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Cena de Cinema
por Renato Martins


Para Refletir Sobre a Ética do Jornalismo
Filme sobre Truman Capote é a esteira para Philip Seymour Hoffman brilhar como ator


Saí do cinema pensando nas lições que o escritor mais célebre da América nos deixa, depois da projeção de Capote. Se é que os fatos do livro de Gerald Clarke - no qual o roteiro do filme se baseia - estão corretos, Capote era um mau jornalista. Escrevia muitíssimo bem, mas tinha métodos discutíveis. O filme mostra um Capote obsessivo, apaixonado, decidido a escrever um livro sobre um assassino e uma chacina cometida por ele, mas um tanto desesperado, egoísta e traiçoeiro. Entre esses extremos, e principalmente fora eles, temos um ótimo filme dirigido pelo estreante Bennet Miller, com fotografia e direção de atores impecáveis. Se é que Miller realmente interferiu alguma coisa. Pois a interpretação do protagonista Philip Seymour Hoffman, cotadíssimo para o Oscar de melhor ator, parece ser única e exclusiva dele. Estudando os trejeitos gays de Capote, emagrecendo e compondo ao mesmo tempo um personagem sedutor e arrogante. Como era o escritor.

O livro de Clarke e o filme narram os fatos acerca do encontro de Truman com um dos assassinos, que está no corredor da morte. Num misto de encantamento e paixão, o então colunista da revista New Yorker sai da Big Apple em 1959 para investigar as causas da história e mergulhar na personalidade daquele condenado. O resultado é uma reciprocidade improvável, vinda do prisioneiro Perry Smith (Clifton Collins Jr., igualmente bom), que é ajudado por advogados contratados por Capote, bancados pela revista. Aliás, o dinheiro rola solto: a viagem, os restaurantes e (as) muitas bebidas consumidas pelo jornalista, todas estão garantidas pelo patrão, esperando uma boa história. Capote usa algumas "verdinhas" até mesmo para facilitar seu acesso à prisão - "para o senhor usar como achar melhor", diz ele, ao entregar um envelope fechado ao diretor da penitenciária que abriga os dois acusados da chacina. Mais uma atuação anti-ética de Truman.

Quando de uma simples reportagem surge a idéia de fazer um livro baseado nestes fatos, o editor de Capote começa também a bancar as artimanhas e comodidades do repórter, que à medida que investiga, se apaixona mais ainda pela figura de Perry, numa admiração intelectual regada de atração sexual. Não há, porém, consumação de nenhum ato entre os dois, a não ser a troca de energia que evolui para uma relação instável de amor e ódio, quando Truman começa a enganar e fugir do criminoso. O escritor flutua entre o exibicionismo de seus feitos e a culpa de estar mentindo para seu novo amigo. É aí que ele se isola para adiantar a confecção do seu livro A Sangue Frio, evitando novos encontros com o protagonista da sua história, que o aguarda ansiosamente todos os dias na cela. Para ele, Capote diz que nem sequer escreveu uma letra. Mais adiante, Perry pergunta qual será o nome do livro. E mesmo depois de já ter feito uma leitura pública de alguns trechos, ele mente descaradamente e diz que não tem nenhuma idéia do título. A obra mudaria o estilo da grande reportagem no mundo todo.

Hoffman brilha na tela. E irrita, com seu personagem demasiadamente egóico. O resto do elenco também se destaca, como Catherine Keener, que interpreta a escritora Harper Lee, que naquela época escreveu O Sol é Para Todos, e que gradualmente se afasta do amigo excessivamente narcisista. Indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante, ela mantém o jeito natural de interpretar, como já tinha nos mostrado em filmes como Quero ser John Malkovich, por exemplo. Chris Cooper, ganhador da estatueta como coadjuvante por Adaptação, também reapresenta seu estilo contido em cena na pele do chefe de polícia Alvin Dewey, que dá as primeiras informações do caso para Capote. E o roteiro se encarrega de contar uma história que busca incessantemente o seu final, assim como o autor de A Sangue Frio quer encerrar seu livro e os fatos não o ajudam. É aí que ele entra em sua pior crise, aumentando suas doses (literalmente) de álcool que o levaram a morrer em 1984, das complicações com a bebida, sem ter escrito mais nenhuma obra depois desta.

A vida mudou e a rotina dos jornalistas não é mais fácil. Falo de cátedra porque sou um e sei que editoras e jornais já não bancam mais essas aventuras surrealistas em troca de um boa história. Repórteres ganham mirradas diárias em viagens e são pressionados a economizar o máximo. Já comprar informações e facilidades junto a fontes também foge muito ao padrão: necessita-se muito dinheiro, sigilo e coragem para que um escândalo não estoure mais adiante. Pelo menos por aqui. Ou será que depois do mensalão alguém no Brasil faz um cheque sem reter provas de um pagamento ilícito? A vida de Capote foi singular por diversos motivos, mas certamente um deles é a sua conduta, que faz todos nós, trabalhadores do jornalismo e da literatura, pensarmos melhor. Em época de bons e consistentes filmes, a temática do jornalismo parece estar agradando as platéias e os produtores. Além de Capote, Boa Noite e Boa Sorte mostra como o pai do telejornalismo enfrentou o senador anti-comunista Joseph McCarthy e O Sol de Cada Manhã acompanha os dramas familiares de um apresentador do quadro do tempo na televisão. Resta a nós, jornalistas, saber separar o joio do trigo ao ver essas lições, e de preferência não pegar o joio como lição (inspirado em Ibsen Pinheiro, jornalista gaúcho e ex-presidente da Câmara dos Deputados, que diz que "o trabalho da imprensa é separar o joio do trigo e publicar o joio").
 
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