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Idéia
Desperdiçada
"A
Liga Extraordinária" diverte, mas deixa a sensação
de que poderia ser bem melhor
A idéia
básica de A Liga Extraordinária
é genial: reunir em uma mesma aventura grandes personagens
da literatura mundial. Assim foram reunidos grandes livros
da história, como 20.000 Léguas Submarinas
e Drácula, retirando de cada um deles
um de seus principais personagens. Como muitos destes livros
já ganharam inúmeras adaptações
para o cinema, boa parte do público já os conhece
de antemão. Dois exemplos são Dr. Jekyll e Mr.
Hyde, de O Médico e o Monstro, e Allan
Quatermain, que foi protagonista de dois filmes estrelados
por Richard Chamberlain na década de 80. A identificação
com os personagens seria imediata.
E é justamente isto o que acontece. O melhor de A
Liga Extraordinária é justamente conferir
esta nova versão de personagens clássicos, velhos
conhecidos do grande público que agora ressurgem em
nova roupagem. Há uma grande quantidade de referências
literárias dentro do filme, não apenas aos personagens
da própria trama como também a outras histórias
clássicas, como O Fantasma da Ópera.
Para quem conhece as origens de cada personagem, ou de ao
menos parte deles, este com certeza será um atrativo
extra que o filme oferece.
Porém infelizmente A Liga Extraordinária
deixa a desejar naquilo que mais se propõe: entreter
o público. O início é até animador,
com a primeira aparição de Allan Quatermain
ainda na África e o início da formação
da Liga Extraordinária. Porém tudo começa
a desandar a partir da visita a Dorian Gray, mais exatamente
quando Tom Sawyer entra na história.
Para quem não sabe, Sawyer não está presente
na graphic novel de Alan Moore a qual o filme foi baseado.
O personagem foi inserido no roteiro a mando dos produtores,
que queriam um nome importante da literatura norte-americana
para atrair o público local. O problema não
é nem a inclusão do personagem, mas sim o modo
como ele foi inserido na trama. A Liga Extraordinária
é reunida por pessoas que possuem grandes dons, como
a imortalidade de Dorian Gray e Mina Harker, a precisão
com armas de Allan Quatermain e a genialidade científica
do Capitão Nemo. Tom Sawyer não possui nenhum
dom excepcional e, para se equivaler aos demais personagens,
foi transformado numa espécie de espião americano,
tendo também habilidade com armas. Só que esta
transformação simplesmente desvirtuou completamente
o personagem de seu original dos livros. Se em relação
aos demais integrantes as semelhanças são visíveis
isto não ocorre com Sawyer, até porque não
é dada nenhuma explicação sobre como
ele se tornou um espião. No fim das contas trata-se
de um personagem totalmente diferente do livro, um típico
herói americano que acabou sendo inserido na trama
por razões de mercado e que, por acaso, possui o nome
Tom Sawyer. Ou seja, acaba se tornando a antítese da
idéia primordial da história, de inserir personagens
clássicos e aproveitar seus talentos e características
em uma aventura.
Caso este fosse o único problema de A Liga
Extraordinária, ainda assim poderia ser relevado.
Porém o filme tem problemas sérios na condução
de seu roteiro e nas próprias cenas de ação.
Na verdade há pouquíssimas cenas de ação
com atores de verdade, já que a grande maioria ocorre
envolvendo apenas personagens digitais e efeitos especiais.
E, mesmo com elas, tais cenas se resumem ao ataque a Veneza
e à batalha final. Pouco para o potencial dos personagens
que A Liga Extraordinária tem em mãos.
Entretanto A Liga Extraordinária possui
também qualidades. Uma delas atende pelo nome de Nautilus,
o magnífico submarino do Capitão Nemo, que impressiona
tanto pelas cenas externas quanto pelas internas. O detalhismo
na direção de arte e no figurino dos personagens
é algo a se destacar, também impressionando
a quem assiste. O elenco como um todo aparece bem, sem grandes
destaques. Sean Connery, o nome mais famoso do filme, assume
com firmeza o posto de comando da Liga Extraordinária
e, se não tem grandes cenas de ação,
consegue segurar o personagem com seu carisma. Outro do elenco
que consegue se destacar é Stuart Townsend, mesclando
sedução e cinismo para compôr seu personagem,
Dorian Gray.
O desenrolar da trama de A Liga Extraordinária
revela ainda algumas surpresas para o espectador, que novamente
serão mais apreciadas por quem conhece um pouco melhor
os grandes clássicos da literatura mundial, seja através
do cinema ou dos próprios livros. No fim das contas
o filme diverte justamente por permitir que o público
reconheça na tela personagens conhecidos já
há tempos e vê-los em plena ação,
com seus poderes que muitas vezes são ao mesmo tempo
uma bênção e uma maldição.
Somente isto já compensa o roteiro frágil cheio
de reviravoltas, que pouco aproveita os personagens e ainda
traz um dos piores finais já feitos por Hollywood nos
últimos tempos. Ao término do filme, A
Liga Extraordinária deixa a sensação
de que poderia ser bem melhor se o roteiro fosse melhor trabalhado
e o mercado não interferisse tanto.
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