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Sétima Arte
por Francisco Russo

Desastre à Vista
Roland Emmerich destrói Nova York - de novo


Os filmes-catástrofe possuem uma fórmula imutável: um grande desastre somado a dramas pessoais de vários personagens. O gênero fez grande sucesso na década de 70, gerando filmes como O Destino do Poseidon, Aeroporto e Inferno na Torre, que chegaram até mesmo a concorrer nas principais categorias do Oscar. Vinte anos depois, os filmes-catástrofe tiveram novo impulso a partir do lançamento de Independence Day. A fórmula continuou a mesma, com uma diferença: saíam os atores de renome e entravam em seu lugar os efeitos especiais.

Oito anos após Independence Day, o mesmo diretor que revitalizou o gênero está de volta ao seu passatempo predileto: destruir Nova York nas telas. Afinal de contas, O Dia Depois de Amanhã é o 3º filme dirigido por Roland Emmerich em que a principal cidade do planeta passa por maus bocados. A mudança é que, se em Independence Day e Godzilla o inimigo era um ser estranho e hostil que atacava à cidade, alienígenas e um monstro mutante respectivamente, em O Dia Depois de Amanhã o inimigo é o próprio planeta, que sofre drásticas alterações climáticas devido a influência do homem.

Quem lê esta premissa pode ter a impressão de que O Dia Depois de Amanhã seja um filme mais realista que os anteriores já feitos por Emmerich. A resposta é, ao mesmo tempo, sim e não. Se por um lado o problema do aquecimento global é real, sendo  tema constante de notícias em jornais mundo afora, o caminho destrutivo escolhido pelo filme é completamente ilusório - e não apenas pela rapidez com que ocorre, mas também pelos próprios eventos. Na verdade o que ocorreu foi a escolha de uma ameaça mundialmente conhecida, que facilitasse a identificação do público com o tema, e uma espécie de trabalho livre sobre o que ela poderia causar para o planeta caso se tornasse real. Até há citações a fatos da realidade, como o Tratado de Kyoto, mas o resultado final é tão possível quanto, por exemplo, os testes nucleares franceses na Polinésia terem gerado Godzilla.

Descartado o amparo realista, resta a O Dia Depois de Amanhã entreter o público. É justamente neste ponto que está o grande fracasso do filme. Emmerich repete cenas e passagens de Independence Day, como a destruição de um símbolo norte-americano - as letras de Hollywood, ao invés da Casa Branca - ou a fuga desesperada pelas ruas de Nova York - devido à inundação, ao invés do ataque alienígena. A sensação que fica, especialmente nas cenas de destruição a Nova York, é de mera repetição, prejudicada ainda mais pelo fato dos efeitos especiais serem bem menos impactantes que os de Independence Day, por exemplo. Ou seja, Emmerich oferece uma cópia piorada do que ele mesmo já fez anos atrás.

Para piorar ainda mais, o roteiro de O Dia Depois de Amanhã é recheado de passagens descartáveis, que tem como única função tentar criar alguma tensão no filme. Exemplos há aos montes: o súbito surgimento de um navio - russo - nas ruas de Nova York, a presença dos lobos, o acidente no shopping center... A simples existência de tais situações não chega a ser um problema, é até comum a inserção de elementos que tenham como objetivo trazer uma melhor dinâmica, mas o modo como elas são inseridas e aproveitadas dentro do filme sim. O acidente no shopping center, por exemplo, se aproveita de um dos clichês mais usados nos blockbusters americanos nos últimos anos. Mais uma vez a sensação de mera repetição surge em mente.

Há porém um ponto em que O Dia Depois de Amanhã mereça destaque, apesar de não ser muito utilizado: a ironia. Há duas citações ao México que são hilariantes. Algumas cenas na biblioteca, em relação à escolha de livros, também são dignas de nota. Ainda assim é muito pouco para sustentar um filme de duas horas de duração.

A impressão que fica ao término de O Dia Depois de Amanhã é de decepção. Apesar das boas intenções ao servir como alerta sobre os riscos das mudanças climáticas provocadas pelo homem, o filme fracassa na intenção de entreter e também na de informar, já que pouco do que é visto em cena tem fundamento científico. O que se vê é um filme recheado de clichês, sem imaginação e com efeitos especiais decepcionantes. Resumindo: um desastre.
 
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