Tristeza
e Esperança
A
solidão de Jack Nicholson em "As Confissões
de Schmidt"
Existem
filmes que conseguem mexer com o seu estado de espírito
pelo simples tema que enfocam, de tão sufocantes que
são. Alguns exemplos recentes desta categoria são
A Outra História Americana, Os
Últimos Passos de um Homem e Réquiem
para um Sonho. Tratando de temas pesados, como o
nazismo, a pena de morte e as drogas, é impossível
assisti-los sem alterar o ânimo ou ao menos perder algum
tempo refletindo os temas ali propostos após o término
de sua exibição. Particularmente, costumo chamá-los
de "filmes depressivos". Importantes por tocar de
forma tão profunda em assuntos delicados e ao mesmo
tempo influir de forma tão direta no estado emocional
de quem o assiste.
As Confissões de Schmidt se enquadra
na minha categoria de "filmes depressivos". Nele
conhecemos Warren Schmidt, um homem de 66 anos que está
prestes a se aposentar de seu emprego em uma seguradora, onde
trabalhou por décadas. Schmidt é casado e tem
uma filha, que mora em outra cidade e vê apenas ocasionalmente.
Ela está prestes a se casar, sendo que Schmidt desaprova
o futuro genro por não considerá-lo à
altura de sua filha. Este é seu universo no início
da história.
Schmidt tem problemas para se adaptar à nova vida de
aposentado. Sente-se desprezado por sua antiga empresa, a
qual dedicou tantos anos de sua vida. Em casa a situação
não é das melhores: ele não reconhece
mais a mulher com quem se casou e muito menos consegue compreender
o porquê de ter se casado com ela. Tudo o irrita e o
aborrece, a vida é enfadonha. Até que algo chama
sua atenção: um comercial de TV sobre patrocínio
mensal a crianças pobres. Schmidt resolve aderir ao
programa e adota um menino de 5 anos, Ngubu, que vive na Tanzania.
A partir de então a vida de Schmidt sofre uma série
de contratempos. Sua esposa morre, inesperadamente, e ele
precisa reaprender a viver sozinho. Sua filha, apesar de seus
constantes apelos, está decidida a se casar e não
o quer por perto. Seus planos de abrir uma empresa fracassaram
anos atrás. Schmidt se vê só, sem ninguém
a apoiá-lo e ninguém com quem compartilhar sua
própria vida. É quando inicia um relacionamento
através de cartas com o jovem Ngubu, que lhe serve
como uma verdadeira terapia e faz com que possa reanalisar
sua vida.
As Confissões de Schmidt é
um filme, acima de tudo, triste. Um reflexo da própria
situação de seu protagonista, que está
em busca de provar a si mesmo que sua vida não é
um completo fracasso. Ao mostrar a solidão e os conflitos
internos de Schmidt, o próprio espectador se vê
envolto neste clima e também vê seu estado emocional
ser alterado. Durante pouco mais de duas horas acompanhamos
a luta de Schmidt em superar seus problemas de forma sempre
otimista, buscando ver o lado bom de cada acontecimento que
a vida lhe reserva, mas sempre, no fundo, surge a verdade.
Uma verdade que por vezes é dolorosa, mas que se transforma
em um sopro de esperança.
Este é As Confissões de Schmidt.
Um filme acima de tudo humano, que enfoca assuntos como solidão,
velhice e relacionamento entre pais e filhos de forma dura
e crua. Um filme que traz Jack Nicholson talvez em sua atuação
mais humana, sem usar seus cacoetes e maneirismos tão
famosos e interpretando um personagem sincero, que erra como
todos e sofre por isso. Um filme a ser visto com o coração,
mesmo que ele saia um pouco mais triste da sessão de
cinema.
|