa e divertida. Nos avanços do controle, nosso herói vai provando de cenas de sua vida no futuro cada vez mais trágicas, como se fosse uma cópia mal feita de Efeito Borboleta - outro exemplar bem superior.

Apesar de Click ter sido um sucesso de bilheteria nos primeiros dias na América (foi lançado no feriado de 4 de julho passado, na história a referência é direta a esta data), e no Brasil ter chances de repetir boa carreira, ele serve para fazer o protagonista pensar em sua carreira. O astro revelado pelo programa de televisão Saturday Night Live gramou um pouco no Brasil para adquirir o mesmo prestígio que tem em sua terrinha. É verdade que os americanos são bem menos exigentes, gostam de piadas idiotas, politicamente incorretas e grotescas e humor inteligente é meio raro entre os blockbusters. Esplanglês, por exemplo, não se decidiu no que queria apresentar ao público. Embriagado de Amor, que distoa na carreira do comediante, é a oportunidade para ele mostrar que tem DNA de ator, mas ninguém entendeu nada - muito menos seu público fiel das bobagens como Afinado no Amor e O Rei da Água. É justamente destes dois últimos filmes que veio o diretor Frank Coraci, pela terceira vez trabalhando com Sandler. A boa notícia é que a beleza britânica de Kate Beckinsale (Pearl Harbour) ajuda a preencher as lacunas, e o casal Henry Winkler (da série de TV Happy Days) e Julie Kavner (também da TV, de Rhoda, puro anos 70) que interpreta os pais do arquiteto workaholic. Isso sem falar em David Hasselhoff, o astro de Baywatch congelado no tempo!

Já Christopher Walken - um grande ator - é outro que precisa rever urgentemente seu cronograma de trabalho. Parece estar desperdiçando talento em qualquer papel. Aqui ele dá uma de todo-poderoso, como Morgan Freeman foi em filme de mesmo nome com Jim Carrey. Aliás, lá o roteiro também era de Koren, e descaradamente ele se repetiu. É só mais uma prova do rechonchudo caldo de reaproveitamentos que é este filme. Esta produção fica muito distante, por exemplo, do ótimo Como se Fosse a Primeira Vez (com Sandler e Drew Barrymore), de 2004, onde além de idéia boa, tinha desenvolvimento igualmente competente. Criatividade? Inovação? Raridade nas terras de Hollywood. Os temas se repetem tanto que remetem aos anos 40, quando o clássico A Felicidade Não se Compra já mostrava James Stewart antevendo seu futuro, depois se arrependendo pois esqueceu da família. Ou a versão mais recente do tradicional conto natalino de Charles Dickens, que trazia Bill Murray como o velho milionário que era visitado por fantasmas do futuro, alertando-o para o verdadeiro sabor da vida, em Os Fantasmas Contra-Atacam.

Um parágrafo para salvar uma parte do filme: a trilha sonora, que bebe direto dos anos 80 (com pitadas de 90), como tem sido a tendência deste tipo de filme. De Repente 30, por exemplo, com Jennifer Garner, foi puro 80. Outros filmes de Sandler já citados também apostaram neste revival. É legal ver os créditos de abertura ao som do grupo Cars, reviver Toto e Tears for Fears e ouvir “Linger”, dos Cranberries, em duas versões diferentes. U2 e New Radicals aparecem também puxando a modernidade dos anos 90, mas impagável mesmo são os cachorros em romance ao som de Air Suplly. É uma jogada baixa essa de usar uma trilha pop que vai pegar todo mundo de jeito. Mas funciona. Pelo menos essa parte.

Lições de moral que pregam mais amor à família, à vida, aproveitar o tempo (“Carpe Diem”!) e reduzir o stress do dia-a-dia sempre são boas de assistir. Faz a gente sonhar com um mundo melhor e pensar em ousar um pouco. Dá vontade de largar essa crítica pela metade nesta madrugada e ir dormir...ou ver um filme. Ou algo melhor ainda. Mas idéias boas, provocativas, inspiradas, podem morrer na casca frustrando toda uma expectativa em torno de uma produção, de um ator, e da carreira de um determinado filme. Click vai estar imune a isso, devido ao seu nível de produção e força do marketing que o circunda - não é um filminho qualquer. Mas de conteúdo pobre, acaba por menosprezar justamente o mais importante da história: a lição de moral, que fica preterida pela avalanche de erros e indecisões do roteiro.

 
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