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Estranho
no Ninho
Produção
americana com jeitão de cinema alternativo é
boa opção
Há
alguns filmes americanos interessantes: eles têm elenco
americano, se passam em cidades americanas, têm produção
americana mas uma narrativa nem um pouco americana. Assemelham-se
mais ao estilo europeu, especialmente o inglês, com
ritmo mais lento mas com temáticas urbanas e contemporâneas.
O cinema americano alternativo muitas vezes também
caminha por essa estrada: mais afinado com a estética
de contemplação, os novos cineastas da terra
do Tio Sam optam por mostrar questões como conflitos
sociais ou econômicos sem apelar para os roteiros vibrantes,
de viradas constantes, cenas curtas e seqüências
eletrizantes. O uso de trilhas discretas, fotografia pálida
e movimento discretos de câmera também ajudam
a compor esse estilo. É o caso de Caminho Sem Volta,
produção de ritmo diferenciado com grande elenco
liderado por Mark Wahlberg ("Boogie Nights",
"Planeta dos Macacos") no papel de um ex-presidiário
que tenta se integrar à sociedade. Se no inglês
"Ou Tudo é Nada" a temática do desemprego
era tratada com contornos de comédia, aqui a exclusão
social e o preconceito aparecem revestidos de um drama policial
com toques de suspense.
Meio apático
e extremamente desconfiado em relação ao mundo
que o recebe depois da prisão, Leo, o personagem de
Wahlberg, encontra na própria família boas e
más recepções. A mãe (Ellen
Burstyn, sempre bem), que receia que o filho caia novamente
no mundo do crime, por isso o recebe com reservas. O tio,
mergulhado em negócios escusos de sua companhia de
trens de Nova York, oferece ajuda por honra do sangue, mas
também não é dos mais amigos. O papel
fica na mão de James Caan, mafioso desde os
tempos de "O Poderoso Chefão" e que aqui
mais revela seu talento interpretativo. O único amigo
que se revela é o personagem de Joaquin Phoenix
(o padre de "Contos Proibidos de Marquês de Sade"),
que acaba levando o protagonista de volta ao mundo de crime,
acusado injustamente de um assassinato nos trilhos de Manhattan.
Phoenix, que também atuou um "Gladiador",
exacerba ainda mais sua verve da vilania, alternando entre
a estabilidade emocional e a insanidade mental. Sobra para
a pobre Erica, sua namorada e prima do ex-presidiário
Leo, com quem, na juventude, já teve amores proibidos.
O papel de garota problemática mais uma vez sobra para
a arroz-de-festa Charlize Theron, que fez papéis
semelhantes em filmes como "O Advogado do Diabo",
"Enigma do Espaço", "Doce Novembro"
e "Homens de Honra". Charlize, porém, não
faz feio e mostra crescimento como atriz. O belo elenco se
completa com a ponta marcante de Faye Dunaway, no papel
da mãe de Erica.
Outro crescimento
de interpretação que o filme revela é
de Mark Wahlberg,
que logo após o divertido "Três Reis"
fez este "Caminho sem Volta". Sufocado pelo marketing
do Planeta (dos Macacos), o filme estreou no Brasil apenas
nas salas mais alternativas e entrou direto no mercado de
vídeo. Apesar da já citada narrativa diferenciada,
o filme capta o espectador pela curiosidade e pela identificação
com o personagem acuado em seus problemas de readaptação
social. "Caminho sem Volta" participou da seleção
oficial de Cannes em 2000 - disputando com "Dançando
no Escuro", do vencedor Lars Von Trier - e passou
pelos Festivais de Boston, Toronto e Chicago. Tem a assinatura
discreta de James Gray, que apenas tinha dirigido e
escrito um filme, aos 24 anos: "Fuga para Odessa"
em 94, que já tratava das histórias de ligações
mafiosas nova-iorquinas. Nesta produção, Gray
(do alto de seus 30 e poucos anos) também foi roteirista
ao lado de Matthew Reeves, criador de roteiros para
televisão e que escreveu alguns filmes de ação
de segunda linha para Hollywood. Mas confessou em recente
entrevista que se inspirou mais em clássicos como "Rocco
e seus irmãos", de Luchino Visconti, do que em
filmes de gângsteres para fazer este filme.
Ainda colhendo
as premiações, o filme também conquistou,
através do ator Joaquin Phoenix - irmão do finado
River, pra quem não se lembra -, mais uma vitória:
ele recebeu nos Estados Unidos o National Board of Review,
pela sua atuação como ator coadjuvante. Coincidência
ou não, outro filme seu, o
"Contos Proibidos do Marquês de Sade", no
mesmo ano ganhou o mesmo prêmio em Nova York no ano
passado. Enfim, são boas surpresas como estas, discretas
e sinceras, que ajudam a gente a continuar assistindo (e insistindo)
no cinema americano. |