Certos filmes geram tamanha expectativa antes de serem lançados que não é preciso ser gênio para deduzir seu futuro. Um exemplo ocorreu neste ano, com Transformers. O marketing e a própria lembrança da série animada eram suficientes para apostar, com quase 100% de certeza, que se tornaria um sucesso de bilheteria e que a inevitável sequência logo estaria por vir. Isto não aconteceu com A Identidade Bourne. Era considerado um filme de ação como tantos outros que Hollywood lança todo ano, baseado num livro que já havia sido adaptado para a TV décadas antes e estrelado por um astro em formação, Matt Damon, que ainda não tinha um sucesso de bilheteria exclusivamente seu. Apesar da desconfiança, o 1º filme de Jason Bourne saiu-se bem: US$ 120 milhões em caixa, apenas nos Estados Unidos. A Supremacia Bourne, o filme seguinte, foi ainda melhor e arrecadou US$ 176 milhões. Caminho aberto para que o fim da trilogia, O Ultimato Bourne, saísse do papel.
O Ultimato... segue a linha adotada pelos filmes anteriores da série: viagens por diversos recantos do planeta, cenas de ação frenéticas e lutas bem realistas. Não há a preocupação em justificar como tudo acontece, já que as respostas foram dadas no 1º filme: Jason Bourne passou por um treinamento intensivo para se tornar uma máquina de matar, que reage de forma automática aos acontecimentos à sua volta. Desta forma não é de surpreender vê-lo falando diversos idiomas, antevendo os passos de seus opositores ou simplesmente lutando. Bourne não sabe como faz tudo isso, apenas sabe que faz. Sua busca em saber o porquê de ser assim é a mola-mestra da série. Resolver esta questão é o objetivo deste 3º filme, o que ocorre de forma convincente.
Mais do que saber sobre o passado de Jason Bourne, há em O Ultimato... um pano de fundo bastante atual e interessante: a disputa interna na CIA, criadora de Bourne. Há dois caminhos a seguir, representados pelos personagens de David Strathairn e de Joan Allen: ela mantendo a linha tradicional de espionagem, de mais observar e acompanhar do que agir; ele disposto a passar por cima de tudo para atingir seu objetivo, sem medir as vítimas. Trata-se de um típico conflito nascido no pós-11 de setembro. É claro que, na vida real, uma disputa deste porte dentro da principal agência de segurança dos Estados Unidos jamais viria a público. Mas o que é mostrado em O Ultimato... é bastante crível, ainda mais ao lembrar de atitudes do atual governo americano, como sua política externa e o famoso Ato Patriota. Ver este duelo e seus desdobramentos, e compará-lo com o que ocorre à nossa volta, faz com que O Ultimato... não seja apenas um mero filme de ação. E este é o diferencial deste 3º filme, em relação aos anteriores da série.
Além disto, as cenas de ação são caprichadas. As lutas são intensas e as perseguições merecem destaque, especialmente a da fuga em Nova York - de longe a mais espetacular perseguição automobilística do ano. A câmera tremida, marca registrada do diretor Paul Greengrass, ajuda a transmitir a tensão nas cenas de ação mas chega a incomodar nas cenas mais tranquilas. Não há motivo para que, numa cena focada apenas em Julia Stiles, a câmera continue balançando, por exemplo. Este exagero em apenas usar este estilo de filmagem às vezes atrapalha, o que ocorre não apenas neste como também em outros filmes dirigidos por Greengrass.
O Ultimato Bourne é um bom filme, antenado com o panorama político norte-americano e que fecha bem a trilogia. Nem todas as respostas são reveladas, mas o exibido é suficiente para fechar esta fase da vida de Jason Bourne. Esta talvez seja a maior qualidade da série: a coerência. São três filmes de nível muito parecido, com uma pequena queda no 2º, que contam uma história que se fecha. Um novo filme pode até vir, mas com certeza terá um cenário bastante diferente do apresentado até então. A série Bourne não entrará para a história como uma das melhores já feitas no cinema, mas ficará marcada pela sua competência dentro do que se propôs a ser.