Rocky Balboa está no panteão dos grandes personagens criados pelo cinema, juntamente com Indiana Jones, Darth Vader, o inspetor Clouseau e tantos outros. Sua 1ª aparição ocorreu há 30 anos atrás, conseguindo a proeza de indicar seu intérprete, Sylvester Stallone, ao Oscar de melhor ator e também de abocanhar o prêmio de melhor filme. Para se ter idéia do tamanho do feito, Rocky, Um Lutador desbancou Todos os Homens do Presidente, Taxi Driver e Rede de Intrigas. Não foi pouca coisa. A popularidade do personagem fez com que retornasse em mais 4 filmes. A maioria com sucesso de público, mas nem sempre de crítica. A exceção foi Rocky V, o pior filme da série, que também não foi bem nas bilheterias. Feito em 1990, desde então não se tem nem sombra de Rocky Balboa nas telas de cinema. Até agora.
Retomar o personagem era um projeto antigo de Stallone, que o acalentava já há alguns anos. Difícil era encontrar alguém que bancasse a empreitada. A MGM, produtora da série, não demonstrava interesse e a própria carreira do ator não ajudava, com seguidos fracassos. Havia ainda a velha questão: estaria Stallone, aos 60 anos, apto a voltar de forma convincente à excelência física que o personagem exigia? E mais, estaria o público disposto a aceitar o retorno do personagem com esta idade? Muita gente, inclusive este colunista, via o projeto como uma piada. Uma tentativa desesperada de Stallone de voltar ao sucesso, se agarrando ao seu personagem mais famoso. O motivo pode até ter sido este, mas é preciso dizer: Rocky Balboa é um bom filme.
É um bom filme porque respeita suas próprias limitações e explora com habilidade a história já existente em torno do personagem. Há inúmeras citações aos filmes anteriores, inclusive com o uso de cenas deles. Adrian e Mickey, interpretados em filmes anteriores por Talia Shire e Burgess Meredith, são lembrados, assim como "little Marie". Lembra dela? É uma personagem coadjuvante, que aparece apenas no filme original, numa cena em que Rocky a acompanha até sua casa. Em Rocky Balboa ela está de volta, em uma participação fundamental. Resgatar esta personagem foi um verdadeiro achado. É ela quem faz a ponte entre o que foi e o que é Rocky Balboa, de forma a despertar mais uma vez a empatia deste com o público. O velho Rocky, que buscava de forma ingênua agradar Adrian no original, estava de volta.
Este não é o único elemento do filme original a ser utilizado em Rocky Balboa. Na verdade toda a estrutura do novo filme é muito parecida com a de Rocky, Um Lutador. Pode-se até dizer que chega perto de ser uma refilmagem, com os personagens sendo atualizados com sua nova idade. As roupas usadas por Rocky são as mesmas, a ambientação local é idêntica, o adversário arrogante e que menospreza Rocky está lá e o próprio desenvolvimento do roteiro, com uma valorização do lado dramático e sua derradeira conclusão no confronto no ringue, também é mantido. Para evitar que Rocky Balboa se tornasse uma piada, Stallone simplesmente repetiu o que já tinha feito sucesso. Se por um lado o novo filme tem muito pouco de originalidade, por outro utiliza elementos que, mais uma vez, dão certo.
Porém o grande desafio do novo filme é a luta final, quando ressurgem as questões que o colocavam em dúvida. A utilização do público de uma luta real de boxe, que foi exibida pelo pay-per-view nos Estados Unidos, dá uma certa grandiosidade ao espetáculo. A chegada de Rocky ao ringue, o apoio do público e o próprio clima criado em torno da luta, que representa não apenas uma luta de boxe mas sim o retorno de um mito, especialmente para os fãs do personagem, chegam a arrepiar. Mas nada empolga mais do que a própria luta, que usa um artifício para tornar o confronto parelho. Trata-se de uma das melhores lutas de toda a série. Vibrante, empolgante, daquelas que o espectador se vê torcendo sem nem precisar fazer força.
Rocky Balboa é um filme maduro, coerente, que respeita sua história e procura dar ao fã o que ele deseja. Trata-se de um belo desfecho para a série. E que Stallone o mantenha como sendo o derradeiro filme de seu personagem mais famoso, pelo bem de Rocky Balboa.