A Carreira do Diretor de O Sexto Sentido - Parte 1
Eu poderia colocar como título dessa coluna “A Carreira de M. Night Shyamalan”, mas talvez muita gente não iria ligar o nome à pessoa, ou melhor, o diretor a seus filmes. Resolvi então colocar o nome do filme que o lançou e que obteve maior sucesso junto ao público. Explicado o porquê do nome do diretor não aparecer no título, vamos ao que interessa. Enquanto o novo filme do diretor, A Dama na Água, não estréia, vamos fazer uma pequena retrospectiva da carreira do diretor e roteirista.
Nascido na Índia, Night cresceu nos Estados Unidos, onde iniciou sua carreira cinematográfica. Seus dois primeiros filmes são pouco conhecidos e confesso que não tive a chance de assisti-los. O primeiro, que se chama no original "Praying with Anger", conta a história de um imigrante indiano nos Estados Unidos que volta à sua terra natal e faz uma viagem de auto- descoberta. O segundo é uma comédia dramática sobre um menino de 10 anos que perde o avô e suas aventuras em um colégio só para meninos. O longa é chamado Olhos Abertos.
Mas foi O Sexto Sentido, seu terceiro filme, que lançou o diretor no mercador internacional e que marcou um estilo único de direção e modo próprio de contar histórias. Depois de O Sexto Sentido, Shyamalan manteve o nível nos seus filmes subseqüentes e se tornou um aprendiz de Hitchcock, o mais perto do mestre do suspense que um diretor moderno chegou.
Foi também O Sexto Sentido que trouxe novamente à tona a moda dos finais surpresas, algo que Hitchcock fazia e muito bem em filmes como Um Corpo que Cai e Psicose.
Porém a grande diferença entre quase todos os filmes com finais surpresas e as obras de suspense de mestres como Alfred Hitchcock e Night, é a mesma que existe entre a surpresa e o suspense. Nos filmes dos grandes diretores o suspense é construído por toda a trama, o final, apesar de surpreendente, é uma evolução de algo que vinha sendo plantado e construído por toda a película, não é algo gratuito. Em muitos filmes atuais o final surge como algo totalmente superficial e forçado, com o único propósito de surpreender o espectador lhe dando algo que ele não esperava. Nesse tipo de filme o final não se sustenta, e o filme não resiste a uma releitura. Esses longas são uma afronta à inteligência do espectador.
Eis um exemplo da diferença entre suspense e surpresa. Em uma cena onde vemos um homem armando uma bomba debaixo de uma mesa vazia e depois vemos uma família almoçando e conversando feliz na mesma mesa, aí está caracterizado o suspense, sabemos da ameaça e sentimos medo ou qualquer outro sentimento pela aquela família que pode explodir a qualquer momento. Já a surpresa se caracterizaria em uma cena de uma família almoçando e de repente, do nada, a mesa explode. Não existe um mistério e nem o espectador nem o personagem sabem de nada.
Voltando à carreira de Shyamalan, vamos abordar algumas características e comentar um pouco sua obra filme por filme. Além de O Sexto Sentido, falaremos dos longas Corpo Fechado, Sinais e A Vila.
O Sexto Sentido conta a história de um garoto que vê pessoas mortas e de um psicólogo que tenta ajudá-lo. A grande sacada do suspense é seu final surpreendente, mas lógico (quem não assistiu o filme é melhor parar por aqui). No final descobrimos que o personagem do psicólogo, interpretado por Bruce Willis, está morto desde o começo do filme. Se o espectador assistir o filme uma segunda vez irá perceber que na verdade apenas o garoto interage com o psicólogo, já que ele vê pessoas mortas, apesar de Night conseguir dar a ilusão de que todos conversam e interagem com o psicólogo. A descoberta da morte do personagem não é feita apenas pelo espectador, o psicólogo também não sabia que estava morto e descobre o fato no mesmo momento de quem está assistindo. Esse artifício utilizado pelo diretor faz com que os espectadores não se sintam traídos ou enganados, pois eles compartilham do mesmo sentimento do personagem principal e aprenderam os fatos junto com ele.
Shyamalan criou regras durante as filmagens para que o filme pudesse ser o mais verossímil possível e resistisse a uma segunda leitura. Um dos exemplos é que durante todo o filme, onde semanas ou meses se passam, o personagem de Bruce usa sempre as mesmas peças de roupa que usou durante o dia do seu assassinato.
O diretor espalhou pistas pelo longa, pistas que dariam a indicação do final. Entre elas está inclusive uma cena que quase foi tirada no corte final, pois Night e outras pessoas envolvidas com a produção acharam que era uma pista muito grande e que ficaria muito fácil dos espectadores adivinharem o final. A cena acabou permanecendo no longa e o temor dos produtores e do diretor não se confirmou, já que ninguém adivinhou o final por causa dela. A cena em questão, que se passa no hospital, é o momento em que o garoto confidencia ao psicólogo que vê gente morta e quando ele fala a famosa frase “I see dead people” a câmera fica fixa no rosto do personagem de Bruce.
No momento que o psicólogo percebe sua condição de morto o diretor faz um flashback, como se fossem as lembranças do personagem, mostrando todas as dicas que estão no filme e como todas as peças se encaixam de forma lógica, outro artifício para que o espectador não se sinta traído, mostrando que o final não foi tirado do nada.
Na próxima parte falarei um pouco dos filmes Corpo Fechado, Sinais e A Vila.