Não
Esqueçam
Amnésia
vale mais pela idéia do que pelo filme em si
Muitas
pessoas têm me perguntado por e-mail o que eu achei
de Amnésia. Algumas parecem que têm uma
certa culpa de ter não gostado do filme. Talvez possam
se achar burras se não conseguiram acompanhar a narrativa
ou não entenderam certas partes, especialmente o fim.
Querem discutir, trocar idéias, ter certeza de que
o segundo filme de Christopher Nolan é bom ou
é realmente muito ruim. Antes de Amnésia,
o cineasta tinha apenas feito o discreto Following,
um filme em preto e branco raramente visto no Brasil e que
tem apenas 70 minutos. Considerado curto e bom pelos críticos,
a verdade é que Nolan manteve o estilo e, em pouco
mais de uma hora, nos apresenta novamente um filme interessante.
O único problema que incomodou as pessoas é
o seguinte: ele inverteu tudo, mostrando o fim no início
da fita e encerrando com o começo de tudo. Embananou
a maioria dos espectadores.
Se a história fosse contado em seu ritmo normal - ou
mais costumeiro, do início ao fim - já seria
interessante. Tão boa quanto qualquer filme policial
que vimos em tantos fins de noite. A grande sacada de Nolan
foi contar tudo ao contrário, dando a impressão
que realmente escreveu e filmou na ordem correta e inverteu
tudo na hora de montar a película. A idéia,
um tanto estranha, é o diferencial do filme e é
o que lhe destaca de todos os demais da hora. Quentin Tarantino
talvez esteja se remoendo por não ter tido a idéia.
Ou não ter tido a coragem de ter feito um filme assim.
A inversão casa perfeitamente com a condição
do personagem Leonard (Guy Pearce, de Los Angeles
Cidade Proibida), que sofre da perda de memória
para fatos recentes, uma doença que realmente existe
e que foi diagnosticada pela primeira vez no século
19. Leonard nos apresenta o seu (e o nosso) problema já
na primeira cena, quando aparece assassinando alguém
que teria matado a sua esposa. Não sabemos nada sobre
isso, não temos nenhum antecedente e obviamente vamos
ficar curiosos em saber o que levou aquilo. Tal como um homem
desmemoriado, o espectador vai descobrindo as coisas aos poucos,
onde cada cena explica a anterior. É como se esquecêssemos
as chaves do carro em algum lugar e fôssemos obrigados
a refazer a linha do pensamento ao contrário e em direção
ao passado para chegar lá, no momento desejado.
Filmes que começam com a cena final e depois vem o
flashback para explicar tudo até são comuns,
mas histórias totalmente invertidas não o são.
Lenny (como é carinhosamente chamado o personagem,
sem que ele goste) não sabe em quem confiar, nem porque
algumas pessoas lhe ajudam e nem exatamente o porquê
e como vai se vingar, mas o fato é sua esposa, que
ele amava muito, morreu. Para complicar, uma segunda narrativa
também invertida corre paralelamente e em preto e branco,
nos apresentando fatos que vão explicar aqueles outros
da narrativa principal. Não, não é fácil.
Causa estranheza. Incomoda. Pessoas da poltrona do lado se
mexem a todo instante, respirando fundo e tentando saber se
aquilo é bom ou ruim. Claro, estamos todos acostumados
a uma história com pé e cabeça. Quando
a coisa muda de figura, é difícil engolir sem
desconfiar. E só porque é diferente não
quer dizer que seja bom. Porém, neste caso, é
inteligente. Acima de tudo, é uma experiência
cinematográfica. Mas nem vamos esquentar muito: é
preciso relaxar, e curtir a viagem, que de quebra, nos apresenta
um excelente Joe Pantoliano e uma Carrie
Anne-Moss mais madura (ambos de Matrix) e uma ótima
fotografia.
Ainda há um estranho final (que na verdade é
o início), que dá margem a algumas confusões,
mas não chega a ser incoerente. No vai e vem da inversão,
alguns erros de continuidade - como a boca cortada de Natalie,
a personagem de Anne-Moss - e o fato do personagem principal
nunca esquecer que tem um problema de perda de memória
recente (quando o acidente que lhe deixou assim é um
fato recente!), mas nada mais grave. Ora, é claro que
ao assistir Amnésia temos que admitir que a
idéia é o mais atraente. Como filme, talvez
até nos acrescente pouco. Mas somados, idéia
e história, temperados com o talento promissor de Chris
Nolan (que já está dirigindo Al Pacino,
Hillary Swank e Robin Williams em um novo filme),
a fita passa a ser realmente uma boa diversão no atual
cenário de blockbusters americanos como A.I.,
Planeta dos Macacos, Parque dos Dinossauros
e tantos outros. Ao lado dessas produções gigantes,
Amnésia quer é mais é passar discretamente
e quase nem pede para ser lembrado. Mas por favor, não
esqueçam dele. |