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por Francisco Russo

Novidade no Front
Clint Eastwood apresenta os dois lados da batalha de Iwo Jima


Os filmes de guerra compõem um gênero exaustivamente explorado pelo cinema. Apenas sobre a Guerra do Vietnã ou a 2ª Guerra Mundial há centenas de filmes, entre eles alguns consagrados, como Apocalypse Now e A Lista de Schindler. Com uma variedade tão grande o próprio público tornou-se mais exigente com o gênero. Novos filmes de guerra precisam trazer algo novo, algo diferente, para que não sejam mera repetição do que já foi feito. Alcançar este objetivo é algo cada vez mais difícil, já que volta e meia é lançado um novo filme de guerra. Ter conseguido esta proeza é o maior mérito de Clint Eastwood em seus novos trabalhos, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima.

Os dois novos filmes de Eastwood abordam o mesmo tema, mas sob óticas diferentes. A batalha de Iwo Jima, ocorrida numa das ilhas japonesas já nos meses finais da 2ª Guerra Mundial, não é novidade no cinema. O tema já foi explorado em "Iwo Jima, o Portal da Glória", de 1949, que rendeu a John Wayne sua 1ª indicação ao Oscar. Entretanto Eastwood não se limita a apenas apresentar a batalha em si, mas também em explorar seu pano de fundo e a própria essência dos envolvidos. Tanto pelo lado americano, em A Conquista da Honra, quanto pelo lado japonês, em Cartas de Iwo Jima, há uma preocupação com as pessoas, no que elas pensam e sentem. As cenas de batalha estão presentes, é claro, mas são acessórios para a história e não seu foco principal.

A Conquista da Honra é o mais político e também o que apresenta mais cenas de batalha campal. A invasão americana a Iwo Jima lembra o dia D de O Resgate do Soldado Ryan, pelo perfeccionismo técnico e a crueza das cenas, sem a preocupação de poupar o público. Há também a intenção de desmascarar vários dos ícones americanos sobre a guerra, o que provoca críticas ácidas ao modo de agir do exército americano. Talvez esteja aqui o motivo do fracasso do filme nas bilheterias ianques: os Estados Unidos são criticados, o que não costuma ser bem visto pelo público americano. Apenas a título de informação, A Conquista da Honra custou US$ 55 milhões e arrecadou US$ 33,5 milhões.

Este lado crítico é justamente o que há de mais interessante em A Conquista da Honra. O filme mostra não apenas o lado americano na batalha de Iwo Jima, como também o impacto na população da famosa foto de 6 soldados erguendo a bandeira americana. A partir desta foto tudo mudou nos Estados Unidos. O povo, cansado da guerra, passou a acreditar na vitória e a apoiar seus novos heróis. Os 3 sobreviventes da foto deixam a batalha contra os japoneses para entrar de cabeça em uma peregrinação pelo país em busca de dinheiro para a guerra, obtido através da venda de bônus aos cidadãos. Entra neste momento uma das principais características americanas: a sensibilidade em aproveitar oportunidades para gerar dinheiro. Endividado, o governo não pensa duas vezes antes de bancar a campanha e tornar os sobreviventes verdadeiros astros, mesmo que eles próprios não concordem com a alcunha de herói que lhes é dada. O contraste entre a fama e celebridade quase que impostas com os sentimentos dos sobreviventes, e as consequências que esta dubiedade causa, é outro destaque do filme.

Mas A Conquista da Honra também tem seus defeitos. O principal deles é a guinada para drama familiar, que o filme ensaia em seu início mas apenas conclui em seus 15 ou 20 minutos finais. Trata-se de um trecho bastante inferior ao restante do filme e quase desnecessário, servindo apenas para a conclusão sobre o que é ser herói. E mesmo assim não é algo essencial, mas ajuda na compreensão. Outro problema é a atuação de seu elenco, que é apenas regular. Não há destaques, apesar de também não haver nenhum desastre. As atuações são ofuscadas pelo apuro técnico do filme e sua própria história.

Cartas de Iwo Jima vai mais longe na batalha de Iwo Jima. Se em A Conquista da Honra a batalha é mostrada até o retorno dos sobreviventes da foto aos Estados Unidos, aqui ela é mostrada até seu final. O filme apresenta a preparação japonesa para enfrentar as tropas americanas, incluindo a adoção da tática que explorava túneis. Porém, mais uma vez, as batalhas ficam em 2º plano. O grande mérito do filme é conseguir captar o sentimento japonês de ser, o modo como encarava a guerra, seu país e a si próprio. O que seria algo bastante natural caso o filme fosse uma produção japonesa, feito por pessoas próximas à realidade do país. O fato de Eastwood ser um estrangeiro, que sequer sabe falar japonês nem morou no país em algum momento de sua vida, valoriza este detalhe. A sensibilidade com que esta essência japonesa é apresentada mostra não apenas que Eastwood pesquisou sobre o tema, mas que também buscou entender aqueles sentimentos. Esta compreensão, aliada a um elenco claramente superior, torna Cartas de Iwo Jima o melhor dos novos filmes de Eastwood. Merecidamente indicado aos Oscars de melhor filme e direção.

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima são filmes que se completam. Possuem abordagens distintas sobre o mesmo tema, sempre evitando encontrar heróis e vilões mas sim analisar o que acontecia em seu lado da guerra. Há vários momentos em que os filmes se encontram, com situações mostradas pela ótica de cada lado, apesar de nenhum ator dos elencos se encontrar em cena. Para compreender o que foi a batalha de Iwo Jima e suas derivações é imprescindível assistir aos dois filmes. Não que eles sejam interligados, é possível assistir a apenas um deles ou na ordem que o espectador desejar. Mas não é sempre que se tem a oportunidade de conferir com tanta riqueza de detalhes os dois lados de uma mesma batalha, sem que um deles seja exaltado ou crucificado. Ao menos não no cinema.

 
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