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Sétima Arte
por Francisco Russo

Recauchutagem Desnecessária
Desgaste e repetições atrapalham "A Máfia Volta ao Divã"

Uma das maiores surpresas de 1999 foi o sucesso de Máfia no Divã, despretenciosa comédia estrelada por Robert De Niro e Billy Crystal que explorava os clichês dos famosos "filmes de mafiosos". A idéia em si nem era original, já tendo sido explorada anteriormente em O Analista do Chefão (1997), mas o impacto de ver Robert De Niro fazendo rir foi tamanho que garantiu a fama do filme.

De Niro, consagrado por personagens dramáticos como os que interpretou em Touro Indomável e O Poderoso Chefão 2, havia feito poucas comédias em sua carreira até então, sendo que a grande maioria delas havia fracassado. A história começou a mudar justamente com Máfia no Divã. Interpretando o tipo durão, que se acostumou a fazer em diversos de seus filmes, e explorando-o em situações contrastantes com sua personalidade, o ator fez sucesso em Máfia no Divã e descobriu um novo filão para sua carreira: a comédia. Logo em seguida engatilhou Entrando Numa Fria e Showtime. Até que resolveu fazer as continuações de seus principais filmes nesta atual fase, este A Máfia Volta ao Divã e o ainda inédito Meet the Fockers, sequência de Entrando Numa Fria.

Em relação aos aspectos financeiros, uma sequência para Máfia no Divã era até mesmo previsível. O filme original custou US$ 30 milhões e rendeu mais que o triplo disto, apenas nas bilheterias dos Estados Unidos. O sucesso de Entrando Numa Fria mostrava que Máfia no Divã não era apenas um fenômeno isolado e sim que o público queria ver De Niro atuando em comédias. Billy Crystal e o diretor Harold Ramis, de carreiras instáveis, estavam dispostos a repetir a dose. Tudo conspirava a favor, mas esqueceram o fundamental: uma boa história.

Ao assistir A Máfia Volta ao Divã é visível a intenção dos produtores em fazer tudo exatamente igual ao filme original. Os confrontos ideológicos entre Crystal e De Niro, a terapia do chefão Paul Vitti, o envolvimento de Ben Sobel com a máfia, o descontentamento de Laura com a proximidade entre Vitti e Sobel... tudo está lá, novamente. Porém o desgaste dos personagens e da própria história faz com que o filme perca completamente o frescor que Máfia no Divã tinha. Se no filme original o relacionamento de Sobel com Vitti divertia pela dualidade do psiquiatra em tratar de um paciente e temê-lo por saber que ele é um importante integrante da máfia local, aqui este relacionamento é bastante diluído, com um tratamento muito mais cordial entre os dois personagens. A idéia do psiquiatra cuidando de um integrante da máfia não é mais novidade nem mesmo para os próprios personagens, já que todos conhecem Ben Sobel do filme anterior e não existe mais o estranhamento natural que esta questão trazia originalmente na própria máfia. Isto sem falar da personagem de Lisa Kudrow, que agora mal tem função na trama e apenas aparece em algumas cenas reclamando de Paul Vitti - antes ao menos ela proporcionava o casamento do psiquiatra que era atrapalhado pelo chefão-paciente.

Com isso, apesar das situações se repetirem de forma muito parecida, o que se vê em A Máfia Volta ao Divã é um amontoado de piadas sem graça e auto-referentes ao primeiro filme, sendo que em momento algum consegue superá-lo. O público desta vez reclamou e fez com que o filme fosse um fracasso nas bilheterias, arrecadando justamente um terço do filme original. Um sinal de que, se Robert De Niro pretende continuar no ramo das comédias, precisa ao menos se dedicar mais em encontrar uma boa história do que tentar repetir velhas e desgastadas fórmulas de sucesso.
 
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