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Cena de Cinema
por Renato Martins

Ao Mestre com Carinho
O clássico triângulo amoroso é revivido intensamente no filme de Mauro Farias


Duas Vezes com Helena passou em brancas nuvens no último Festival de Cinema de Gramado. O filme não recebeu nenhum Kikito, nem mesmo para a ótima atuação de Christine Fernandes, que brilhava pelos corredores da serra gaúcha e era apontada como a mais indicada ao prêmio de melhor atriz. Dona de olhos expressivos e de uma beleza discreta, Christine - que começou em novelas como Perdidos de Amor e antes de viver Helena só tinha feito uma ponta em O Xangô de Baker Street - foi sempre humilde ao falar sobre o filme e agradecia constantemente ao diretor por ter lhe dado a oportunidade de trabalhar no filme vivendo o objeto do desejo deste triângulo amoroso. Mas na festa de encerramento, depois de terem sido distribuído para praticamente todos os Kikitos para outros concorrentes nacionais, como se viu Christine saindo chorosa e antecipadamente pela porta lateral do Palácio dos Festivais em Gramado.

Foi realmente uma injustiça. Comparado aos outros filmes presentes no Festival Duas Vezes realmente ficava aquém, mas não pode ser taxado de ruim, pois tem um roteiro bem escrito, um cuidado técnico apurado e uma direção de atores competente. A história escrita por Paulo Emílio Salles Gomes, falecido em 1977, mostra a forte relação de amizade de um professor e um aluno que é abalada quando o segundo acaba iniciando uma relação amorosa e sexual furtiva com a esposa do mestre. A dupla traição sentida pelo professor Alberto corta como faca a alma de quem assiste o drama, ao mesmo tempo que vê Carlos Gregório desempenhar o sofrido papel do marido traído. Gregório - que fez a novela Esplendor ao lado de Christine -, econômico e discreto, está corretíssimo em sua atuação introspectiva e enigmática, que aos poucos vai revelar mais informações ao espectador.

Fábio Assunção não parece muito à vontade no papel do aprendiz que divide os sonhos de sua vida profissional com o professor e acaba apunhalando o amigo e tutor pelas costas ao cometer o pecado da carne com a misteriosa, quieta e sedutora Helena. Como o filme avança no tempo, mostrando a história dos anos 40 em diante, Fábio perde mais ainda ao receber a má caracterização de uma idade mais avançada de seu personagem Polydoro, que soa muito artificial na tela. O que garante mesmo a consistência do personagem são os perfis traçados pelo escritor, que incluiu o conto que originou o filme no livro "Três Mulheres de três PPPês". Apesar da experiência televisiva, o jovem galã é o mais fraco do trio, embora esteja demonstrando crescimento interpretativo até mesmo no recente Bellini e a Esfinge - outro filme adaptado a partir da literatura brasileira, no caso do romance policial do titã Toni Belotto.

O diretor Mauro Farias também tem seus méritos, pois coordena a cena com um pulso forte, principalmente no tocante à direção do elenco. As prévias reuniões de leituras do roteiro devem ter sido longas e cansativas, pois o domínio do conteúdo fica evidente - principalmente no personagem de Carlos Gregório -, reforçadas pela câmara fechada e inimista controlada pelo cineasta, que já tinha sido consagrado pelo Festival de Gramado de 91 - o mesmo que o ignorou no ano passado - com Não Quero falar Sobre Isso Agora.

Mas volto a insistir: Christine Fernandes, grande injustiça, brilha no filme e instiga qualquer espectador a cometer o pecado da traição ao vê-la na grande tela. Vivendo a triste Helena, ela derruba qualquer crítica na cena em que oferece o jantar a Polydoro na casa de veraneio. Sem quase olhar para os olhos de seu interlocutor, provoca curiosidade, ansiedade e desejo no público e no personagem. Leva a seqüência nas costas até deságua na consumação do sexo de maneira vigorosa e triunfante, mas ainda assim carregada de culpa e preocupação. O desenrolar da trama só vai se manifestar mais tarde - ou direto nas páginas do conto de Paulo Emílio. E com a certeza que também cumpre sua função junto ao público, oferecendo uma solução realista e igualmente dolorida para os integrantes do triângulo. E eu, pessoalmente, ainda guardo mais uma imagem triste de Helena: dela saindo pela porta lateral do Palácio dos Festivais em Gramado, com seus ares de decepção.
 
Saiba mais sobre "Duas Vezes com Helena".

Leia as colunas anteriores de Renato Martins.
 
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