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Fora de Circuito
por Marcelo Guerra

Levanta e Anda

Uma história interessante e que poderia render um ótimo filme. Em uma tribo de Burkina Faso, país da África, uma garota de 16 anos é obrigada pelo pai contra a vontade da mãe a deixar a aldeia para se casar com seu prometido de uma comunidade vizinha. Após a saída da garota a mãe é acusada de bruxaria e é expulsa da tribo, sofrendo maus tratos e condenada a vagar pelo país sem ajuda. Um história de tradição contra renovação, de costumes versus globalização. Infelizmente, a história acabou se transformando em um filme raso, superficial e tão pobre quanto a aldeia que ele retrata.

O filme começa com um ritual, uma dança típica do local, que é mostrada quase como em um filme antropológico. O caráter documental acompanha o longa durante toda a sua duração. Outros rituais são filmados, como se vistos por olhos de estranhos e cenas dos africanos em seu dia a dia, fazendo seus afazeres, e mostrando suas condições de vida são colocadas entre as cenas que apresentam a trama do filme. Dando a impressão que se assiste a algo do National Geographic. Algo que se espera de um filme europeu sobre a África e não de um filme africano.

A trama, assim como os personagens, é apresentada de forma verborágica. A visualidade é quase inexistente e o espectador recebe de bandeja, na forma de diálogo, tudo que o diretor quer apresentar. Os personagens são rasos, sem profundidades e contradições. Alguns personagens são irrelevantes e aparecem apenas para comentar algo que está aconteendo. Muitas das situações são forçadas e acontecem apenas para levar a ação adiante. A trama se torna previsível e o espectador não consegue entrar na história e ter qualquer sentimento que seja em relação aos personagens, a não ser de pena por um filme que poderia ter sido muito mais do que é.

As atuações são péssimas, totalmente artificiais, o que vai contra a estética documental do filme. A direção segue o mesmo caminho, marca muito mau a movimentação dos atores, utiliza paisagens com nascer e por do sol para marcar a passagem de tempo e tenta dar sentimento ao longa filmando primeiros planos que persistem depois do acontecido no rosto dos atores por algum tempo, a única coisa que ele consegue com isso é um desconforto do espectador, pois é visivel o desconforto dos próprios atores com a câmera em seu rosto.

A indefinição de quem é a protagonista, a mãe ou a filha,contribui para dificultar que o espectador entre no filme. Quando você começa a entrar no sofrimento da mãe, o ponto de vista muda e você passa a acompanhar a filha. As metáforas são rasas, como por exemplo, a filha está sempre de pé e andando enquanto os mais velhos sempre sentados, estagnados. O único ancião que vai contra os costumes é um velho que não desgruda de seu radinho de pilha, globalização, e é taxado pelos outros como louco. Talvez se melhores trabalhadas essas metáforas poderiam funcionar, mas do modo simplista e quase ingênuo como são mostradas não funcionam.

Uma sequência demonstra bem a fragilidade do filme. A filha está à procura da mãe. Ela anda para chegar até a cidade. Uma senhora sentada ao pé de uma árvore avisa a ela para ter cuidado com um homem que anda com um estrado e uma faca, pois esse homem está condenado por ter perdido sua mulher no parto e tem que estuprar outra mulher para ficar livre da maldição. Na próxima cena a filha está na beira de um lago e um homem com um estrado debaixo do braço aparece. O homem ameaçando a filha com uma faca manda ela deitar no estrado, ela deita. O homem coloca a faca no chão para tirar a camisa. Quando ele está com a camisa sobre a cabeça , a filha pega a faca do chão, enfia nele e foge correndo. Ela passa pela mulher que estava ao pé da árvore novamente. A mulher pergunta se ela já cruzou com o homem. Ela diz que sim e agradece. Nada sobre essa história aparece no filme nem antes nem depois dessa sequência. Algo totalmente mau construido e desnecessário,pois não serve de nada para a narrativa. Se retirarmos essa sequência, em nada o filme seria mudado, portanto esta se torna desnecessária.

No final do filme a filha diz tudo que o filme se propõe a problematizar em uma única fala. Ela diz que é preciso mudar as tradições, que tem que se repensar os costumes, enfim tudo que o filme queria mostrar está alí em uma fala.

Eu nunca tinha nem ouvido falar de um filme de Burkina Faso, e só o fato desse filme existir já me deixou surpreso e feliz de ver o cinema e o festival do rio rompendo barreiras culturais e econômicas. Talvez pela inexperiência e ingenuidade o filme tenha saido do jeito que saiu, porém apesar de tudo, é uma iniciativa válida mostrando a visão de um povo distante e que sempre foi explorado pelas elites econômicas. Quem sabe não é um começo. Espero um dia ver um ótimo filme feito em Burkina Faso
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