Gerry
"Gerry" é o filme que o diretor Gus Van Sant filmou antes do premiado Elefante e do controverso Last Days. Quem teve a sorte, ou o azar, dependendo do que esperava, de assistir a Last Days, a "história" dos últimos dias do vocalista do Nirvana Kurt Cobain, sabe que Gus não é mais, nem de longe, o diretor de dramas convencionais como Gênio Indomável, "Garotos de Programa" e Encontrando Forrester. Com sua refilmagem de Psicose, o clássico de Hitchcock, em 98, o diretor já demonstrava que queria algo diferente. Ainda mais pelo filme ser quase um estudo cinematográfico, onde o diretor queria mostrar como filmando todos os planos do mesmo jeito e com os mesmos diálogos ainda iria ter um produto diferente. Com o premiado Elefante Gus inovou no jeito de fazer cinema em Hollywood. Travellings longos acompanhando o trajeto dos personagens, filmar o nada e não filmar o que o cinema tradicional americano considera o essencial, não ter pressa, entre outros truques, porém o filme ainda tinha algo de tradicional. Em seu anterior "Gerry" o diretor foi mais audacioso na maneira como impôs sua nova técnica de fazer cinema e criou um estilo só seu, muito influenciado pelo cinema europeu e principalmente pelo cinema asiático. Desafiando a ordem cronológica, Elefante vem antes de "Gerry". Last Days veio como a afirmação de que de agora o espectador saberá o que lhe espera quando entrar em uma sala de cinema para assistir a um filme de Gus Van Sant.
"Gerry", que não foi lançado no Brasil nem em DVD, futuro bastante provável para o novo Last Days, conta a história, ou melhor, mostra dois amigos que estacionam o carro perto do deserto e partem em busca da coisa. Os amigos, que chamam um ao outro de Gerry, se perdem no deserto e vagam procurando uma saída. Essa é toda a trama do filme de 103 minutos.
Gus recheia o filme de diálogos sem sentido, que não trazem informação nem fazem a trama avançar. Esta é apenas a história de dois caras que se perdem no deserto. O som e a movimentação da câmera trazem uma atmosfera de agonia perfeita e que funciona para prender a atenção do espectador. O filme é pura experiência cinematográfica, algo totalmente diferente do que se vê no cinema hoje em dia. Realmente não é para qualquer um. Não digo isso de uma maneira preconceituosa do estilo pseudo-intelectual, mas esse é um filme para discutir a arte cinematografica como imagem e som, uma arte que pode fugir da dramaturgia e criar algo único com seus elementos exclusivos. Um filme que não tem como ser adaptado para nenhum outro campo, uma arte puramente cinematografica, uma gramática que não pode ser transposta para o papel e nem para as palavras. Quem não se interessar pelo cinema como arte, pode achar "Gerry" e Last Days filmes insuportáveis. Não discrimino quem o ache, pois a maioria das pessoas vê cinema como entretenimento, como um programa de fim de semana.
Infelizmente o filme não é encontrado com facilidade nas locadoras brasileiras. Para quem quer uma experiência cinematográfica muito rara, aconselho a procurar locadoras de DVD área 1 ou baixar na internet. Tenho uma cópia que foi díficil para conseguir e não me arrependo. Um filmaço de um diretor que parece ter encontrado o caminho que quer seguir, na contramão da velocidade e dos cortes rápidos dos filmes de Hollywood. Um longa que, como parte do cinema asiático, mostra que a sétima arte não depende da dramaturgia. Cinema puro.