Don't Come Knocking
Em seu novo filme, o aclamado Wim Wenders mostra que não é preciso efeitos digitais nem experimentações para se fazer um grande filme. Com muita sensibilidade e uma boa história, o diretor alemão faz um pequeno grande filme, daqueles que dá vontade de rever assim que os créditos finais aparecem na tela.
A história de Howard, um astro de filmes de velho oeste que larga tudo para tentar encontrar algum sentido na vida, é contada com maestria e simplicidade pelo diretor. O veterano ator mergulhou em um mar de drogas, sexo e escândalos, e agora, com uma certa idade, pretende largar tudo e mesmo sem saber ao certo o que procura, ele espera encontrar algo que dê sentido a sua vida.
O filme começa com três narrativas paralelas que se encontram no decorrer do longa. Uma é a dos produtores do set de filmagem que Howard abandonou, aí está evidenciado o passado do ator e o que ele esta largando, aí está o mundo do cinema, com agentes especiais, carros esportivos, tecnologias, algemas e óculos escuros. A trajetória de Howard, a segunda narrativa, mostra a sua tentativa de mudar, de procurar retomar uma vida sem os vícios, mostra a vida real, com biscoitos feitos em casa, omelete no café da manhã e cheia de problemas e conflitos. E a terceira narrativa é o ponto futuro, é aquilo que Howard procura, a filha que ele abandonou.
Com uma câmera simples que conta a história sem grandes movimentos ou experimentações, o diretor permite que o espectador entre na história e viva o drama de Howard. Nada no filme é por acaso, os cenários, os objetos de cena, as fotos, o figurino, tudo ajuda a compor a história e a entender o personagem. Assim é permitido ao espectador construir o filme ao invés de simplesmente assistí-lo, o diretor compartilha o momento de construção com o espectador. As peças do quebra-cabeça vão aos poucos se juntando e dando corpo a história. Nada é jogado na cara de quem está assistindo, tudo é colocado sutilmente, aos poucos.
A excelente trilha sonora e a brincadeira com sons e músicas diegéticas dão um clima maravilhoso ao longa. A intromissão de sons da cena anterior na cena seguinte, dão um charme a mais e ajudam a fazer a narrativa fluir.
Conhecemos o personagem no momento em que ele resolve deixar tudo para trás. Ele se livra de suas roupas, sua bota e de seu cavalo. Só sabemos de seu passado por fotos, recortes de jornais e depoimentos de outros personagens. Assim simpatizamos com Howard e torcemos por ele o filme todo, até quando ele se entrega, mas imediatamente trata de se arrepender, aos velho vícios.
O diretor aproveita a história para tratar da indústria cinematográfica e da dicotomia cinema e realidade.
Com um humor sutil , cenas maravilhosas, uma luz muito bem trabalhada e uma história cheia de sentimentos, o longa se torna uma deliciosa experiência cinematográfica e mostra que o veterano Wim Wenders ainda pode nos brindar com ótimos filmes.