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Fora de Circuito
por Marcelo Guerra

A Carreira do Diretor de O Sexto Sentido - Parte 2

Retomando o artigo sobre o diretor M. Night Shyamalan, vamos falar um pouco dos três últimos longas do diretor, filmes que não foram tão aclamados pelo público e pela crítica, pelo menos não tanto quanto O Sexto Sentido, mas agradaram os fãs e mostraram que o diretor tem o domínio sobre a linguagem cinematográfica e um estilo bem marcado, fazendo com que seus filmes tenham identidade.

Depois do sucesso de O Sexto Sentido, o diretor lançou em 2000 outro filme com o ator Bruce Willis, chamado Corpo Fechado. A trama se resume a uma pergunta, "Como seriam os super-heróis se eles realmente existissem". Night parte do pressuposto de que toda a lenda tem um fundo de verdade e não são criações da imaginação, mas sim um exagero em cima de algo que realmente existe ou existiu. Assim, Bruce Willis encarna um herói da vida real, indestrutível e com força maior que a de qualquer homem. A sequência inicial, na qual o personagem se encontra no meio dos destroços de um acidente de trem sem sobreviventes, exceto ele, é muito boa e é o ponto de partida para o personagem descobrir sua anormalidade. O desconhecimento do personagem principal de um mistério, mistério esse que ele vai descobrindo aos poucos junto com o espectador, é tema recorrente nas obras de Shyamalan. Isso faz com que o espectador não se sinta enganado e se envolva mais na história.

Corpo Fechado tem ainda um ótimo personagem, que é o oposto do personagem principal. Interpretado por Samuel L. Jackson, o personagem quebra todos os ossos do corpo e por qualquer motivo, seu corpo parece feito de vidro. Uma ótima cena é quando o personagem cai da escada e, enquanto seus ossos quebram, ouve-se barulhos de vidro quebrando.

Interessante para os aficcionados em histórias em quadrinhos é perceber as diversas características das hqs presentes no longa. A cena final é surpreendente e fecha um ciclo como se fosse a cereja de um sundae, completando a trama de super-herói do longa.

Posteriormente, o diretor lançou o ótimo Sinais, uma ficção científica diferente, onde toda a invasão dos Ets é acompanhada por televisão, sombras e insinuações por uma família em uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos. O eixo dos clássicos filmes Hollywoodianos de invasão da Terra é deslocado das grandes cidades do mundo para uma pequena cidade e dos grandes exércitos, naves e efeitos especiais, para algo mais sutil, para uma família que se vê ameaçada. Em uma trama paralela o personagem principal, interpretado por Mel Gibson, perde a mulher em um acidente e começa a questionar a sua fé. No final todas as peças se encaixam como um quebra-cabeça e, apesar de não ser um final totalmente surpresa, como os de seus filmes anteriores, Night mantém o nível com um suspense carregado de ótimas cenas e um clima assustador que prende o espectador.

A família acompanha a invasão pela televisão e posteriormente essa vai se aproximando até prender a família em sua própria casa, mais uma vez Shyamalan coloca o espectador e os personagens no mesmo patamar, acompanhamos a invasão também por uma tela e entramos na história.

Um aspecto sempre presente nos filmes de Night é o uso de crianças na trama. O diretor usa em suas histórias elementos sobrenaturais e fantásticos e também utiliza muito o medo como ferramenta. Esses elementos estão mais presentes e são intensificados no mundo infantil, por isso a constante presença de personagens desse mundo nos filmes do diretor.

Sinais é talvez o filme que deixe mais claro a influência da obra de Hitchcock na obra de Shyamalan. O longa é muito parecido com Os Pássaros, do diretor inglês, mas ao invés dos animais alados são os alienígenas que invadem a cidade e causam terror. O uso de elementos que insinuem, como sons e sombras, para causar suspense e medo estão presentes nos dois filmes. Além dos dois se passarem em cidades pequenas e da ameaça trancar os personagens em casa, causando um clima claustrofóbico. O andamento dos longas é bem parecido, desde o crescimento da tensão até o acompanhamento da invasão, que em Os Pássaros era feito pelo rádio e em Sinais é pela Tv.

A cena em que o personagem de Mel Gibson e sua família se trancam em casa para evitar os Aliens é idêntica à cena em que os personagens de Hitchcock fecham a casa com madeiras para evitar o ataque das aves.

Depois da ficção científica, que foi muito bem nas bilheterias, o diretor lançou A Vila. Controverso, o filme é do tipo ame ou odeie. O longa agradou a parte da crítica, a ponto de alguns consideraram uma obra-prima e a parte do público, principalmente aos fãs do diretor, mas outra parte detestou.

A Vila é um filme menos comercial e mais, digamos, artístico e pessoal. Shyamalan usa todos os artifícios que aprendeu em sua carreira cinematográfica para criar um clima de suspense e tensão quase perfeito, as sombras, os sons e as cores são muito bem trabalhadas. O final é surpreendente e interessante. Shyamalan brinca até com seu histórico de finais surpresas, ele usa de um artifício para desviar a atenção do público. Ele dá pistas que parecem deixar na cara o grande mistério do filme, pistas fáceis que deixam o espectador confortável e achando que descobriu o grande final, porém o grande mistério ainda se esconde longe dos olhos e da mente do público.

A pureza do vilerejo e o distanciamento tornam os moradores seres puros e ingênuos, dominados pelo medo. Uma fábula moderna, o filme tem uma ótima fotografia e um ritmo interno único, uma montagem diferenciada. As seqüências não são marcadas, o que contribui para criar um clima de tensão e estranhamento.

M. Night Shyamalan é um diretor que consegue agradar o grande público e ainda deixar uma marca pessoal em seus filmes, um cinema de autor no meio do grande sistema comercial de Hollywoody. Também ai, Night se assemelha a Hitchcock, com certeza um valoroso seguidor dos passos do mestre do suspense.

 
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