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Na
Contramão
Roteiro
e efeitos especiais são os maiores problemas de "Hulk"
Desde o
lançamento de X-Men o cinema hollywoodiano
vive uma verdadeira febre por filmes estrelados por super-heróis
dos quadrinhos, em especial aqueles da Marvel Comics. Um após
o outro, todos têm feito grande sucesso nos cinemas
e, em boa parte, também junto à crítica.
Com tantos antecedentes positivos, esperava-se o mesmo destino
para o projeto seguinte da série, Hulk,
principalmente devido à presença do diretor
Ang Lee em seu primeiro projeto após o premiado O
Tigre e o Dragão. Infelizmente não
é isto que acontece.
Logo de início Hulk segue na contramão
das recentes adaptações de personagens dos quadrinhos
para o cinema e ignora, quase por completo, a origem e as
características do personagem. Pode-se dizer que, do
Hulk dos quadrinhos, o filme manteve apenas a idéia
de alguém que, após ser afetado por uma mutação,
passa a se tornar um monstro verde, forte e extremamente grande
quando fica com raiva. Toda a origem do personagem, passando
até mesmo pelo modo como o personagem Bruce Banner
se torna o Hulk, foi drasticamente alterada. Personagens coadjuvantes,
como David Banner, também são radicalmente diferentes
de suas versões nos quadrinhos. A própria idéia
do Hulk ser a manifestação de algo reprimido
por Bruce Banner é bastante diluída, em grande
parte devido ao surgimento do Hulk agora não depender
mais dele ter ou não sofrido traumas quando criança.
É certo que nos recentes filmes de super-heróis
de HQs mudanças neste sentido também ocorreram
- a teia orgânica do Homem-Aranha é um exemplo
-, mas nunca em tamanha quantidade como ocorre em Hulk.
E esta decisão, se por um lado até não
atrapalha o desenrolar da trama, acaba impedindo boa parte
da identificação do personagem junto ao público
que leu suas histórias durante anos.
Se as mudanças fossem o único problema, Hulk
ainda assim teria salvação. O problema maior
do filme é sua grande dependência dos efeitos
especiais e o modo como esta necessidade de se adequar às
limitações técnicas existentes acaba
influindo no roteiro. Apesar do grande investimento nos efeitos
especiais, de forma a que fosse possível criar em cena
um Hulk totalmente digital, o que se vê é um
personagem que em momento algum consegue convencer que seja
real. A impressão que se tem é que o Hulk é
feito de plástico ou de algum outro material que não
seja pele e ossos humanos, tamanho é o contraste do
personagem quando precisa "contracenar" com atores
reais. Cenas como os saltos do personagem, onde o Hulk consegue
pousar no deserto sem nem ao menos espalhar areia ou deixar
pegadas, também contribuem para a sensação
de irrealidade que o personagem proporciona.
O problema dos efeitos especiais no filme é tão
grave que chega a proporcionar mudanças bruscas no
roteiro. Hulk tem início como uma
espécie de drama intimista, onde Bruce Banner precisa
lidar com seus traumas de infância, os quais nem ao
menos conhece, sua característica própria de
se fechar em seu próprio mundo e ainda sua paixão
não-correspondida por Betty Ross. As atuações
de Eric Bana e Jennifer Connelly ajudam neste sentido, explorando
de forma comedida os sentimentos existentes em seus personagens,
e a própria direção de Ang Lee explora
os cenários de forma a insinuar este universo - atenção
especial ao isolamento no qual vivem os principais personagens.
Tal situação até funciona na primeira
hora do filme, com algumas pequenas derrapadas do roteiro,
mas desanda de vez a partir da primeira aparição
do Hulk.
Deste momento até seu final, Hulk
se transforma totalmente. O filme ganha ares de ação,
focando principalmente na perseguição ao Hulk
e sendo entremeado com as descobertas de Bruce Banner sobre
seu passado. Em diversas cenas o filme se torna bastante escuro,
não devido à necessidade do roteiro mas para
maquiar as falhas dos efeitos especiais. Ainda assim o Hulk
aparece várias vezes sob a luz do dia, o que torna
ainda mais nítidos os contrastes do Hulk digital com
a realidade que o cerca.
A mudança de rumo de Hulk após
a primeira aparição do personagem-título
era até esperada, mas o modo como isto é feito
acaba jogando por terra qualquer tipo de veracidade que o
filme esperava obter dentro de sua realidade, o que vinha
sendo construído por Ang Lee na hora inicial do filme.
Já em sua reta final o roteiro ainda cria um novo inimigo
para o Hulk, um ser tão monstruoso quanto ele próprio,
com a única justificativa de forçá-los
a se enfrentar no desfecho do filme. Duelo este que, por sinal,
lembra muito aqueles velhos confrontos entre monstros de filmes
antigos da série Godzilla, pela situação
bizarra à qual é exibida em cena. Sempre envolta
em sombras e escuridão, é claro.
Apesar de tantos problemas, há de se ressaltar dois
pontos positivos do filme: a edição, bastante
fiel ao enquadramento das histórias em quadrinhos,
e ainda a tentativa de Ang Lee em mostrar a mesma cena sob
ângulos diferentes ao mesmo tempo, o que permite ao
público acompanhar determinado momento sob diversos
pontos de vista. Ainda assim, a sensação que
Hulk passa ao seu término é
de decepção. Decepção pelos rumos
absurdos que o roteiro toma, pela qualidade dos efeitos especiais
e pelas tentativas de maquiar os problemas sempre que possível
com cenas mais escuras. Para completar, decepção
por não ser este o Hulk que fez com que o personagem
saísse dos quadrinhos e saltasse para as telas de cinema,
mas sim outro personagem que tomou emprestado seu nome e apenas
algumas de suas principais características.
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