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Cena de Cinema
por Renato Martins

Corra, Lola, Corra à Francesa
Novo cinema francês se enche de vigor com Amélie Poulain


Um sopro de vida invade o novo cinema europeu e mostra que o velho mundo está em forma. Desafiando os preconceitos, um discreto, singelo e talentoso filme chamado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain inova, traz e prova que a Europa tem muito ainda a contribuir para o mercado de arte internacional - e ainda mantendo sua tradição oposta aos rumos de Hollywood. Comandando pelo diretor Jean-Pierre Jeunet, que degustou na segunda metade dos anos 90 da vil comunidade americana e seu cinema essencialmente comercial, dirigindo obras como Alien - A Ressurreição, a fita mistura o apuro estético com o roteiro criativo que, combinado com os ingredientes "bons atores" e "direção segura", só pode dar num único resultado: "filme bom". Mas mais do que bom, O Fabuloso Destino... é também surpreendente. A quantidade de elementos novos em sua apresentação distribui gostosos impactos aos presentes da sala escura, que testemunham um renascimento - ou o nascimento de uma nova geração - do cinema francês.

Como um conto de fadas, o roteiro - indicado ao Oscar deste ano - mostra uma Paris esteticamente saturada, misturando recursos vistos em filmes modernos como Snatch e Amnésia, usando e abusando de cores, efeitos de película antiga e o preto e branco para criar uma segunda narração. Faça-se a justiça aos curta-metragistas, grandes embaixadores desses elementos ousados, até então pouco convencionais nos longas. No bairro dos artistas da cidade-luz, o Montmartre, circulam os artistas, entre músicos e pintores (Van Gogh morou lá) que transitam entre os cafés e lojinhas de baguete. Num desses estabelecimentos, uma simpática mas antiquada brasserie, onde convivem aposentados, desempregados, hipocondríacos e desconfiados - os losers, que os americanos gostam tanto de tachar nos seus filmes. A garota do título (vivida pela ótima Audrey Tatou, de Instituto de Beleza Vênus, de Tonie Marshall) trabalha lá e ao receber a notícia da morte de uma princesa, no recente agosto de 97, época do acidente de carro que matou a princesa Diana, no túnel Ritz, na capital francesa, descobre que pode começar a fazer pequenas coisas para tornar a vida das pessoas que a cercam mais felizes. Amélie vai pingando emoção, tensão, confusão e mistério no cotidiano de dezenas de personagens, em cenas banhadas de humor e singeleza. A história que parte de um argumento simples mas que é contada de maneira extremamente bonita - e não há nenhum outro sinônimo para definir a condução da trama - é que é o grande charme do filme. Com ritmo rápido mas não frenético, com graça dosada e sem nenhum exagero de interpretação, a produção de Jeunet brilha no céu do cinema europeu e se sobressai na constelação das fitas francesas. Não é à toa que Amélie foi um sucesso em seu país no ano passado, com mais de 8 milhões de espectadores, e atingiu a expressiva marca de 22 milhões nos EUA - e olhe que os americanos são muito preconceituosos com o cinema europeu (mais do que nós, brasileiros). É um marco. E só reforça suas indicações ao Oscar - som, roteiro, direção de arte e fotografia - e entre elas para melhor filme estrangeiro, categoria na qual é favorito para ganhar.

É importante que se avise às pessoas que O Fabuloso... não é um clássico francês, como os da velha geração. Não é Truffaut, nem mesmo Lelouch, nem tampouco Godard. Quem quiser assistir algo semelhante irá se chocar e decepcionar. É um ritmo muito mais acelerado e moderno. Afinal, é o mesmo diretor do perturbador Delicatessen, de 91, que o fez. Por outro lado, ele não tem a agressividade de filmes como Corra, Lola, Corra - o marco no cinema alemão de Tom Tykwer -, embora possa ser comparado como equivalente em termos de ousadia e definição de um novo rumo para o tipo de cinematografia em questão.

Ao ser singelamente bonito, justamente baseado apenas em cima dessa premissa básica e simplérrima de "que para ser feliz não é preciso muita coisa", nossa Amélie vence os dramas de sua infância sofrida e encontra sua própria realização, ganhando de brinde o amor e a emoção em seu coração. É poesia pura, embalada em papel de bombom moderno, às vezes picante, às vezes engraçado. É um novo jeito de ver a vida dos franceses. Vive la France!
 
Saiba mais sobre "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".

Leia as colunas anteriores de Renato Martins.
 
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