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Sétima Arte
por Francisco Russo

Dura Comparação
Alta expectativa gerada pelo 1º filme acaba prejudicando "Matrix Reloaded"

Em 1999 um filme chegou de mansinho aos cinemas e acabou provocando uma verdadeira revolução na sétima arte. Este filme era Matrix, sucesso absoluto de público e crítica. Meses mais tarde, este mesmo filme surpreendia na noite de entrega do Oscar após abocanhar as estatuetas das quatro categorias as quais concorria. Com um detalhe extra: o maior vencedor da noite, Beleza Americana, havia ganho 5 Oscars, ou seja, apenas um a mais que Matrix. Além disso, Matrix serviu de inspiração para diversos filmes, que passaram a copiar descaradamente o formato de suas cenas de ação ou até mesmo o visual futurista de seus personagens. Definitivamente Hollywood havia mudado após seu lançamento.

Quatro anos mais tarde, chega aos cinemas sua primeira sequência, Matrix Reloaded, prometendo revolucionar novamente a sétima arte. A ansiedade do público pela continuação da história de Neo e sua trupe é gigantesca e, se por um lado ela tem ajudado a transformar o novo filme em um grande sucesso de público, por outro acaba atrapalhando por gerar em Matrix Reloaded uma expectativa alta demais.

Não que Matrix Reloaded seja um filme ruim, pois definitivamente não é. Trata-se de um filme muito bom, que respeita seu original, revela novos segredos sobre o mundo das máquinas e a própria matrix e ainda dá o passo adiante para que a história seja concluída, no desde já aguardadíssimo Matrix Revolutions. Porém, Matrix Reloaded não possui um fator que em muito ajudou o estupendo sucesso de Matrix: a novidade. Se justamente por não ter sido muito badalado antes de seu lançamento Matrix pôde se tornar a surpresa que foi, surpreendendo graças à sua trama envolvendo múltiplas realidades e um futuro apocalíptico, aqui isto não acontece. Matrix Reloaded possui cenas de ação empolgantes e vibrantes, revela novidades para os fãs da mitologia existente em torno do filme, mas não chega a surpreender. Ao menos não tanto quanto o filme original.

Matrix Reloaded segue a mesma linha do primeiro filme, mesclando muita informação em sua 1ª hora e cenas de ação das mais variadas em sua reta final. A diferença principal entre os dois filmes é que, se no original esta 1ª hora surpreendia com revelações impactantes e inesperadas, em Matrix Reloaded ela revela novidades sobre o "universo Matrix" mas, devido ao público já ter uma noção sobre a realidade mostrada no filme, não chega a impressionar tanto. Ainda assim explicações sobre a existência da Oráculo apenas na matrix e o porquê da própria existência da personagem dentro do sistema são bastante interessantes e prendem a atenção.

Porém, o que há de mais impressionante em Matrix Reloaded é justamente a sua segunda metade, onde os irmãos Wachowski demonstram toda a sua habilidade em realizar cenas de ação. É aqui que pode ser melhor percebido onde e como foram gastos os quase US$ 300 milhões destinados ao orçamento dos dois novos filmes da série, com cenas de ação eletrizantes e que realmente deixam o público de queixo caído. Duas delas merecem uma atenção maior: o combate entre Neo e dezenas de Smith's e a cena de perseguição na auto-estrada. Enquanto que na primeira os Wachowski oferecem ao público um verdadeiro balé coreografado, onde os golpes dos personagens nunca se repetem e cada segundo provoca uma nova surpresa, a segunda nada mais é do que uma perseguição de 17 minutos onde Morpheus e Trinity precisam enfrentar agentes e um novo vilão para salvar um importante personagem da trama. Ambas empolgantes e que merecem estar ao lado das melhores cenas de ação do filme original.

Além disso, um ponto que pode ser claramente percebido em Matrix Reloaded é a utilização do humor por parte dos Wachowski em diversas cenas do filme. Cenas como o encontro com Merovingian e, posteriormente, com Persephone ou a própria luta de Neo contra os Smith's possuem seus momentos engraçados, que surpreendem também por serem inusitados. Outra mudança percebida é o comportamento do trio principal de personagens. Neo, por exemplo, tem bem menos espaço no novo filme, apesar de agora ter seus poderes muito mais desenvolvidos e aparecer em mais cenas de luta. Trinity, por sua vez, deixa um pouco seu lado de combatente para protagonizar um tórrido romance com Neo, que acaba sendo um dos pilares da trama. Já Morpheus tem suas crenças religiosas questionadas, assumindo ainda mais sua postura de líder da resistência humana contra as máquinas. Em relação aos dois últimos, a mudança de postura pode também ser exemplificada pelo modo como ambos agem quando encontram agentes pela frente. Se em Matrix havia a recomendação expressa para fugir sempre que um agente era encontrado, aqui tanto Morpheus quanto Trinity não fogem da luta e os enfrentam sem pensar nas consequências.

Em relação aos agentes, em Matrix Reloaded fica claro o quão prejudicial para eles dentro do filme foi a saída de Smith. Os agentes continuam tão perigosos e mortais quanto no filme original, mas o carisma fornecido por Hugo Weaving está longe de ser sequer sugerido pelos demais atores. Algo que é até mesmo proposital por parte dos Wachowski, que deixam bem claro que o grande inimigo de Neo é realmente Smith. As poucas vezes em que Hugo Weaving aparece em cena são marcantes, sempre travando intensos duelos contra seu arquiinimigo. E, pelo que se vê no trailer de Matrix Revolutions exibido após os créditos finais, pode-se esperar para o terceiro filme um grande e decisivo duelo entre os personagens.

Analisando como um todo, Matrix Reloaded é um grande filme que comete um grande pecado: não se iguala ao filme original, e sofre justamente ao ser derrotado nesta comparação. Um pecado na verdade até mesmo compreensível, ao analisar a situação em que os dois filmes foram produzidos e lançados. Mais uma vez a "filosofia Matrix" está presente, agora bem menos impactante mas ainda assim interessante, e mais uma vez a trama provoca dúvidas que são motivo para muita reflexão e discussão após o filme. Novamente a barreira dos efeitos especiais é rompida, com inovações e cenas de ação que fazem com que os espectadores fiquem boquiabertos e se divirtam alucinadamente. E, pela 2ª vez, os irmãos Wachowski conseguem recriar o fascínio em torno de uma mitologia que já está, desde 1999, marcada na história do cinema.
 
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