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Fora de Circuito
por Marcelo Guerra

Cinemas, Aspirinas e Urubus

Um road movie pelo sertão nordestino na década de 40. No filme um alemão fugido da guerra, roda o Brasil em uma caminhonete vendendo aspirinas. Ele vai de cidade em cidade projetando filmes publicitários que encantam os moradores e vendem seu milagroso remédio. No caminho ele cruza com um nordestino que, fugindo da seca e sonhando em ir para o Rio de Janeiro, começa a viajar com o estrangeiro.

No começo, o filme parece que vai seguir uma estética parecida com a dos filmes de Gus Van Sant, filmando o trajeto do personagem principal quase que por completo, cheio de silêncio e tempos mortos. Mas é apenas uma primeira impressão. A câmera na mão, nervosa e trepidante se aproxima muito dos personagens. O filme é pouco visual, ou seja, conta pouco através das imagens. Os enquadramentos pouco querem dizer e parecem ser apenas um exercício de estilo do diretor. Muitas cenas são dispensáveis, não acrescentam nada nem a história, nem aos personagens e muito menos ao clima do filme, clima esse que é um pouco indefinido. Parece que o diretor Marcelo Gomes ficou recioso de tornar os silêncios mais longos e de acompanhar os personagens por cada passo do caminho, com medo de não ser bem aceito pelo público.

Existem alguns cortes truncados, que ás vezes parecem sugerir elipses, que não ficam claras, por isso causam estranheza e até uma certa dificuldade da parte do espectador de entrar na história.

O longa não tem uma história sólida, e sim objetivos específicos de momento, sem algo que una essa narrativa. As histórias paralelas são pouco exploradas e falta objetivos mais fortes aos personagens. O nordestino, Ranulfo, é a melhor parte do filme, com uma ótima interpretação de Jõao Miguel ele proporciona cenas cheias de humor. Talvez um pouco sabido de mais para um nordestino da década de 40 que nunca saiu de sua pequena cidade, Ranulfo foge da seca e quer ganhar a vida na grande cidade. Existe uma indefinição de quem é o protagonista. A história começa com o alemão Johann, mas está claro em certo momento quem age com mais objetividade e com uma clara visão do que quer é o nordestino. A convivência do alemão e de Ranulfo é o ponto alto do longa.

O filme não explora o sertão para fazer uma crítica social, o ponto central abordado pelo longa é o homem, e como ele se coloca no mundo. A pobreza e a seca aparecem como o cenário onde vive aquele homem e não o homem como vítima do sertão. Mais do que a história de um nordestino que foge da seca, ou um alemão que foge da guerra, o longa conta a história de dois homens muito parecidos que buscam viver a vida apesar dos obstáculos.

O filme é diferente da maioria do que vem sendo produzido no cinema nacional, mas parece que faltou um pouco de ousadia do diretor para se profundar em uma estética silenciosa e com mais tempos mortos para criar um clima mais denso. A trama é pequena e os momentos de drama são pouco explorados. Sem uma dramatização e sem uma trama que amarre o filme, o final se torna muito aberto e insatisfatório. O filme termina e a sensação que se tem é de um longa que provoca algumas risadas mas que tem pouco a dizer e pouco mexe com o espectador.

Uma estética diferente da que é produzida por aqui, mas que não chega a ser uma inovação no cenário internacional. Vale como diversão e como um filme brasileiro diferente do que tem se visto na nova safra. O filme está longe de ser ruim, mas não é nada de extraordinário
.

 
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