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Sétima Arte
por Francisco Russo

Decifra-me ou Devoro-te
David Lynch confunde o público em "Cidade dos Sonhos"

Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas. Esta com certeza será a sensação de todos os que forem assistir nos cinemas ao mais recente trabalho do diretor David Lynch, "Cidade dos Sonhos". O filme, que deu a Lynch sua 3ª indicação ao Oscar de melhor diretor, ganhou ares de "cult" após receber o prêmio de melhor direção no último Festival de Cannes, tendo sido também exibido nos últimos dias do Festival do Rio de 2001. Pois agora, 6 meses depois e passado o frisson da entrega do Oscar, eis que "Cidade dos Sonhos" chega aos cinemas brasileiros prometendo criar as mesmas indagações que vêm provocando nos espectadores de todo o planeta.

Quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que David Lynch é um diretor que não segue a cartilha do cinema convencional norte-americano. Excetuando-se "História Real", seu trabalho mais "tradicional", Lynch gosta de provocar o espectador com questões mal-resolvidas, cenas fortes e tramas que fogem ao tradicional início-meio-fim. Em "Cidade dos Sonhos" a história não é diferente. Desenvolvido inicialmente para ser mais uma série de TV americana, o episódio-piloto e alguns episódios iniciais foram recusados pela rede de TV ABC, que os considerou "estranhos demais". Lynch resolveu então pegar o material, reeditá-lo e rodar mais 40 minutos de cenas adicionais, apresentando então um final para o filme. Lançou "Cidade dos Sonhos" em Cannes, dividiu com os irmãos Coen o prêmio de melhor direção e viu seu novo filme se tornar um sucesso de crítica em meio ao cinema independente norte-americano.

"Cidade dos Sonhos" logo de cara levanta uma intrigante questão: quem é "Rita"? A personagem, interpretada pela belíssima Laura Harring, logo no início da trama sofre um acidente de carro quando está prestes a ser assassinada. Ela sobrevive, mas perde completamente a memória sobre tudo o que a ela aconteceu até o acidente. Vagando perdida pelas ruas de Los Angeles, ela acaba entrando escondida na casa de uma mulher que está prestes a viajar. Porém logo chega ao local sua sobrinha Betty, que busca seguir carreira como atriz em Hollywood e acaba ajudando "Rita" a redescobrir seu passado.

É justamente a partir da indagação sobre o passado de "Rita" que Lynch começa a impôr seu estilo pessoal em "Cidade dos Sonhos". A trama é totalmente fragmentada, com personagens indo e vindo sem maiores explicações sobre o porquê de estarem agindo daquela forma ou sequer qual é a conexão entre todos eles. Em certos casos simplesmente não há conexão nem repetição, como ocorre com o personagem de Robert Forster, que apesar de ter seu nome nos créditos iniciais permanece menos de um minuto em cena durante todo o filme. Além disto, Lynch impõe ao filme um estilo soturno, bem parecido com o de sua série de sucesso "Twin Peaks", realizando tomadas longas e muitas vezes sem trilha sonora alguma, procurando ressaltar o clima de suspense sempre presente no filme. Isto sem contar que, por ser Lynch o diretor, sempre se espera que algo surreal invada a tela de cinema, surpreendendo o público.

Pois a surrealidade enfim surge, e com força total, no terço final de "Cidade dos Sonhos". O filme passa por uma brusca e insólita guinada, que simplesmente revira a trama pelo avesso e faz com que surjam ainda mais dúvidas nas mentes dos espectadores, que começam a questionar repetidamente tudo aquilo que já viram e tudo aquilo que ainda verão no decorrer do filme. Não foram raros os risos e gargalhadas a partir desta guinada, pelo simples fato de ela ser tão violenta que praticamente não dá tempo ao público para que se acostume com ela. Até por causa disto "Cidade dos Sonhos" é um filme cuja história e o modo como ela é contada por David Lynch merece ser tema de um amplo debate após a exibição do filme, quando todos podem respirar e compreender melhor o que acabaram de assistir. Por outro lado, é também um filme que provoca um efeito hipnótico que faz com que você fique cada vez mais curioso com o que vem a seguir e, mesmo após seu término, ainda fique com a trama do filme em mente durante um bom tempo.

Por causa de suas características, "Cidade dos Sonhos" é um filme que não deve ser indicado aos que não estão acostumados com a lógica - ou a falta de lógica - dos filmes de David Lynch, sendo ao mesmo tempo uma espécie de esfinge que lhe provoca e pede para ser decifrada. Na verdade trata-se de um filme daqueles que ou você ama ou simplesmente odeia com todas as suas forças. O colunista que aqui vos escreve confessa que ainda se encontra em dúvida sobre qual caminho seguir, pois ao mesmo tempo em que ficou impressionado com a narrativa e a direção hipnótica de Lynch ainda procura respostas sobre vários pontos da trama. Como disse logo no início, são dúvidas, dúvidas e mais dúvidas criadas pelo mais novo longa-metragem do sempre provocador David Lynch.
 
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