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Sétima Arte
por Francisco Russo

Mais Que os Clichês
Don Roos acerta mais uma vez

Em 1998 estreava nos cinemas americanos "O Oposto do Sexo", comédia de humor negro protagonizada por Christina Ricci e Lisa Kudrow, que foi aclamada pela crítica especializada e que logo se tornou cult entre os cinéfilos. Porém, mais do que confirmar o talento de Ricci, que chegou a ser cotada ao Oscar de melhor atriz naquele ano por este papel, "O Oposto do Sexo" serviu para marcar o nascimento de um diretor promissor e que estava justamente debutando na função: Don Roos.

Pois passaram-se dois anos e durante este período muito se falou sobre qual seria o trabalho seguinte de Roos como diretor. E o projeto escolhido foi justamente o mais impensável para aqueles que exaltaram a história de "O Oposto do Sexo", em que uma adolescente rouba o namorado de seu meio-irmão homossexual. Trata-se de "Mais Que o Acaso", que estreou no dia 4 de maio nos cinemas de todo o país. E, se pararmos para pensar, a estranheza da escolha de Roos é bem compreensível. Afinal de contas, a história de "Mais Que o Acaso" é quase que a antítese de seu filme anterior e traz como protagonistas os badalados e oscarizados Ben Affleck e Gwyneth Paltrow, que retomaram durante as filmagens o namoro iniciado em "Shakespeare Apaixonado", filme o qual ambos também atuaram.

Quando seu novo projeto foi divulgado, os comentários eram que Roos estava traindo suas origens e rendendo-se ao cinemão americano ao realizar mais uma comédia romântica açucarada, como Hollywood tão bem sabe fazer. Pois justiça seja feita: Roos mais uma vez mostrou seu talento e conseguiu transformar os muitos clichês de "Mais Que o Acaso" em um filme envolvente, que consegue prender a atenção do espectador em todos os momentos. E mais: conseguiu arrancar de Gwyneth Paltrow e Ben Affleck atuações bem acima do normal de ambos, ainda mais para quem está acostumado a vê-los em filmes como "Armageddon", "Duets - Vem Cantar Comigo" e similares.

E ao analisar o filme é ainda mais impressionante a proeza de Don Roos. Logo no início somos apresentados a Buddy Amaral (Ben Affleck), um publicitário boa-pinta, convencido e que pouco se importa com algo além de si mesmo. Porém, quando ele cede a um desconhecido seu lugar em um vôo que termina sofrendo um acidente em que todos morrem, o mundo de Buddy desaba. Ele não consegue mais se concentrar no trabalho, entra em depressão e torna-se um alcóolatra compulsivo. Um ano depois ele consegue se recuperar e resolve conhecer Abby (Gwyneth Paltrow), a viúva que teve que reconstruir sua vida juntamente com seus dois filhos pequenos, ambos inconformados com a morte do pai. Inicialmente ele deseja apenas ajudá-la de alguma maneira mas ambos acabam se apaixonando, sem que ela saiba que Buddy chegou a conhecer seu ex-marido antes de sua morte.

Agora me digam: é ou não clichê puro? Se você pensar um pouco dá até para adivinhar qual é o final do filme e qualquer um que leia uma história dessas realmente esperararia uma comédia romântica tola, como falaram os detratores de Roos. Mas o grande trunfo de "Mais Que o Acaso" é a composição dos personagens e do ambiente que os cerca e é justamente aí que entra o dedo do diretor. Pois vejamos: devido à sua beleza, Gwyneth Paltrow já foi acusada de não se parecer com uma mulher comum, dessas que encontramos sempre nas ruas, em seus filmes mais recentes. Para solucionar o problema, a atriz aparece sem maquiagem alguma e com os cabelos pintados - ou será esta a tonalidade natural? - de castanho, artifícios estes usados para deixá-la com um ar mais "normal". Já Ben Affleck em seus filmes mais recentes sempre é acusado de ser canastrão demais em cena. A solução então foi exigir dele uma atuação que utilizasse um pouco mais de emoção e não apenas caras e bocas. E pode acreditar: ele consegue. Não só ele como Gwyneth Paltrow, que desde "Shakespeare Apaixonado" não apresentava uma atuação tão boa quanto a demonstrada neste filme. São exatamente estes detalhes que fazem com que "Mais Que o Acaso" seja uma comédia romântica envolvente e que vale a pena conferir no cinema. E que Don Roos mais uma vez nos surpreenda em seu próximo projeto, ainda não definido e sem data para ter suas filmagens iniciadas, mas que com certeza será mais uma vez aguardado pelos cinéfilos de todo o planeta.

 
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