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Decifra-me
ou Devoro-te
David
Lynch confunde o público em "Cidade dos Sonhos"
Dúvidas,
dúvidas e mais dúvidas. Esta com certeza será
a sensação de todos os que forem assistir nos
cinemas ao mais recente trabalho do diretor David Lynch,
"Cidade dos Sonhos". O filme, que deu a Lynch
sua 3ª indicação ao Oscar de melhor diretor,
ganhou ares de "cult" após receber o prêmio
de melhor direção no último Festival
de Cannes, tendo sido também exibido nos últimos
dias do Festival do Rio de 2001. Pois agora, 6 meses depois
e passado o frisson da entrega do Oscar, eis que "Cidade
dos Sonhos" chega aos cinemas brasileiros prometendo
criar as mesmas indagações que vêm provocando
nos espectadores de todo o planeta.
Quem conhece um pouco de sua filmografia sabe que David
Lynch é um diretor que não segue a cartilha
do cinema convencional norte-americano. Excetuando-se "História
Real", seu trabalho mais "tradicional",
Lynch gosta de provocar o espectador com questões
mal-resolvidas, cenas fortes e tramas que fogem ao tradicional
início-meio-fim. Em "Cidade dos Sonhos"
a história não é diferente. Desenvolvido
inicialmente para ser mais uma série de TV americana,
o episódio-piloto e alguns episódios iniciais
foram recusados pela rede de TV ABC, que os considerou "estranhos
demais". Lynch resolveu então pegar o material,
reeditá-lo e rodar mais 40 minutos de cenas adicionais,
apresentando então um final para o filme. Lançou
"Cidade dos Sonhos" em Cannes, dividiu com
os irmãos Coen o prêmio de melhor direção
e viu seu novo filme se tornar um sucesso de crítica
em meio ao cinema independente norte-americano.
"Cidade dos Sonhos" logo de cara levanta
uma intrigante questão: quem é "Rita"?
A personagem, interpretada pela belíssima Laura
Harring, logo no início da trama sofre um acidente
de carro quando está prestes a ser assassinada. Ela
sobrevive, mas perde completamente a memória sobre
tudo o que a ela aconteceu até o acidente. Vagando
perdida pelas ruas de Los Angeles, ela acaba entrando escondida
na casa de uma mulher que está prestes a viajar. Porém
logo chega ao local sua sobrinha Betty, que busca seguir
carreira como atriz em Hollywood e acaba ajudando "Rita"
a redescobrir seu passado.
É justamente a partir da indagação sobre
o passado de "Rita" que Lynch começa
a impôr seu estilo pessoal em "Cidade dos Sonhos".
A trama é totalmente fragmentada, com personagens indo
e vindo sem maiores explicações sobre o porquê
de estarem agindo daquela forma ou sequer qual é a
conexão entre todos eles. Em certos casos simplesmente
não há conexão nem repetição,
como ocorre com o personagem de Robert Forster, que
apesar de ter seu nome nos créditos iniciais permanece
menos de um minuto em cena durante todo o filme. Além
disto, Lynch impõe ao filme um estilo soturno,
bem parecido com o de sua série de sucesso "Twin
Peaks", realizando tomadas longas e muitas vezes
sem trilha sonora alguma, procurando ressaltar o clima de
suspense sempre presente no filme. Isto sem contar que, por
ser Lynch o diretor, sempre se espera que algo surreal
invada a tela de cinema, surpreendendo o público.
Pois a surrealidade enfim surge, e com força total,
no terço final de "Cidade dos Sonhos".
O filme passa por uma brusca e insólita guinada, que
simplesmente revira a trama pelo avesso e faz com que surjam
ainda mais dúvidas nas mentes dos espectadores, que
começam a questionar repetidamente tudo aquilo que
já viram e tudo aquilo que ainda verão no decorrer
do filme. Não foram raros os risos e gargalhadas a
partir desta guinada, pelo simples fato de ela ser tão
violenta que praticamente não dá tempo ao público
para que se acostume com ela. Até por causa disto "Cidade
dos Sonhos" é um filme cuja história
e o modo como ela é contada por David Lynch
merece ser tema de um amplo debate após a exibição
do filme, quando todos podem respirar e compreender melhor
o que acabaram de assistir. Por outro lado, é também
um filme que provoca um efeito hipnótico que faz com
que você fique cada vez mais curioso com o que vem a
seguir e, mesmo após seu término, ainda fique
com a trama do filme em mente durante um bom tempo.
Por causa de suas características, "Cidade
dos Sonhos" é um filme que não deve
ser indicado aos que não estão acostumados com
a lógica - ou a falta de lógica - dos filmes
de David Lynch, sendo ao mesmo tempo uma espécie
de esfinge que lhe provoca e pede para ser decifrada. Na verdade
trata-se de um filme daqueles que ou você ama ou simplesmente
odeia com todas as suas forças. O colunista que aqui
vos escreve confessa que ainda se encontra em dúvida
sobre qual caminho seguir, pois ao mesmo tempo em que ficou
impressionado com a narrativa e a direção hipnótica
de Lynch ainda procura respostas sobre vários
pontos da trama. Como disse logo no início, são
dúvidas, dúvidas e mais dúvidas criadas
pelo mais novo longa-metragem do sempre provocador David
Lynch.
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