Sétima Arte

Guerra ao Terror por Francisco Russo

A Guerra Como Ela É
06/02/2010 6

Guerras são matéria prima para o cinema desde sempre, seja pelo caráter histórico ou como denúncia. A Guerra do Vietnã, em especial, rendeu diversos filmes que mostravam os abusos e atrocidades nela ocorridas. A recente Guerra do Iraque começa agora a também ser retratada, geralmente ressaltando o caráter tecnológico ou denunciando os maus tratos cometidos. É o caso do ainda inédito Redacted, de Brian De Palma, e o documentário Procedimento Operacional Padrão. Guerra ao Terror procura apresentar o cotidiano desta guerra, sob a ótica dos militares que a vivenciam. Uma ótica que passa por cima de toda e qualquer ideologia política para ressaltar o que para eles é o mais importante: sobreviver.

Para apresentar esta realidade, a diretora Kathryn Bigelow resolveu apostar em nomes pouco conhecidos. Mais importante do que ter um astro era ter um personagem, alguém com quem o público pudesse acreditar no que se passa com ele. Pois esta é a chave que faz o filme funcionar: a sensação de veracidade. A tensão onipresente, o medo de que qualquer um à sua volta possa ser um inimigo, a desconfiança geral, a certeza de que a morte possa chegar a qualquer minuto... tudo isto faz parte do cotidiano dos envolvidos, que precisam não apenas realizar o serviço ao qual foram designados como também lidar com suas questões emocionais e psicológicas.
 
Neste contexto, é ainda mais relevante a ausência do lado político. Não que os militares sejam alienados, mas esta simplesmente não é sua prioridade. E aqui entra uma questão implícita, referente à necessidade desta guerra. Se houvesse um objetivo mais claro, algo contra quem combater, seriam os envolvidos mais politizados? A própria origem da guerra do Iraque, e sua manutenção, não faz com que as pessoas ajam sem grandes questionamentos ou interesses, como se meramente estivessem cumprindo um serviço? Ou esta simplesmente é uma característica dos dias atuais, onde a grande maioria não se interessa por assuntos mais densos e complexos, preferindo viver na superficialidade? São perguntas que Guerra ao Terror não responde, mas levanta.

O que o filme apresenta, com bastante competência, são diversos pontos de vista de como encarar uma guerra. E, nesta questão, não é algo específico desta guerra, poderia ser aplicado a qualquer outra. William James (Jeremy Renner, em bela atuação) precisa de adrenalina para viver, é o único meio pelo qual consegue se sentir bem consigo mesmo. Desta forma, apesar de reconhecer os riscos existentes, se oferece para vivenciá-los. JT Sanborn (Anthony Mackie, injustamente esquecido nas premiações) é o típico funcionário padrão, que toma todos os cuidados possíveis para permanecer vivo por mais um dia. Já Owen Eldridge (Brian Geraghty) tem a certeza absoluta que está ali para morrer, a qualquer momento.
 
Estas distinções ao encarar a situação extrema em que vivem fazem com que o grupo formado por James, Sanborn e Eldridge tenha características bastante peculiares. No trabalho funciona muito bem, mesmo com divergências sobre o modo de agir, mas no lado pessoal enfrenta problemas que, às vezes, colocam o trio em risco. São pequenos detalhes que compõem uma guerra e que, muitas vezes, definem determinados comportamentos e atos.
 
Guerra ao Terror é um bom filme, que traz uma reconstituição precisa da realidade na guerra do Iraque. Conta com um elenco coeso, que logo descarta os atores de maior renome, e efeitos especiais e sonoros sem excessos, usados apenas de acordo com a necessidade da trama. E aos que de imediato veem os militares como os heróis da história, fica a pergunta: como você se sentiria se um estrangeiro estivesse em seu país e andasse pelas ruas em um tanque onde há uma placa escrito "fique 100 metros atrás ou atiramos", sem oferecer qualquer chance de defesa? Ou que, como em determinado momento do filme é dito, os militares "ali têm liberdade para matar"? De ambos os lados há excessos e Guerra ao Terror também os apresenta. Afinal de contas, a realidade é bem mais complexa do que uma mera escolha entre mocinhos e bandidos.

Comentários

Nome do Usuario

Sr. Ketilys em 06/02/2010

Ao sair do cinema, fiquei pensando se nao era soh um filme propagandista dos EUA. Mas olhando por essa otica tao bem colocada do Francisco Russo, ja comeco a gostar da obra. Apesar de sabermos que eh o exercito estadunidense ali, nao ha aquele irritante "patriotismo" e "norte-americanocentrismo" dos filmes sobre a gerra do Vietna. O filme eh exatamente o que foi dito acima. O dia-adia e as agruras dos soldados cumprindo seu dever e os motivos por cada um agir como age. 

Nome do Usuario

fernandoparinos em 06/02/2010

Esse filme foi genial, o realismo apresentado ali é alem do limite.

Nome do Usuario

luis em 07/02/2010

Vi esse filme há mais de 7 meses, e não conseguia enteder como um filme desses ia passar em branco.O titulo é horroroso, e não tem nada a ver com a história do filme.Na minha lista do Oscar, o vencedor de melhor ator Jeremy Renner, que eu considero um grande ator.Um filme para ver 3 vezes seguidas.

Nome do Usuario

paulo santiago em 08/02/2010

O filme é digno de elogios. A Bingelow mostrou com perfeição um 'drama bélico' bem atual. Na qual o espectador assisti a uma guerra com contestações por parte de quem tá lá, ai vem a pergunta: e para que isso?


Como afirmou o Sr. Ketilys, não vimos um patriotismo chato e etinocentrico dos americanos, não de forma constante, porque sabendo como são os norte-americanos, sempre tem uma estrela da bandeira estadunidense presente por esses filmes.


Os personagens possuem caracterírsticas distintas, são complexos e conforme a história vai seguindo eles mostram o que querem para si e como querem. O roteiro é bem construido e envolve nas cenas de suspense contínuo que o filme possui, é tanta adrenalina que vc fica sem saber o que vai acontecer e quando vai acontecer, são minutos tensos que o filme tras.


As indicações ao oscar são "entendíveis", o filme merece. E quem sabe a Bigelow não será a primeira mulher a ganhar o prêmio de melhor direção?? eu aposto nela para isso. vlw!!!

Nome do Usuario

lonardoflambado em 27/04/2010

Vi duas vezes seguidas, ótimo filme.
Eu acho que a visão política deste é realmente "contra" os EUA, acho difícil se manter neutro nesse assunto.
Parabéns pelo texto, muito bom!

Nome do Usuario

Eliani Gomes em 11/11/2011

Preciso de ajuda. Assisti um filme cuja história é baseda em fatos reais. Um jovem foi preso como criminoso procurado pelas altoridades, mas por engano, ele tinha o mesmo nome do verdadeiro criminoso. Seu pai tentou de todas as formas para que a polícia investigasse mas, porem o caso foi encerrado, mas o pais não desistiu, continuou a investigação por conta própria até que conseguiu provar a inocencia do filho.
Não consigo lembrar o nome do filme se alguém puder me ajudar, fico grata.



É necessário estar logado para comentar esta notícia.

publicidade
publicidade

Últimos Comentários

  • Para Sempre

    Já teve um filme com roteiro parecido com o Adam Sandler e a Drew Barrymore, não teve?

    por Atena Negra, 14/02/2012 às 18:13

  • Thelma & Louise

    É uma pena que você tenha visto o filme sob esse ponto de vista, Benedito. Quanto ao final...

    por Atena Negra, 14/02/2012 às 18:04

  • Thelma & Louise

    Superestimado filme de Scott , deixou muita gente deslumbrada .Uma aventura de liberalismo f...

    por Benedito, 14/02/2012 às 17:22

  • A Negociação

    Filme recomendado. Análise: Roteiro bom, atuações regulares, fotografia regular, trilha s...

    por NEO, 14/02/2012 às 17:10