Musical
Pretensioso
Porque Chicago não
deveria ganhar o Oscar
Certo,
certo. Muito bonito: Chicago ajuda a recuperar
o estilo que estava sepultado há anos na indústria
do cinema e foi recuperado em 2002 com Moulin Rouge.
Para quem estava com saudades de grandes filmes cantados,
como Cantando na Chuva, o filme de Rob Marshall
até que defende a honra do gênero. Mas, pelo
amor de Deus, não é isso tudo que (os americanos)
estão dizendo. A crítica brasileira precisa
urgentemente criar identidade própria, e não
só copiar os releases lá de fora com elogios
encomendados pelos produtores. Não sei se meu rigor
é grande porque assisti Chicago num
simpático teatro de Londres em 2001 e fiquei maravilhado
ao ver um bom espetáculo, adequado ao tamanho de sua
história, sem abusar dos efeitos especiais que são
comuns em outros clássicos da Broadway, como O
Fantasma da Ópera. Quando fiquei sabendo da
notícia da adaptação para o cinema, logo
pensei que bons atores e boa música poderiam não
se repetir na tela grande, ainda mais quando o protagonista
é o insosso Richard Gere. E, de fato, ele é
a pior coisa do filme, e tem afundado quase todos os filmes
que tem feito - e isso a crítica brasileira já
descobriu, já que comumente cai de pau em cima dele.
Também a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas
de Hollywood já sabe desta realidade, e deixou Gere
de fora de todas as indicações de Chicago.
Mesmo tendo sido premiado do Globo de Ouro e tendo se tornado,
automaticamente, credenciado a ganhar algumas de suas 13 indicações
no Oscar, o filme continua sendo muito inferior a outros também
indicados.
Além
de Gere, a protagonista Renée Zellweger começa
a entrar num processo Tarcisio-Meirense de fazer sempre o
mesmo papel: a da coitadinha dengosa. Ela viveu esse estilo
em O Diário de Bridget Jones e A
Enfermeira Betty. Sim, sim, Catherine Zeta-Jones
é a melhor coisa do filme, mas também não
é isso tudo. Fora as interpretações,
o diretor Marshall também não soube o que fazer
com determinadas seqüências originalmente criadas
por Bob Fosse, então simplesmente optou por filmar
um palco, com a canção da vez interpretada pelo
elenco. Em outros momentos, como quando várias assassinas
presas contam como mataram seus maridos, o diretor soube aproveitar
os recursos cinematográficos para fugir da fonte original,
no caso, a peça. Mas em outras situações,
simplesmente virou teatro filmado. Ora, se a peça coreografada
de Fosse foi incrivelmente criativa a partir do livro Chicago,
escrito nos anos 20, era de esperar que a produção
''show'' - como está sendo propagandeada nos quatro
cantos do mundo - inovasse também, em cima do livro
e da peça. Mas não. Talvez porque Fosse seja
tão brilhante que sua personalidade ficou muito presente
no filme.
Chicago
não é um filme ruim, apenas não é
genial nem tudo isso que vendem pra nós. A comparação
com outro musical, Moulin Rouge, premiado
em festivais e no Oscar no ano passado, é inevitável.
A produção e o marketing de Chicago,
porém, apostou que seu filme seria mais ''light'',
com menos referências pop e edição menos
videoclipada - características marcantes da fita de
Baz Luhrmann. Em suma, Chicago seguiria uma
linha mais clássica de musicais, mas com uma história
básica e simples que, no livro e no teatro, funcionaram.
No cinema, ela se perdeu. Parece que o estético foi
priorizado e a história esvaziou-se. Resultado: na
comparação com Moulin..., por
mais modernoso que este seja, o filme de Marshall sai perdendo.
O meu pai, de 72 anos, gostou mais do filme de Nicole Kidman.
''Tinha mais história, e as situações
eram mais criativas''. Ou seja, Chicago ajuda
a ressuscitar o gênero musical mas corre o sério
risco de ser um grande balão de ensaio inflado apenas
pelas suas recordistas indicações ao Oscar.
E só.
Como se
isso não bastasse o fato de Chicago
perder para si mesmo, os julgadores da Academia têm
muitos outros bons filmes, de igual ou melhor qualidade para
escolher como vencedores nas mais diversas categorias. As
Horas, pela sua profundidade e delicadeza, pode ser
considerado um filme melhor. Gangues de NY,
pela suntuosidade de sua produção e também
maravilhosa direção. E O Pianista,
um dos meus preferidos, pela sua importância histórica
e narrativa impecável também se torna merecedor.
Nicole Kidman em As Horas é mais atriz
do que Renée, Kathy Bates em As Confissões
de Schmidt é melhor coadjuvante do que Catherine
e Queen Latifah, indicadas na mesma, e assim por diante. Uma
indicação justa é a de John C. Reilly,
para melhor ator coadjuvante, mas que infelizmente duela com
monstros como Paul Newman, Christopher Walken e Ed Harris.
Estes são alguns dos motivos pelos quais Chicago
não deveria ganhar o Oscar. Mas eu sei que infelizmente
vai. |