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Sétima Arte
por Francisco Russo

Na Contramão
Roteiro e efeitos especiais são os maiores problemas de "Hulk"

Desde o lançamento de X-Men o cinema hollywoodiano vive uma verdadeira febre por filmes estrelados por super-heróis dos quadrinhos, em especial aqueles da Marvel Comics. Um após o outro, todos têm feito grande sucesso nos cinemas e, em boa parte, também junto à crítica. Com tantos antecedentes positivos, esperava-se o mesmo destino para o projeto seguinte da série, Hulk, principalmente devido à presença do diretor Ang Lee em seu primeiro projeto após o premiado O Tigre e o Dragão. Infelizmente não é isto que acontece.

Logo de início Hulk segue na contramão das recentes adaptações de personagens dos quadrinhos para o cinema e ignora, quase por completo, a origem e as características do personagem. Pode-se dizer que, do Hulk dos quadrinhos, o filme manteve apenas a idéia de alguém que, após ser afetado por uma mutação, passa a se tornar um monstro verde, forte e extremamente grande quando fica com raiva. Toda a origem do personagem, passando até mesmo pelo modo como o personagem Bruce Banner se torna o Hulk, foi drasticamente alterada. Personagens coadjuvantes, como David Banner, também são radicalmente diferentes de suas versões nos quadrinhos. A própria idéia do Hulk ser a manifestação de algo reprimido por Bruce Banner é bastante diluída, em grande parte devido ao surgimento do Hulk agora não depender mais dele ter ou não sofrido traumas quando criança. É certo que nos recentes filmes de super-heróis de HQs mudanças neste sentido também ocorreram - a teia orgânica do Homem-Aranha é um exemplo -, mas nunca em tamanha quantidade como ocorre em Hulk. E esta decisão, se por um lado até não atrapalha o desenrolar da trama, acaba impedindo boa parte da identificação do personagem junto ao público que leu suas histórias durante anos.

Se as mudanças fossem o único problema, Hulk ainda assim teria salvação. O problema maior do filme é sua grande dependência dos efeitos especiais e o modo como esta necessidade de se adequar às limitações técnicas existentes acaba influindo no roteiro. Apesar do grande investimento nos efeitos especiais, de forma a que fosse possível criar em cena um Hulk totalmente digital, o que se vê é um personagem que em momento algum consegue convencer que seja real. A impressão que se tem é que o Hulk é feito de plástico ou de algum outro material que não seja pele e ossos humanos, tamanho é o contraste do personagem quando precisa "contracenar" com atores reais. Cenas como os saltos do personagem, onde o Hulk consegue pousar no deserto sem nem ao menos espalhar areia ou deixar pegadas, também contribuem para a sensação de irrealidade que o personagem proporciona.

O problema dos efeitos especiais no filme é tão grave que chega a proporcionar mudanças bruscas no roteiro. Hulk tem início como uma espécie de drama intimista, onde Bruce Banner precisa lidar com seus traumas de infância, os quais nem ao menos conhece, sua característica própria de se fechar em seu próprio mundo e ainda sua paixão não-correspondida por Betty Ross. As atuações de Eric Bana e Jennifer Connelly ajudam neste sentido, explorando de forma comedida os sentimentos existentes em seus personagens, e a própria direção de Ang Lee explora os cenários de forma a insinuar este universo - atenção especial ao isolamento no qual vivem os principais personagens. Tal situação até funciona na primeira hora do filme, com algumas pequenas derrapadas do roteiro, mas desanda de vez a partir da primeira aparição do Hulk.

Deste momento até seu final, Hulk se transforma totalmente. O filme ganha ares de ação, focando principalmente na perseguição ao Hulk e sendo entremeado com as descobertas de Bruce Banner sobre seu passado. Em diversas cenas o filme se torna bastante escuro, não devido à necessidade do roteiro mas para maquiar as falhas dos efeitos especiais. Ainda assim o Hulk aparece várias vezes sob a luz do dia, o que torna ainda mais nítidos os contrastes do Hulk digital com a realidade que o cerca.

A mudança de rumo de Hulk após a primeira aparição do personagem-título era até esperada, mas o modo como isto é feito acaba jogando por terra qualquer tipo de veracidade que o filme esperava obter dentro de sua realidade, o que vinha sendo construído por Ang Lee na hora inicial do filme. Já em sua reta final o roteiro ainda cria um novo inimigo para o Hulk, um ser tão monstruoso quanto ele próprio, com a única justificativa de forçá-los a se enfrentar no desfecho do filme. Duelo este que, por sinal, lembra muito aqueles velhos confrontos entre monstros de filmes antigos da série Godzilla, pela situação bizarra à qual é exibida em cena. Sempre envolta em sombras e escuridão, é claro.

Apesar de tantos problemas, há de se ressaltar dois pontos positivos do filme: a edição, bastante fiel ao enquadramento das histórias em quadrinhos, e ainda a tentativa de Ang Lee em mostrar a mesma cena sob ângulos diferentes ao mesmo tempo, o que permite ao público acompanhar determinado momento sob diversos pontos de vista. Ainda assim, a sensação que Hulk passa ao seu término é de decepção. Decepção pelos rumos absurdos que o roteiro toma, pela qualidade dos efeitos especiais e pelas tentativas de maquiar os problemas sempre que possível com cenas mais escuras. Para completar, decepção por não ser este o Hulk que fez com que o personagem saísse dos quadrinhos e saltasse para as telas de cinema, mas sim outro personagem que tomou emprestado seu nome e apenas algumas de suas principais características.
 
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