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Sétima Arte
por Francisco Russo

Duas Mídias, Um Produto
Interação com a TV ajuda "Cidade dos Homens", o filme


Muito se fala sobre como deve ser a parceria entre o cinema e a televisão no Brasil. É inegável que a TV é a mídia mais abrangente do país, tendo uma estrutura já estabelecida. O cinema, apesar de ter produtoras em franco crescimento, ainda vive de esforços isolados e apoio governamental, sem ter uma indústria própria. O exemplo mais comum da interação entre TV e cinema é a simples migração de produtos entre eles. Os Normais, A Grande Família e todos os longa-metragens de Xuxa, Trapalhões, Angélica, Casseta & Planeta e tantos outros tiveram sua origem na televisão. Seguindo o caminho inverso, filmes como Carandiru e Antonia inspiraram séries de TV. Em todos estes casos o produto de uma mídia foi utilizado por outra, sem que ocorresse uma mescla entre eles. Não é o que acontece em Cidade dos Homens, que não apenas usou o espaço existente em ambas como soube mesclá-las em sua versão para o cinema.

Vamos recapitular a trajetória que levou a Cidade dos Homens. Tudo começou em 2002, com a produção do curta-metragem "Palace II". Tratava-se da apresentação dos personagens Laranjinha e Acerola, interpretados respectivamente por Darlan Cunha e Douglas Silva, e também uma espécie de teste dos diretores Fernando Meirelles e Kátia Lund para a realização de um projeto maior, Cidade de Deus. O longa-metragem, como todos sabem, foi um sucesso internacional. Veio então a série "Cidade dos Homens", protagonizada pelos mesmos personagens de "Palace II" e exibida pela Rede Globo entre 2003 e 2005. Já em seu 2º ano surgiu a idéia de levá-la para o cinema, com o restante da série visando a conclusão da saga de Laranjinha e Acerola em um novo longa-metragem. Cidade dos Homens, o filme, é o fim deste percurso, ao menos por enquanto.

Como acontece com todo longa-metragem derivado da TV, há de imediato a identificação com os personagens. Mesmo quem não assistia a série provavelmente tem uma noção de quem eles são e qual é o tema abordado, nem que seja apenas pelos comerciais. Entretanto Cidade dos Homens vai além disto e usa cenas da série e até de "Palace II" para contar uma nova história. São cenas de flashback, usadas para ressaltar a amizade existente entre Laranjinha e Acerola, mas que não soam gratuitas. Servem justamente para dar uma maior profundidade à relação existente entre eles, de quase irmãos. É um raro caso de material produzido para uma mídia que é bem aproveitado para criar algo novo, em outra mídia.

Além disto há muito de Cidade de Deus em Cidade dos Homens, principalmente na questão estética. A ambientação das favelas, a postura e as falas, os próprios personagens... o universo é muito parecido e, por ambos terem a O2 Filmes como produtora, a experiência de um longa-metragem com certeza influenciou o outro. O que não é algo ruim, é preciso ressaltar. Cidade de Deus é um exemplo de que é possível fazer grandes filmes no Brasil. Cidade dos Homens, mesmo não atingindo o mesmo nível, é um bom filme e possui um lado técnico que impressiona pela veracidade. As invasões do morro durante a guerra do tráfico são bastante realistas e também violentas. O filme como um todo é pesado, pois assim é a realidade mostrada. Não só pela brutalidade dos acontecimentos mas também pelo lado psicológico enfrentado pelos dois protagonistas, envolvendo a questão da paternidade e a sobrevivência de ambos. É um universo duro, que às vezes chega a ser cruel, e um dos méritos do filme é justamente não tentar amainá-lo.

Cidade dos Homens é um filme bem produzido, que consegue avançar na história de Laranjinha e Acerola. Peca um pouco ao explorar em demasia a proximidade das favelas cariocas com a orla, ao tornar uma laje com vista pro mar como sendo o quartel-general de ambas as facções em disputa pelo tráfico no morro. Mas é um pequeno excesso em meio à ambientação. Um bom filme, pesado, que mostra uma das faces da realidade brasileira.

 
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