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Sétima Arte
por Francisco Russo

Desespero e Melancolia
É impossível não ser afetado pelo novo filme de Darren Aronofsky

Tive a oportunidade de assistir recentemente "Réquiem para um sonho", mais recente filme do diretor Darren Aronofsky, que recebeu uma indicação ao último Oscar. O filme, que estará sendo exibido no próximo Festival do Rio e provavelmente também na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, traz a história de quatro pessoas normais, como eu e você, com seus sonhos e anseios por uma vida melhor mas que enfrentam algo que irá modificá-los para sempre: a dependência às drogas.

A princípio o tema não parece ser nada de mais. Recentemente tivemos outro filme sobre drogas que fez sucesso tanto aqui quanto nos Estados Unidos, "Traffic", e que ainda foi indicado ao Oscar de melhor filme. Só que se "Traffic" nos mostrava o mundo das drogas sobre os mais diversos ângulos, "Réquiem para um sonho" traz os personagens para perto de você, fazendo com que você acabe torcendo para que seus sonhos se concretizem. É assim que conhecemos Sara, Harry, Marion e Tyrone, personagens principais da trama. Harry e Marion, interpretados respectivamente por Jared Leto e Jennifer Connelly, formam um casal jovem em que um é completamente apaixonado pelo outro. Sara é a mãe de Harry, interpretada de forma magnífica por Ellen Burstyn e completamente vidrada em um programa de televisão o qual assiste sempre que pode; enquanto que Tyrone, interpretado por Marlon Wayans, é o melhor amigo de Harry. Os quatro possuem seus próprios sonhos, demonstrados ao longo do filme, mas acabam se tornando dependentes químicos. Harry e Marion usam os mais diversos tipos de drogas, sendo que ele e Tyrone acabam montando um negócio próprio do tráfico. Já Sara passa a usar com uma frequência cada vez maior remédios para emagrecer, já que recebera uma ligação para participar de seu programa de TV predileto e deseja utilizar um vestido vermelho que não cabe mais nela.

O que mais impressiona em "Réquiem para um sonho" é até onde o ser humano pode ir para realizar seus sonhos, mesmo que surja uma fixação em realizá-los de qualquer maneira, independente de qual caminho seja seguido. É justamente isto que acontece com Harry, Marion, Sara e Tyrone. Ansioso em se casar com Marion e abrir um negócio próprio para ela, Harry decide traficar drogas juntamente com Tyrone. Já Sara, desejosa por caber em seu vestido, quer emagrecer de qualquer maneira e para tanto utiliza remédios para perder a fome que a deixam cada vez mais elétrica e, ao mesmo tempo, dependente deles. Os meios pelos quais o quarteto busca atingir seus objetivos logo traz graves consequências, fazendo como se um verdadeiro pesadelo em conjunto estivesse sendo visto na tela e com que o espectador tenha vontade de alertá-los para o que está por vir, como se isso fosse modificar algo no decorrer do filme.

Mas "Réquiem para um sonho" não teria nem metade do seu impacto se não fosse Darren Aronofsky quem o estivesse dirigindo. O jovem diretor, recentemente contratado pela Warner Bros. para dar forma ao próximo filme do super-herói Batman, demonstra todo o seu controle sobre o que está sendo exibido na tela através da forma como os personagens vão, aos poucos, trilhando caminhos perigosos para realizarem seus sonhos. Logo no início do filme temos uma mostra do trabalho de Aronofsky: em uma tela dividida pela metade vemos Sara se escondendo de Harry enquanto que o filho leva sua televisão para ser penhorada, em busca de dinheiro para drogas. Em uma mesma cena percebemos o medo e a aflição de Sara e o desespero de Harry em conseguir dinheiro, pontuada pela frase "Isso não pode estar acontecendo. E, se estiver acontecendo, não pode ser tão grave assim". Uma clara mostra da falta de noção que os personagens principais tinham sobre os perigos que a dependência química trazia às suas vidas.

Encerrado o filme, é inévitável que o espectador pare e reflita sobre tudo aquilo que acabou de ver. Este é daqueles filmes que, inevitavelmente, o afetam de alguma forma. A sensação que senti ao término do filme foi da mais absoluta tristeza, por ter presenciado uma tragédia tão anunciada e ao mesmo tempo tão inevitável. Porque "Réquiem para um sonho" é isso: um filme duro e triste, como se alguém lhe desse um verdadeiro soco no estômago. Uma mistura precisa de desespero e melancolia, que mostra que devemos sim sonhar, mas que devemos também ter a consciência de que nenhum sonho vale a pena se para que ele seja alcançado tenhamos que simplesmente vender nossa alma.
 
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