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Cena de Cinema
por Renato Martins

Meio Século de Atraso
O 3º Congresso Brasileiro de Cinema reúne a categoria em Porto Alegre depois de 47 anos


Bem, essa turma não se reunia desde 1953, quando aconteceu o segundo congresso. Mesmo assim, nos festivais e concursos, eles nunca deixaram de conversar - só não tinham uma oportunidade para discutir exclusivamente seus assuntos. A capital do Rio Grande do Sul foi o cenário para esse reencontro, de 28 de junho a 1º de julho, quando cineastas, atores, distribuidores, exibidores e críticos de todo o país estiveram presentes. O melhor de tudo foi ver que a categoria não está vencida: mesmo o cinema nacional ocupando menos de 9 por cento das telas no país e sofrer uma crise de captação de recursos que pode reduzir pela metade a produção de filmes no ano que vem, os painéis e debates mostraram que a verve de quem vive do ofício ainda é vigorosa. No primeiro dia, os cineastas bradaram contra o governo, reclamando da política audiovisual e do envelhecimento de uma única lei sobre o assunto, datada de 93. O secretário José Álvaro Moysés, do Ministério da Cultura, defendeu-se propagandeando os projetos de sua pasta, como a mostra Redescoberta do Cinema Nacional – que disponibiliza alguns clássicos da produção brasileira para a rede de escolas públicas.


O presidente do 3º Congresso Brasileiro de Cinema, o cineasta Gustavo Dahl (diretor de Em Busca do Ouro e Tensão no Rio), foi apoiado em sua idéia de criar um órgão nacional específico para a área, tal como já acontece hoje com a telefonia, com a criação da ANATEL, uma agência ligada diretamente à presidência da república e com alguma autonomia. No segundo dia, a tônica da discussão foi a chamada Quota de Tela, que obriga exibidores a projetar um número mínimo de filmes brasileiros em suas salas até o fim deste ano. Foi quase consenso de que a exigência é positiva - ainda mais que neste ano foi acordada entre governo e exibidores –, desde que tenhamos uma produção suficientemente boa, como bem lembrou o Paulo Betti, um dos atores mais atentos às plenárias que aconteciam no congresso. Betti, que já foi Lamarca e Ed Mort no cinema, se prepara para encarnar Getúlio Vargas no filme Chatô, do diretor estreante Guilherme Fontes. Fontes, com seu polêmico filme orçado em 12 milhões de Reais, o mais caro da história do cinema brasileiro, também surpreendentemente se fez presente: um pouco isolado nos primeiros dias, mas em seguida abrindo o jogo e contando que a produção está "quase" pronta. "Falta o José Álvaro (Secretário do Audiovisual) chutar a bola e liberar o resto do meu dinheiro para eu finalizar as filmagens", disse o ex-ator da Rede Globo.


O produtor de Bossa Nova, Quatrilho e O quê é isso Companheiro, entre outros êxitos recentes do cinema brasileiro, Luiz Carlos Barreto, deu uma rápida passada no evento para fazer o seu discurso nada inédito mas saiu aplaudido: Barretão sempre defende a união da categoria, a formação de um bloco para vender o cinema latino-americano e de um sistema de comercialização do setor audiovisual, que hoje rende 11 bilhões de dólares, segundo ele. Enquanto o pessoal não se organiza, ele vai captando recursos dentro e fora do país e fazendo seus filmes. E ganhando dinheiro, claro. Estaria ele errado? No último dia do congresso, algo histórico: na discussão da relação do cinema com a televisão, Evandro Guimarães, representante das Organizações Globo, praticamente pediu o auxílio do setor. Já foi fato raro alguém comparecer, ainda mais abrir seu coração dessa maneira dizendo que a televisão quer fazer parcerias e mais do que isso, precisa do cinema. Bem, a classe encerrou o encontro eufórica, e ao som da banda Replicantes, onde o vocalista é o cineasta gaúcho Carlos Gerbase, que está finalizando seu primeiro longa, Tolerância.


Circulando pelos corredores do congresso, outro gaúcho, que já virou sinônimo de folclore: o cineasta e pesquisador Antônio Jesus Pfeil, que em todos os eventos do tipo, sempre vai na contramão, lançando seus manifestados datilografados e xerocados. Pfeil, por muitas vezes ridicularizado, faz bem o contraponto e nos deixa pensando, ao escrever: "Mais um congresso / De conversa fiada / sem cinema e sem ingresso / em que tudo foi patacoada (...) Se não foi pra dar um basta / Nos estrangeiros vigaristas / não adianta encher a pasta / de papéis e de listas / congresso pra que te quero / se nada será resolvido / De tudo só lero-lero".
 
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