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Fora de Circuito
por Marcelo Guerra

O Segredo de Brokeback Mountain

Falar que Brokeback Mountain é um filme gay ou que trata do preconceito é diminuí-lo, pois o competente filme de Ang Lee é bem mais do que isso. O longa trata de sentimentos, de impossibilidades, de vidas perdidas, de mentiras, de manter as aparências, de se abster do que sente para ser aceito pela sociedade e mais.

Na primeira meia hora do filme, me perguntava sobre como seria assistir esse longa sem saber nada sobre a história, algo impossível devido a todo o marketing que foi feito em cima de Brokeback. Já sabendo que os dois personagens principais irão se tornar amantes, cada olhar, cada toque e cada palavra tomam um significado diferente, se intensificam. O espectador fica esperando o momento do primeiro beijo, o momento no qual eles irão finalmente transformar a amizade em algo a mais. Não sei se, sem saber previamente a história, esse começo seria melhor ou pior, mas com certeza seria muito diferente. Talvez o filme perdesse um pouco da sua força, pois o espectador interpretaria menos cada movimento, olhares e toques poderiam passar despercebidos.

O instante tão esperado e que leva ao primeiro ponto de virada do longa consegue surpreender. Não existe uma progressão tão gradual, o que conserva o impacto desse climáx. Ele chega de forma abrupta e violenta, assim como o próprio ato em sí. Talvez esse seja o momento mais chocante do filme, a cena beira a de um filme pornográfico, mas se fosse uma cena de sexo entre um homem e uma mulher, seria apenas mais uma nos filmes de Hollywood. Ang Lee mostra nesse filme o necessário, nada demais nem de menos. As cenas de homosexualismo estão na medida certa, não ficaram over nem esteriotipadas. As cenas dramaticas também são bem conduzidas, não se transformando em melodrama. Ele conta uma história sem forçar emoções. Ele não faz show em cima das cenas, ele não pretende chocar. Os atores principais também estão muito bem nos papéis dos cowboys que se apaixonam. Quando estão juntos, eles conseguem passar afetividade e carinho sem pareceram falsos, ou afetados demais.

O segundo ato é a parte mais interessante do filme. É a partir daí que os dois cowboys devem viver suas vidas depois de se apaixonarem. Não podendo morar juntos, pois na década de 60 (ainda mais naquela parte dos Estados Unidos) homosexualismo era totalmente inaceitável. Eles vivem suas vidas separados se encontrando apenas algumas vezes por ano. Com famílias constituídas, trabalhos e vidas paralelas, eles só vivem de verdade quando se encontram para "pescar". O tempo flui solto pela tela e entre cada cena passam dias, meses e até anos. A passagem de tempo é marcada apenas por uma simples, mas eficiente maquiagem e pelo crescimento das filhas de Ennis. Suas vidas com as esposas são a verdadeira fachada e os cowboys vivem de verdade apenas os momentos que estão juntos, apenas alguns dias no ano.

A parte final consegue ser surpreendente e emocionante, apesar do final de certa forma aberto.

Brokeback Mountain não chega a ser uma obra-prima, mas é um bom filme e merece a indicação ao Oscar. Só não sei se Jonh Wayne concordaria comigo.

 
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