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Cena de Cinema
por Renato Martins


Um Filme que Não Depende de Sorte
Segundo filme de George Clooney revela maturidade e caminho certo do ator/diretor


Aula de cinema e jornalismo. Antes de ver Boa Noite e Boa Sorte li em algum lugar que o filme seria obrigatório para estudantes de jornalismo, publicidade, cinema e afins, e igualmente para profissionais da área. É a mais pura verdade. George Clooney traz seu segundo filme à tona e prova ao mundo que está muito bem na direção, fazendo uma fita simples e certeira. Retrata com fidelidade o clima das redações de rádio e TV nos anos 50, o nascimento dos telejornais, a busca incessante por pautas exclusivas, a descoberta de novas tecnologias e o desejo de liberdade de expressão. O ator de filmes "pipoca" como Batman & Robin, O Pacificador e Onze Homens e um Segredo mostra uma estratégia inteligente, ao cercar-se de bons profissionais e aconselhar-se com amigos influentes em Hollywood. Pegou o papel de coadjuvante pra si e deixou David Strathairn (ator vindo de papéis completamente secundários no cinema) brilhar e ser indicado ao Oscar como melhor ator. Não vai ganhar porque Philip Seymour Hoffman arrasa com seu Capote, mas mereceria.

A opção de filmar em preto e branco deu uma nostalgia interessante ao denso tema, que poderia virar monótono se o filme não fosse tão objetivo e rápido. Quando corre o risco de se tornar repetitivo, ele acaba. Os passeios da câmera pelos estúdios da CBS não são exibicionismo, e sim a recuperação de um estilo de cinema do meio do século passado. Com isso, ele mostra com fidelidade o dia-a-dia dos bastidores da televisão, o stress da produção, os anseios da reportagem e o processo de elaboração de importantes e contundentes programas jornalísticos. Golaço de Clooney de novo. A exaltação ao cigarro, que era glorificado como símbolo de status na época em que não se tinha noção do mal de causava, é outra característica da atmosfera muito bem criada pela produção. E tudo isso só ajuda a embalar a história interessante de um Davi (o jornalista Ed Murrow) enfrentando um Golias (o senador Joseph McCarthy) da política americana. Histórico, informativo, divertido e atraente, o filme não peca em nada: cenários, figurinos, direção de atores e diálogos, todos muito bem afinados.

A história do homem que através do poder (relativo na época) da mídia conseguiu iniciar um processo de desmoralização do político que caçava os comunistas - ou os prováveis comunistas - infiltrados na sociedade americana. McCarthy procurava culpados em todos lugares, incluindo o mundo dos jornalistas e do jornalismo. Elaborou listas negras com nomes de muita gente que foi presa, perseguida ou simplesmente demitida de seus empregos pela suspeição de afeto ao comunismo. Nos anos 50, em meio à explosão das primeiras transmissões da TV, quando os programas de sucesso do rádio migravam para a telinha, Murrow foi o pai de grandes e clássicos telejornais e programas de entrevistas. Foi num desses que escolheu como alvo o senador que implantou o chamado marcatismo.

O filme de Clooney é uma elucidativa contribuição histórica, um tanto parcial, mas ainda assim muito válida. Boa Noite... não chega a ser presunçoso, mas quer ser estiloso, e por isso a câmera chega de vez em quando aos estúdios onde a cantora de jazz Dianne Reeves supostamente deve estar gravando um musical para a TV e desfila suas canções climáticas para o público, interagindo com a trama e com os personagens dela, numa forma criativa e inusitada de inserir a trilha sonora no filme. Mais um ponto para o jovem diretor que estreou na função com Confissões de uma Mente Perigosa, já bastante diferente e interessante, onde também experimentou câmeras deslizantes e viajantes em cena.

De quebra, além da dupla central Strathairn-Clooney, temos ótimas histórias paralelas ao eixo principal, com personagens tristes e divertidos muito bem compostos por gente - até meio apagada - como Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Frank Langella e Jeff Daniels. Destaque especial para o melancólico Ray Wise, como o âncora Don Hollenbeck, que desvia o ritmo do filme com classe e surpresa, mas dentro de um contexto natural.

Com tudo isso, Clooney só conta pontos para seu currículo e vai construindo uma sólida carreira no cinema, sendo respeitado no meio sem deixar de dar sua contribuição ao cinema pipoca. Mas é claro que já sabemos o que ele prefere: afinal, será que ele gostaria mais de ganhar um Oscar de ator por Syriana ou o de diretor por Boa Noite e Boa Sorte? Sorte ele vai precisar mesmo para ganhar algo, pois os gigantes concorrentes são muitos e fortes. Mas pelo menos as noites do galã já estão bem dormidas, eu garanto.

 
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