Sob o Efeito da Água
Um filme lento e intimista que trata de situações cotidianas de uma família recheada de problemas, causados principalmente pelas drogas. A trama de "Sob o Efeito da Água", Litlle Fish no original, aliás um título muito melhor do que o em português, gira em torno de um passado próximo que está sempre assombrando os personagens. Mesmo tentando se reerguer, as conseqüências do que fizeram no passado não os deixa tomar novos rumos na vida. Cate Blanchet, com uma ótima atuação, interpreta Tracy, a personagem principal, uma mulher que leva uma vida ordinária e sonha em expandir seu pequeno negócio. Além de uma mãe que vive assombrada com medo da filha ter uma recaída, a personagem de Cate encontra dificuldades tanto por preconceitos contra uma ex-viciada quanto pelo contato com o mundo das drogas, que continua à sua volta e presente em sua vida, quer ela queira ou não. Seu irmão, seu antigo namorado e até seu amigo e ex-namorado de sua mãe, todos estão de certa forma emergidos nesse mundo, um mundo que Tracy tenta escapar.
As repetidas cenas de Tracy em uma piscina, que fazem alusão ao título do filme, talvez tenham um significado maior, talvez de fuga ou algo parecido, mas a verdade é que parecem apenas artifícios para tornar o filme mais poético, mais cheio de representações. Essas cenas parecem um pouco deslocadas e poderiam ser melhor construídas.
O filme é um pouco lento, mas o interessante do longa é a forma como o passado vai se revelando aos poucos e preenchendo as lacunas da trama e dos personagens. No começo pouco se sabe sobre as pessoas daquela comunidade. Conforme o filme vai se desenvolvendo o passado vai aos poucos aparecendo, seja em um personagem que retorna, seja em uma dificuldade que o torna aparente, ou numa projeção de um possível futuro. Aos poucos o espectador vai entendendo o que está acontecendo e vai conhecendo as facetas dos personagens. Essa revelação gota a gota da trama faz o espectador não perder o interesse no filme, que pode parecer certas vezes arrastado.
Hugo Weaving brilha na tela interpretando o ex-astro do rugby australiano Lionel. Conhecido do grande público pelos papéis nas duas mais importantes trilogias do novo milênio, como o Sr. Smith em Matrix e o Elfo Elrond nos filmes do Senhor dos Anéis, Hugo, que também vestiu a máscara do vigilante V em V de Vingança, brilha como um ex-astro do esporte que depois de largar a carreira se afunda no mundo das drogas. Em certo sentido ele é o oposto da personagem de Cate. Enquanto ela tenta se reerguer e fugir de seu passado nas drogas, Lionel tinha tudo, tinha um passado glorioso e o destrói se afundando cada vez mais no vício. Hugo Weaving dá um show de atuação, criando um personagem bissexual, longe do estereótipo gay de Hollywood, desesperado e destruído pelo vício e ainda assim carismático e com quem o público se conecta.
Um pequeno filme intimista, sem grandes surpresas, que marca a estréia na direção do australiano Rowan Woods. Para quem não quer ver mais um blockbuster Hollywoodiano, um drama lento, porém interessante e realista, com duas ótimas atuações.