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Sétima Arte
por Francisco Russo

Maior, Melhor e Mais Completo
"X-Men 2" aprofunda ainda mais o conflito entre mutantes e a humanidade

A atual febre de filmes de super-heróis das histórias em quadrinhos teve início em 2000, com o lançamento de X-Men. Tratava-se de uma aposta arriscada da Fox e da Marvel nos personagens de uma das revistas de maior vendagem em todo o planeta. Após o lançamento, a aposta mostrou-se acertada: "X-Men" foi um grande sucesso e, mais importante, deixou no público um gostinho de "quero mais".

O público teve que aguardar três longos anos até poder conferir novamente as aventuras da equipe mutante no cinema. Neste período outros filmes de super-heróis das HQs foram lançados e fizeram sucesso, entre eles Homem-Aranha, Demolidor e Blade. As dúvidas sobre o filão dos filmes de super-heróis estavam dizimadas e a Fox apostou ainda mais na sequência. Acertou a permanência do diretor Bryan Singer, aumentou o período de filmagens e também o orçamento do novo filme, melhorando ainda as condições de trabalho da equipe de produção. O resultado destes aperfeiçoamentos chega agora às telas de cinema.

Assim como no primeiro filme, em X-Men 2 há uma grande valorização à essência de ser dos X-Men: o conflito entre a humanidade e os mutantes. Porém, se no filme original somos apenas apresentados a esta situação aqui Bryan Singer vai ainda mais fundo na questão, mostrando reações de humanos e mutantes ao preconceito existente sob as mais diversas formas. É a partir de uma destas reações que a trama do filme tem início, após um mutante desconhecido invadir a sala do Presidente dos Estados Unidos na Casa Branca e quase matá-lo. Pressionado pela opinião pública e pelo próprio medo daquele ser que facilmente passou pela segurança do homem mais importante do país, o Presidente autoriza a implantação de um projeto de grandes proporções que tem por finalidade localizar e exterminar todos os mutantes da face da Terra.

Esta ameaça é personificada em William Stryker (Brian Cox), a pessoa que convence o Presidente da utilidade do plano contra os mutantes. A personalidade de Stryker, um personagem que pouquíssimas vezes apareceu nos quadrinhos, é exibida aos poucos, mostrando também os motivos ocultos pelos quais têm tanto interesse no projeto. Com o plano aprovado, o preconceito existente faz com que a Mansão Xavier seja atacada e os mutantes, em busca de sobrevivência, precisem esquecer suas diferenças e se unir para combater a nova ameaça.

A forma como o preconceito entre mutantes e a humanidade é retratada em X-Men 2 é o grande mote do filme. Tudo gira em torno dele e a forma madura e realista com a qual é retratado pelo diretor Bryan Singer faz com que esta situação seja facilmente comparada com nossa vida real, permitindo que possamos realizar as mais diversas analogias. Além disso, mais uma vez é impressionante o respeito dos produtores e de Singer em manter fiel a essência das histórias dos X-Men e dos personagens que orbitam a equipe mutante. Diversas cenas e situações são verdadeiras homenagens aos fãs de quadrinhos, que podem conferir nas telas adaptações muito parecidas de seus personagens prediletos.

Outro ponto que merece destaque em X-Men 2 é seu roteiro. Não apenas por explorar de forma bem mais profunda a questão do preconceito, mas também por apresentar as várias diferenças e características pessoais dos principais personagens. Há diversas subtramas dentro do filme, que mostram não apenas o passado dos personagens como algumas de suas características mais marcantes dos quadrinhos. Um exemplo é o modo como Wolverine é apresentado, de forma extremamente violenta e ao mesmo tempo em seu eterno conflito para não perder o controle de suas atitudes. Tempestade, por sua vez, demonstra que já não acredita tão fielmente no sonho de Xavier, o que é retratado principalmente em uma conversa que tem com Noturno. Já Jean Grey demonstra a insegurança que já tinha no filme original somado ao grande poder que possui. O mesmo ocorre com diversos outros personagens, como Vampira, Homem de Gelo, Magneto ou Pyro.

Assim como seu antecessor, X-Men 2 não é um filme marcado principalmente pelas cenas de ação. Elas estão lá, em quantidade maior que o filme original e em qualidade superior, mas servem principalmente à trama. O mesmo vale para os efeitos especiais do filme, muito bons mas que não brilham individualmente e sim se adequam à sua necessidade dentro do roteiro. Há cenas impressionantes em que eles são utilizados, como a fuga de Magneto, a primeira aparição de Noturno e a cena final, que não irei contar para não estragar a surpresa mas trata-se de uma das passagens mais marcantes da história dos X-Men nos quadrinhos. Alterada em relação à sua versão original, mas com a mesma essência e que empolga tanto quanto nas HQs.

Por todos estes fatores X-Men 2 conseguiu uma façanha rara em Hollywood: superou o filme original. Há agora uma maior divisão entre os principais personagens dentro do roteiro, cada um ganhando uma melhor função e utilidade dentro do filme. Sem mais a necessidade de contar as origens do grupo, o filme tem espaço para trabalhar melhor a trama e os próprios personagens, que ganham ainda mais força. As cenas de ação são bem dosadas, sem serem excessivas nem espalhafatosas, mas impactantes para quem as assiste. Sem contar que, assim como no filme original, há diversas citações ao universo mutante que apenas os fãs das HQs perceberão. Para eles, um alerta: atenção aos alunos da Escola Xavier, ao computador acessado por Mística e às TVs que surgem em cena. Porém, sendo fã ou não de quadrinhos, por ser um filme mais próximo da ficção científica do que propriamente um filme de ação e, acima de tudo, ter um conteúdo impressionante, X-Men 2 garante a diversão de quem o assiste e torna o fato de ser baseado numa HQ apenas um bônus a mais para quem gosta de acompanhar esta cultura tão subestimada e ao mesmo tempo tão valiosa.
 
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