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Sétima Arte
por Francisco Russo

O Inconveniente da Vez
"Uma Mente Brilhante" pode desbancar favoritos do público no Oscar

Ao longo dos anos, inúmeras foram as vezes em que filmes de grande apelo popular foram indicados ao Oscar de melhor filme mas, na hora H, perderam a cobiçada estatueta para outro filme de menor fama junto ao público. Nem mesmo filmes cultuados até hoje, como "Os Caçadores da Arca Perdida" e "E.T., o Extra-terrestre", se viram livres deste estigma, mais recentemente reeditado com os sucessos "O Sexto Sentido" e "À Espera de um Milagre". Não entro na questão sobre se os ganhadores de tais Oscars eram ou não merecedores de tais prêmios, mas a derrota de filmes queridos do público sempre levanta vozes de "marmelada" ou "armação" contra o Oscar pois, afinal de contas, todos querem que seu filme predileto saia da cerimônia de entrega das estatuetas douradas como o grande vencedor da noite.

Pois esta situação pode se repetir justamente neste próximo Oscar. Com "Moulin Rouge" e "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" na disputa, dois filmes extremamente queridos pelo público cinéfilo, o prêmio principal da cerimônia deste ano pode ir justamente para um filme que, apesar de não ter tanta badalação ao seu redor, vem conquistando boa parte dos principais prêmios desta temporada pré-indicações ao Oscar: o drama "Uma Mente Brilhante". E é justamente por surgir como uma real ameaça aos filmes de Baz Luhrmann e Peter Jackson que o novo trabalho do diretor Ron Howard vem sendo tratado com desconfiança e desdém pelos cinéfilos em geral, ainda antes de sua estréia nos cinemas nacionais.

Entretanto, a desconfiança não é gratuita. Basta dar uma rápida olhada nas credenciais e história de "Uma Mente Brilhante" para que se tenha uma boa noção do que o filme promete ser: uma história lacrimejante de superação, baseada em fatos reais e que se adequa perfeitamente ao gosto da quase sempre conservadora Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Foi justamente com esta impressão em mente que assisti "Uma Mente Brilhante", impressão esta que foi se modificando aos poucos durante seu decorrer.

Que o filme trata de uma história real de superação, isto é inegável. "Uma Mente Brilhante" é a cinebiografia de John Nash, genial matemático que ainda na faculdade desenvolveu um estudo que mudou para sempre o modo como a economia mundial era tratada mas que, no auge de seu reconhecimento acadêmico, descobriu que possuía esquizofrenia. A partir de então, Nash é internado em uma clínica psiquiátrica, passa por diversos tratamentos e precisa aprender a lidar com sua doença e com seu novo estágio para prosseguir sua vida.

"Uma Mente Brilhante" poderia ser mais um drama que ganha destaque exagerado graças às boas atuações de integrantes de seu elenco, mas há algo no filme que consegue diferenciá-lo: a virada inesperada, promovida aproximadamente na metade do filme e que vem sendo tratada sob o mais absoluto sigilo, graças a um pedido do próprio Ron Howard aos jornalistas. Antes desta virada, o filme é absolutamente banal e corriqueiro. Temos sim uma grande atuação de Russell Crowe, sobre quem voltarei a falar mais adiante, mas a história envolvendo espionagem na década de 60/70 não traz grandes atrativos nem novidades. Porém, é justamente a partir do momento que tal virada é revelada que o filme ganha imensamente em interesse para o espectador, fazendo então com que "Uma Mente Brilhante" faça jus ao posto de pretendente ao Oscar de melhor filme.

É neste momento que o leitor deve estar imaginando: "mas que diabos de virada é essa?". Isso, infelizmente, eu não posso revelar. Ou melhor, até posso mas não quero. Não quero porque é justamente o inesperado desta virada que torna "Uma Mente Brilhante" um filme bastante interessante de ser assistido e, acredito eu, a simples revelação de tal "segredo" depreciaria e muito o prazer de assistir ao filme. Por outro lado, sinto-me na obrigação de ressaltar o elenco de "Uma Mente Brilhante", especialmente Russell Crowe e Jennifer Connelly.

Crowe já há algum tempo vinha demonstrando seu talento como ator em filmes como "Los Angeles - Cidade Proibida" e "O Informante". Ganhou o Oscar justamente por uma atuação menor sua, por "Gladiador", e talvez seja justamente este prêmio que impeça que ele saia da próxima cerimônia do Oscar com a estatueta de melhor ator. Não que ele não mereça, pois a atuação de Crowe como John Nash é simplesmente fantástica. Recheado de maneirismos típicos do personagem - e, acredito eu, também do verdadeiro John Nash -, a atuação de Crowe é talvez o que mais atraia em "Uma Mente Brilhante". Desde o início do filme Crowe consegue captar a atenção do público, impressionando em diversas cenas, como quando sofre convulsões ou descobre que sofre de esquisofrenia. Entretanto, o prêmio ganho em 2001 talvez lhe tire o deste ano, justamente por ser extremamente raro na história do Oscar que um ator ganhe o mesmo prêmio por dois anos consecutivos. Se Crowe merecerá entrar no seleto grupo destes ganhadores, onde constam apenas Spencer Tracy e Tom Hanks, será a principal pergunta ouvida pelos votantes da Academia ao longo das próximas semanas.

Jennifer Connelly se destaca em "Uma Mente Brilhante" graças à sua sensibilidade e beleza. Jennifer consegue, com um mero olhar ou um simples gesto, passar a sensação de medo do que Nash pode fazer em sua fase esquisofrênica e logo depois do amor que sente por ele. Sua personagem passa a ganhar um destaque real principalmente na segunda metade da trama, após a já comentada virada, tornando-se a partir de então o suporte necessário para o tratamento e recuperação de John Nash.

"Uma Mente Brilhante" é um dos principais filmes de 2001 e que muito provavelmente estará na lista dos indicados a melhor filme do Oscar, a ser anunciada no dia 12 de fevereiro. É o tipo de filme que, além de ser muito bem conduzido por seu diretor, possui um roteiro bastante inteligente no modo como tratar as situações da vida de Nash e grandes atuações. Não é o melhor filme de 2001, ao menos na minha opinião, mas com certeza está entre os melhores. Resta saber se isto será o suficiente para retirar do espetáculo musical "Moulin Rouge" ou da aventura épica "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel" o prêmio de melhor filme no dia 24 de março, data marcada para a entrega do Oscar'2002.
 
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