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por Marcelo Guerra

Crime Delicado

Crime Delicado é um filme também delicado. Talvez o primeiro filme da retomada que pode ser mais considerado uma incursão no mundo da arte. Não que Cidade de Deus, Abril Despedaçado e Cinema, Aspirinas e Urubus não sejam arte, mas o quarto longa de Beto Brant é destes o único que tem a pretensão de sê-lo. São 88 minutos que podem deixar o espectador comum cansado e decepcionado, mas vão com certeza agradar a críticos e aqueles que gostam de cinema brasileiro mais reflexivo, principalmente da época do Cinema Novo e de alguns de seus filhos da década de 80.

Uma discussão sobre a arte com trechos de peças, às vezes muito longos, filmagem de quadros, uso do preto e branco e discursos diretos para a câmera. Estes recursos parecem ajudar a história a se desprender do real, algo que era realmente necessário e que poderia ser um pouco mais explorado. Antônio é um feroz crítico de teatro que de repente começa a deixar seu lado de simples contemplador da vida para um papel principal. Sua vida muda quando encontra e conhece Inês, uma mulher com perna amputada que serve de modelo para obras eróticas de um velho artista plástico. Depois de conhecer os quadros para o qual Inês posava, Antônio adentra o apartamento da mulher, pela qual ele se diz apaixonado, e diz que ela é refém do artista e que está sendo enganada, a chama de atriz pornográfica e depois, sem seu consentimento, abusa sexualmente da mulher. O estupro, caso principal do qual Antônio é posteriormente acusado por Inês, não é do ato físico, mas sim o insulto, o insulto à arte, a arte que era a vida da Inês. Isso é o que ele, crítico, muitas vezes faz em seu jornal diário, estuprando atores, diretores, artistas plásticos e músicos, ou melhor, estuprando a arte por não entendê-la. Uma das melhores cenas do filme se dá quando, já no julgamento, Antônio percebe seu crime delicado, as palavras de Inês já não são mais necessárias e a música sobe. Insulto foi a palavra que fez Antônio acordar para seu ato cruel. O estupro veio não de seu orgão sexual, mas sim de sua língua afiada.

Beto Brant soube com maestria passar o clima dos contos e romances de Sérgio Sant'anna para a tela do cinema. Talvez o filme seja um pouco corrido, faltando algo que prenda mais o espectador. O filme se preocupa o tempo todo com a discussão que está propondo e se esquece de que tem que prender o espectador, de que tem que ser um filme. Como obra cinematográfica acredito que fique atrás das recentes produções nacionais da retomada, mas Crime Delicado é uma obra interessante com uma também interessante discussão sobre a arte e a crítica. O longa só estreou em duas salas no Rio de Janeiro e acho que é só isso de que precisa, pois é um filme para um público restrito. Se for assistido pelo grande público pode ser motivo da famosa frase "por isso que eu não assisto filme brasileiro".

 
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