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Fora de Circuito
por Marcelo Guerra

Café Lumière

Em uma homenagem a Ozu e ao cinema, o diretor Hou Hsiao-hsien, faz um filme que se livra da dramaturgia e tangencia um cinema puro. Uma história que vive das imagens, dos enquadramentos, do som, enfim das artimanhas próprias e únicas da sétima arte.

Filmando o cotidiano, com planos quase sem cortes e uma câmera fixa, o diretor faz sua homenagem ao gênio e diretor japonês Ozu. Recheado de trens, o longa também se aproxima e homenageia o começo do cinema, inclusive no seu título. No primeiro cinema o cotidiano era o valorizado, a chegada do trem, um bebê comendo, a saída da fábrica, enfim uma câmera fixa flagrava os personagens do real no dia a dia, a câmera não procurava uma ação, um foco principal, ou uma história com começo meio e fim. Ela flagrava vidas que já existiam, que por ela passavam e que continuavam a existir. Assim como em Café Lumiére, no qual vemos a personagem principal em sua vida cotidiana e acompanhamos fragmentos dessa vida, que já existia antes e continua existindo depois do fim da projeção.

O diretor trabalha muito com o extra campo, ou seja, muitas coisas acontecem fora do campo de visão da câmera. O que dá uma idéia que existe vida além daquilo que é enquadrado. Acentuando que aquilo é apenas parte de uma vida, algo que se escolheu mostrar.

A câmera sempre distante dá ao espectador uma sensação de voyer, acentuada pelas tomadas quase sem cortes que acompanham o personagem pela cidade, em trens e no dia a dia. Vamos construindo a personagem por fragmentos de cada cena, fragmentos que aparecem quase por acaso.

O enquadramento também acentua a sensação de voyerismo. A câmera se fixa fora dos cômodos e vemos a ação, muitas vezes, enquadrada pelo batente de uma porta.

A gravidez da personagem principal, a única semente de conflito que existe no filme, é tratada como algo que permeia a história sem se dar uma importância de algo central. A câmera só se aproxima da personagem principal, em um primeiro plano, com quase uma hora de projeção. Não entramos no filme, mas assistimos a ele sabendo que se trata de uma visão, de um enquadramento de uma parte de uma vida que segue.

Os personagens são bem construídos, assim como o clima que toma conta do filme. A mãe que está sempre na cozinha e servindo os outros, o pai sempre calado e pensativo e a filha um exemplo de modernidade, uma mulher que busca seu espaço.

Construido através de imagens e sons, típico do cinema, e muito distante de uma narrativa clássica, o filme conta uma história que só o cinema poderia contar. Quem espera um filme tradicional ficará decepcionado. Quem gosta do cinema asiático e está aberto a ver o cinema como algo mais do que um drama transportado para a tela vai se deslumbrar com essa bela obra da sétima arte. Cinema na sua forma mais pura. O filme começa e termina como o cinema começou, com a chegada do trem
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