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Cena de Cinema
por Renato Martins

Estranho no Ninho
Produção americana com jeitão de cinema alternativo é boa opção

Há alguns filmes americanos interessantes: eles têm elenco americano, se passam em cidades americanas, têm produção americana mas uma narrativa nem um pouco americana. Assemelham-se mais ao estilo europeu, especialmente o inglês, com ritmo mais lento mas com temáticas urbanas e contemporâneas. O cinema americano alternativo muitas vezes também caminha por essa estrada: mais afinado com a estética de contemplação, os novos cineastas da terra do Tio Sam optam por mostrar questões como conflitos sociais ou econômicos sem apelar para os roteiros vibrantes, de viradas constantes, cenas curtas e seqüências eletrizantes. O uso de trilhas discretas, fotografia pálida e movimento discretos de câmera também ajudam a compor esse estilo. É o caso de Caminho Sem Volta, produção de ritmo diferenciado com grande elenco liderado por Mark Wahlberg ("Boogie Nights", "Planeta dos Macacos") no papel de um ex-presidiário que tenta se integrar à sociedade. Se no inglês "Ou Tudo é Nada" a temática do desemprego era tratada com contornos de comédia, aqui a exclusão social e o preconceito aparecem revestidos de um drama policial com toques de suspense.

Meio apático e extremamente desconfiado em relação ao mundo que o recebe depois da prisão, Leo, o personagem de Wahlberg, encontra na própria família boas e más recepções. A mãe (Ellen Burstyn, sempre bem), que receia que o filho caia novamente no mundo do crime, por isso o recebe com reservas. O tio, mergulhado em negócios escusos de sua companhia de trens de Nova York, oferece ajuda por honra do sangue, mas também não é dos mais amigos. O papel fica na mão de James Caan, mafioso desde os tempos de "O Poderoso Chefão" e que aqui mais revela seu talento interpretativo. O único amigo que se revela é o personagem de Joaquin Phoenix (o padre de "Contos Proibidos de Marquês de Sade"), que acaba levando o protagonista de volta ao mundo de crime, acusado injustamente de um assassinato nos trilhos de Manhattan. Phoenix, que também atuou um "Gladiador", exacerba ainda mais sua verve da vilania, alternando entre a estabilidade emocional e a insanidade mental. Sobra para a pobre Erica, sua namorada e prima do ex-presidiário Leo, com quem, na juventude, já teve amores proibidos. O papel de garota problemática mais uma vez sobra para a arroz-de-festa Charlize Theron, que fez papéis semelhantes em filmes como "O Advogado do Diabo", "Enigma do Espaço", "Doce Novembro" e "Homens de Honra". Charlize, porém, não faz feio e mostra crescimento como atriz. O belo elenco se completa com a ponta marcante de Faye Dunaway, no papel da mãe de Erica.

Outro crescimento de interpretação que o filme revela é de Mark Wahlberg,
que logo após o divertido "Três Reis" fez este "Caminho sem Volta". Sufocado pelo marketing do Planeta (dos Macacos), o filme estreou no Brasil apenas nas salas mais alternativas e entrou direto no mercado de vídeo. Apesar da já citada narrativa diferenciada, o filme capta o espectador pela curiosidade e pela identificação com o personagem acuado em seus problemas de readaptação social. "Caminho sem Volta" participou da seleção oficial de Cannes em 2000 - disputando com "Dançando no Escuro", do vencedor Lars Von Trier - e passou pelos Festivais de Boston, Toronto e Chicago. Tem a assinatura discreta de James Gray, que apenas tinha dirigido e escrito um filme, aos 24 anos: "Fuga para Odessa" em 94, que já tratava das histórias de ligações mafiosas nova-iorquinas. Nesta produção, Gray (do alto de seus 30 e poucos anos) também foi roteirista ao lado de Matthew Reeves, criador de roteiros para televisão e que escreveu alguns filmes de ação de segunda linha para Hollywood. Mas confessou em recente entrevista que se inspirou mais em clássicos como "Rocco e seus irmãos", de Luchino Visconti, do que em filmes de gângsteres para fazer este filme.


Ainda colhendo as premiações, o filme também conquistou, através do ator Joaquin Phoenix - irmão do finado River, pra quem não se lembra -, mais uma vitória: ele recebeu nos Estados Unidos o National Board of Review, pela sua atuação como ator coadjuvante. Coincidência ou não, outro filme seu, o
"Contos Proibidos do Marquês de Sade", no mesmo ano ganhou o mesmo prêmio em Nova York no ano passado. Enfim, são boas surpresas como estas, discretas e sinceras, que ajudam a gente a continuar assistindo (e insistindo) no cinema americano.
 
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