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O Inconveniente
da Vez
"Uma
Mente Brilhante" pode desbancar favoritos do público
no Oscar
Ao longo
dos anos, inúmeras foram as vezes em que filmes de
grande apelo popular foram indicados ao Oscar de melhor filme
mas, na hora H, perderam a cobiçada estatueta para
outro filme de menor fama junto ao público. Nem mesmo
filmes cultuados até hoje, como "Os Caçadores
da Arca Perdida" e "E.T., o Extra-terrestre",
se viram livres deste estigma, mais recentemente reeditado
com os sucessos "O Sexto Sentido" e "À
Espera de um Milagre". Não entro na questão
sobre se os ganhadores de tais Oscars eram ou não merecedores
de tais prêmios, mas a derrota de filmes queridos do
público sempre levanta vozes de "marmelada"
ou "armação" contra o Oscar pois,
afinal de contas, todos querem que seu filme predileto saia
da cerimônia de entrega das estatuetas douradas como
o grande vencedor da noite.
Pois esta situação pode se repetir justamente
neste próximo Oscar. Com "Moulin Rouge"
e "O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel"
na disputa, dois filmes extremamente queridos pelo público
cinéfilo, o prêmio principal da cerimônia
deste ano pode ir justamente para um filme que, apesar de
não ter tanta badalação ao seu redor,
vem conquistando boa parte dos principais prêmios desta
temporada pré-indicações ao Oscar: o
drama "Uma Mente Brilhante". E é justamente
por surgir como uma real ameaça aos filmes de Baz
Luhrmann e Peter Jackson que o novo trabalho do
diretor Ron Howard vem sendo tratado com desconfiança
e desdém pelos cinéfilos em geral, ainda antes
de sua estréia nos cinemas nacionais.
Entretanto, a desconfiança não é gratuita.
Basta dar uma rápida olhada nas credenciais e história
de "Uma Mente Brilhante" para que se tenha
uma boa noção do que o filme promete ser: uma
história lacrimejante de superação, baseada
em fatos reais e que se adequa perfeitamente ao gosto da quase
sempre conservadora Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Foi justamente com esta impressão em mente que assisti
"Uma Mente Brilhante", impressão esta
que foi se modificando aos poucos durante seu decorrer.
Que o filme trata de uma história real de superação,
isto é inegável. "Uma Mente Brilhante"
é a cinebiografia de John Nash, genial matemático
que ainda na faculdade desenvolveu um estudo que mudou para
sempre o modo como a economia mundial era tratada mas que,
no auge de seu reconhecimento acadêmico, descobriu que
possuía esquizofrenia. A partir de então, Nash
é internado em uma clínica psiquiátrica,
passa por diversos tratamentos e precisa aprender a lidar
com sua doença e com seu novo estágio para prosseguir
sua vida.
"Uma Mente Brilhante" poderia ser mais um
drama que ganha destaque exagerado graças às
boas atuações de integrantes de seu elenco,
mas há algo no filme que consegue diferenciá-lo:
a virada inesperada, promovida aproximadamente na metade do
filme e que vem sendo tratada sob o mais absoluto sigilo,
graças a um pedido do próprio Ron Howard
aos jornalistas. Antes desta virada, o filme é absolutamente
banal e corriqueiro. Temos sim uma grande atuação
de Russell Crowe, sobre quem voltarei a falar mais
adiante, mas a história envolvendo espionagem na década
de 60/70 não traz grandes atrativos nem novidades.
Porém, é justamente a partir do momento que
tal virada é revelada que o filme ganha imensamente
em interesse para o espectador, fazendo então com que
"Uma Mente Brilhante" faça jus ao
posto de pretendente ao Oscar de melhor filme.
É neste momento que o leitor deve estar imaginando:
"mas que diabos de virada é essa?". Isso,
infelizmente, eu não posso revelar. Ou melhor, até
posso mas não quero. Não quero porque é
justamente o inesperado desta virada que torna "Uma
Mente Brilhante" um filme bastante interessante de
ser assistido e, acredito eu, a simples revelação
de tal "segredo" depreciaria e muito o prazer de
assistir ao filme. Por outro lado, sinto-me na obrigação
de ressaltar o elenco de "Uma Mente Brilhante",
especialmente Russell Crowe e Jennifer Connelly.
Crowe já há algum tempo vinha demonstrando
seu talento como ator em filmes como "Los Angeles
- Cidade Proibida" e "O Informante".
Ganhou o Oscar justamente por uma atuação menor
sua, por "Gladiador", e talvez seja justamente
este prêmio que impeça que ele saia da próxima
cerimônia do Oscar com a estatueta de melhor ator. Não
que ele não mereça, pois a atuação
de Crowe como John Nash é simplesmente
fantástica. Recheado de maneirismos típicos
do personagem - e, acredito eu, também do verdadeiro
John Nash -, a atuação de Crowe
é talvez o que mais atraia em "Uma Mente Brilhante".
Desde o início do filme Crowe consegue captar
a atenção do público, impressionando
em diversas cenas, como quando sofre convulsões ou
descobre que sofre de esquisofrenia. Entretanto, o prêmio
ganho em 2001 talvez lhe tire o deste ano, justamente por
ser extremamente raro na história do Oscar que um ator
ganhe o mesmo prêmio por dois anos consecutivos. Se
Crowe merecerá entrar no seleto grupo destes
ganhadores, onde constam apenas Spencer Tracy e Tom
Hanks, será a principal pergunta ouvida pelos votantes
da Academia ao longo das próximas semanas.
Já Jennifer Connelly se destaca em "Uma
Mente Brilhante" graças à sua sensibilidade
e beleza. Jennifer consegue, com um mero olhar ou um
simples gesto, passar a sensação de medo do
que Nash pode fazer em sua fase esquisofrênica
e logo depois do amor que sente por ele. Sua personagem passa
a ganhar um destaque real principalmente na segunda metade
da trama, após a já comentada virada, tornando-se
a partir de então o suporte necessário para
o tratamento e recuperação de John Nash.
"Uma Mente Brilhante" é um dos principais
filmes de 2001 e que muito provavelmente estará na
lista dos indicados a melhor filme do Oscar, a ser anunciada
no dia 12 de fevereiro. É o tipo de filme que, além
de ser muito bem conduzido por seu diretor, possui um roteiro
bastante inteligente no modo como tratar as situações
da vida de Nash e grandes atuações. Não
é o melhor filme de 2001, ao menos na minha opinião,
mas com certeza está entre os melhores. Resta saber
se isto será o suficiente para retirar do espetáculo
musical "Moulin Rouge" ou da aventura épica
"O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel"
o prêmio de melhor filme no dia 24 de março,
data marcada para a entrega do Oscar'2002.
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