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Cena de Cinema
por Renato Martins

Woody é mesmo uma Celebridade
Antepenúltimo filme do diretor apaixonado por NY é cronicamente viável


No outono americano de 97 eu não pude conhecer o Central Park de Nova Iorque por inteiro, pois grande parte dele estava fechado para uma filmagem. Dezenas de caminhões costeavam o parque, e dentro dele, centenas de papéis escrito "SET" espalhados em árvores. O segurança me impediu de ir adiante explicando que ali estava Kenneth Branagh. Dois dias depois vim a saber que Woody Allen estava nas ruas de Manhattan fazendo seu mais recente filme.

Mais de 3 anos se passaram e só agora confiro Celebridades, rodado todo em preto e branco pelo cineasta mais irônico dos últimos tempos, e em sua cidade preferida. Depois disso já foram rodados Small Time Crooks e Sweet and Lowdown. As locações escolhidas a dedo servem de pano para (mais) uma comédia sobre relacionamentos, onde um jornalista infeliz (Branagh), depois de divorciar-se de sua esposa (Judy Davis), circula pelo mundo do showbizz, encantando-se por vezes com seus próprios entrevistados – como no caso da estrela de cinema vivida por Melanie Griffith - , e por outras com modelos da passarela fashion – quando a deslumbrante Charlize Theron (O Advogado do Diabo) entra em cena e sai, rápido demais, para a infelicidade dos barbados.

Mas como filmar mais uma comédia sobre amores e separações ambientada na Big Apple? Woody Allen tem a resposta. No seu 27° filme, ele usa mais do que nunca o talento de unir celebridades (desculpem o trocadilho) de Hollywood em papéis inusitados, que muitas vezes são alter-ego das suas próprias personalidades. Com isso e mais uma fina ironia – presente em menos de 2% dos artistas e intelectuais -, o cineasta americano consegue criticar o próprio "establishment" do cinema. Um exemplo: Melanie Griffith, que muito já interpretou papéis de mulheres sedutoras e descerebradas, mas já demonstrou ser competente em filmes como Loucos do Alabama e Lolita, faz uma estrela de sucesso quase inacessível – coisa que em algum momento tem a ver com a sua vida real.

O que o diretor brasileiro Sérgio Bianchi fez recentemente em Cronicamente Inviável, espalhando "m" no ventilador e distribuindo críticas a todas esferas da sociedade, coincide com o objetivo de Woody Allen, porém com outros métodos. E a técnica do cineasta de filmes com Desconstruindo Harry e A Rosa Púrpura do Cairo é que faz a diferença. Ele segue ao longo de Celebridades ironizando pessoas, guetos, instituições e idéias, sem que os alvos se sintam atingidos. Sobra pro mundo da moda, para repórteres de TV, gays, e principalmente para os que andaram atrás dele quando queriam fazer de seu relacionamento com Soon-Yu (sua filha adotiva adotiva com Mia Farrow, ex-esposa) uma notícia de jornal. Com maestria e muito humor, ele critica. Claro que não faltam cenas mais escrachadas como a prostituta que se engasga com uma banana ao dar uma aula sobre sexo oral, ou a supermodelo que tem um orgasmo só ao ser acariciada na mão.

Assistir Celebridades foi uma experiência interessante também por ver centenas de pessoas olhando para uma grande tela em preto e branco. Parecia coisa dos anos 20. Nostalgia de primeira linha, como em Broadway Danny Rose, Neblina e Sombras e o próprio Manhattan, de 1979. Embora a qualidade dos projetores brasileiros não sejam grande coisa, e causam uma variação no cinza da película. E é uma pena que muita coisa se perdeu na tradução, e as legendas brancas inventadas pelos tituladores brasileiros  agrava ainda mais o problema.

Bem, e todos os jornalistas e críticos do país se enganaram em dizer que Woody Allen não atua no filme. Ele incorporou no britânico Kenneth Branagh, que lembra em tudo os personagens decadentes e fracassados do diretor. A cabeça baixa, a fala titubeante, o andar curvo. Branagh é puro Allen em cena, por mais que o diretor tenha afirmado não ter pedido ao ator que se inspirasse nele. A semelhança chega a ser demasiada, parecendo que Kenneth não teria personalidade como ator se não houvesse a inspiração. De quebra, vimos o ator de Henrique V e Muito Barulho por Nada diferente – e um pouco menos chato.

Ah, e o quê o Central Park tem a ver com tudo isso? Pouco, pois toda aquela parafernália que o cinéfilo-turista aqui presenciou in loco só rendeu uma única cena diurna, quase no fim do filme...
 
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