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Cena de Cinema
por Renato Martins

Chicago vira São Paulo
Denzel Washington quase vira um brasileiro desesperado pelo atendimento do SUS em seu novo filme



Em Um Dia de Cão, Al Pacino invadia um banco para conseguir dinheiro para seu companheiro homossexual fazer uma operação de mudança de sexo. Bem mais moralista e menos ousado, 27 anos depois, em Um Ato de Coragem Denzel Washington fecha um hospital e toma um grupo de médicos e pacientes como reféns para exigir que seu filho seja colocado numa lista de receptores para um transplante de coração. Algo bastante improvável, mas que faz parte de uma realidade muito brasileira: a morosidade do atendimento de saúde e a burocracia dos planos de saúde. É isso que leva John Q. - nome do personagem de Denzel e título original do filme - ao desespero, ao pegar uma arma e tomar conta de uma emergência de hospital, mudando o cotidiano dos funcionários e dos pacientes da até então pacata instituição em Chicago. John é funcionário de uma empresa de artefatos mecânicos onde trabalha quase 20 horas por dia. Sua mulher é recepcionista - leia-se salário baixo. Mesmo assim não consegue pagar suas contas. O casal começa com dois carros, mas já na primeira cena, um deles é confiscado pelo banco. Tudo piora quando o filho pequeno tem um problema sério no coração, indo parar no referido hospital e necessitando urgentemente da operação de transplante. Acuado e pressionado pela esposa, John - o nosso João da Silva, no Brasil - resolve então partir para a ignorância.

Na verdade as histórias não são parecidas por acaso. James Kearns se inspirou no filme setentista de Sidney Lumet para escrever este, dirigido por Nick Cassavetes (filho dos atores John Cassavetes e Gena Rowlands) Os dois temas, que envolvem igualmente necessidade e extremismo, falam do lado humano da criminalidade e praticamente deflagram um libelo à transgressão. Invertendo os papéis de mocinho e bandido, tanto em um filme como no outro o espectador passa a torcer pelo - digamos imoral - lado da sociedade. Ou incorreto, ou irregular. Que seja: "os meios justificam os fins", é o que perpassa pela tela em direção à platéia no novo filme do oscarizado Denzel. Aqui ele não está tão soberbo como em Dia de Treinamento, filme que lhe deu a estatueta, mas mesmo assim, desempenha brilhantemente. Todo mundo acaba se comovendo com o pai atormentando com o caso do garoto doente. Mesmo sendo um crime e um ato violento (de coragem também, mas é violência acima de tudo), o público concorda com o seqüestro no hospital. Parece incrível para uma sociedade que diariamente condena os atos de violência e criminalidade que povoam as manchetes dos jornais brasileiros, mas é o que acontece.

Do outro lado da mediação surge o veterano Robert Duvall, que transmite uma natural displicência no papel de tenente da Polícia de Chicago tentando negociar o fim do tumulto. Duvall, que já foi tira várias vezes e também pastor, padre, pastor, militar, bandido, mafioso, faz o excelente contraponto sem abuso da fórmula. Quase cai no chavão ao disputar o comando da operação com um oficial "estrela da mídia" vivido por Ray Liotta (Hannibal), chegando a perder por alguns instantes a coordenação dos trabalhos, mas voltando à cena no terceiro ato do filme. O elenco de apoio também conta com o versátil James Woods (A Filha do General), aqui vivendo o médico responsável pelo transplante, e com a competente Anne Heche (Seis Dias, Sete Noites), como a inescrupulosa diretora do hospital, que insiste cobrar os devidos 75 mil dólares pelo transplante de coração.

Em meio a uma trilha sonora discreta mas com efeitos sonoros marcantes, que pontuam corretamente os momentos decisivos do filme, a fita não deixa por menos com uma ótima produção, fotografia e cuidado estético. A cena inicial de um acidente (pano de fundo para os créditos iniciais) com uma bela e misteriosa mulher é impactante e só vai se resolver quando o espectador já se esqueceu dela - o que revela mais uma artimanha do bem elaborado roteiro de Kearns. Por causa destes detalhes bem pensados, o tema cativante e a presença do astro de filmes como O Colecionador de Ossos, Hurricane - O Furacão e Malcolm X, é que certamente o filme ficou várias semanas em primeiro lugar nas bilheterias americanas. Em seu quarto filme, acerta bem o passo o diretor Cassavetes - que dirigiu Loucos de Amor, escreveu o roteiro de Profissão de Risco e atuou em uma dezena de filmes, como A Outra Face e Enigma do Espaço. Mas certamente o filme não terá o mesmo caminho. Apesar de um argumento de fácil identificação, o brasileiro não gosta de desgraça - visto que não prestigia seu próprio cinema, o mais realista de todos - e a bilheteria não deverá ser significante. E em meio a Homem-Aranha, Showtime e Crossroads, tudo fica mais difícil. Assim como o público tupiniquim não dinheiro para a saúde também não tem para o cinema. E terá que optar entre Tobey Maguire, Robert De Niro com Eddie Murphy ou Britney Spears.

Mas então Um Ato de Coragem é maravilhoso? Primoroso? Uma obra-prima? Não. Alguma peça está faltando no quebra-cabeça. A produção tem um grande ator como Denzel, e mais outro como Duvall. E outros tantos de apoio já citados. E Cassavetes não se sai mal na direção, apesar de ter mais experiência como ator. Mas Um Ato... não é um grande filme. Então, qual seria o problema? O que faltaria no tabuleiro de Um Ato de Coragem? Confesso que não sei. Não deu aquele "click". Não tem aquele "tchan". Talvez a própria inspiração seja sua condenação: não é, definitivamente, Um Dia de Cão.
 
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