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A Arte
Retrata a Vida
"Cidade
de Deus" mescla entretenimento e realidade brasileira
Começa
Cidade de Deus. Logo de início o filme
apresenta sons e imagens de uma faca sendo amolada. Em seguida
surgem rápidas cenas que mostram um animado churrasco,
com muita música, carne e alegria. Em um canto estão
presas várias galinhas, que aos poucos vão sendo
depenadas e mortas. Uma delas assiste a tudo com um olhar
atônito. "Não quero morrer", deve pensar
consigo mesma, "preciso sair daqui". A galinha consegue
se soltar e foge, o mais rápido que pode, pelas estreitas
ruas do local onde se encontra.
Este insólito início causa espanto a quem conhece
ao menos um pouco da história de Cidade de
Deus, filme dirigido por Fernando Meirelles
que está em cartaz desde o dia 30 de agosto. Não
seria este o filme a mostrar e debater a questão da
violência nas favelas brasileiras, mais especificamente
as do Rio de Janeiro? Mas esta surpresa não dura muito
tempo. Em meio à tentativa de capturar novamente a
galinha fugitiva alguém grita para atirar nela. É
a deixa necessária para que lembremos novamente onde
se passa a história: na favela carioca Cidade de Deus,
em meio a uma verdadeira guerra entre traficantes e a polícia
local.
Adaptado do livro homônimo de Paulo Lins,
cujo roteiro foi escrito pelo estreante Bráulio
Mantovani, Cidade de Deus tem por
objetivo mostrar não apenas a história da favela
que dá nome ao filme, mas também debater o porquê
da escalada da violência no local. O filme possui uma
clara divisão em três fases, todas interligadas
através dos olhos de Buscapé,
morador local que reluta em seguir a vida criminosa e serve
como testemunha da história do bairro.
A primeira fase, no início dos anos 70, mostra o nascimento
do bairro, que nem ao menos possui ruas asfaltadas e condições
de vida satisfatórias oferecidas pelo Governo. Trata-se
de uma fase romântica do local, onde os principais criminosos
fazem pequenos assaltos, recebem ajuda dos moradores locais
e onde, apesar das constantes rondas da polícia, pode-se
jogar futebol tranqüilamente. É nesta época
que, além de Buscapé, somos
apresentados ao Trio Ternura, os "bandidos
mais perigosos do Rio de Janeiro", e também a
dois meninos que futuramente terão papel fundamental
na trama: Bené e Dadinho.
As duas fases seguintes, ocorridas no fim dos anos 70 e início
dos 80, mostram justamente o fim desta fase romântica
e o início do desenvolvimento do tráfico local.
É quando surge Zé Pequeno,
que rapidamente assume o controle de praticamente toda a Cidade
de Deus. Instável e cada vez mais violento e psicótico,
Zé Pequeno constantemente entra em
conflito com Cenoura, com quem divide o controle
da favela. O confronto entre ambos é inevitável
e o público percebe isso logo em seu primeiro encontro.
Quando ele enfim acontece a guerra é então deflagrada.
Além do próprio desenrolar da história,
as três fases do filme são diferenciadas pelo
ritmo dado por Fernando Meirelles à
fotografia. Na 1ª fase, por exemplo, as cenas são
melhor enquadradas e mais "conservadoras", mudando
para um estilo cada vez mais ágil e solto à
medida que o caos toma conta da história. Na 3ª
fase do filme praticamente todas as cenas foram rodadas com
a câmera na mão dos cinegrafistas, com cenas
tremidas e tensas de quem está realmente em meio ao
fogo cruzado. Além disso Meirelles
não poupa o espectador de cenas chocantes e muitas
vezes extremamente violentas, numa tentativa de realmente
mostrar a realidade do tráfico nas favelas, mesclando
tais seqüências com outras em que utiliza a fina
ironia do humor negro, tão conhecida dos fãs
de Quentin Tarantino.
Entretanto, todo o estilo visual implantado por Meirelles
em Cidade de Deus de pouco adiantaria
se o filme não recebesse uma valiosa contribuição:
a atuação do elenco. Formado principalmente
por atores até então amadores, trabalhados pela
co-diretora Kátia Lund e selecionados
nas próprias favelas cariocas, o elenco surpreende
pela excelente atuação de alguns de seus integrantes.
O jovem Douglas Silva (Dadinho) espanta com
a naturalidade com a qual faz rir e logo em seguida nos aterroriza,
repetindo seu belo desempenho mostrado no curta Palace
II, também de Fernando Meirelles.
Leandro Firmino da Rocha (Zé Pequeno)
consegue encarnar brilhantemente seu personagem, demonstrando
suas facetas de amigo de Bené, líder, assassino
psicótico e também seu lado cômico, sempre
permeado de humor negro. Outros destaques do elenco são
Alexandre Rodrigues (Buscapé) e Phellipe
Haagensen (Bené), que protagonizam algumas
das cenas mais memoráveis de Cidade de Deus.
E, em meio a tantas grandes atuações, fica em
2º plano justamente aquele que vem sendo considerado
como um dos melhores atores brasileiros da nova safra: Matheus
Nachtergaele, que vive o traficante Cenoura.
Mas nem tudo são flores para Cidade de Deus.
Consagrado no Festival de Cannes, com elogios em vários
dos principais jornais sobre cinema dos Estados Unidos e da
Europa e já cotado para o próximo Oscar de melhor
filme estrangeiro, o filme ainda causa controvérsias
no Brasil. Os críticos pregam que há uma banalização
desnecessária da violência, trazida às
telas numa linguagem pop, próxima à do videoclipe,
justamente para atrair grandes públicos e servir como
mero entretenimento. Já seus defensores exaltam Cidade
de Deus como um filme que não apenas apresenta
o mundo real e até então pouco conhecido do
tráfico em uma favela, como também levanta discussões
sobre o que pode ser feito para evitar que aquele mundo continue
existindo.
A verdade é que Cidade de Deus é
um filme que incomoda, pelo fato de grande parte do mostrado
em cena ser real e estar ocorrendo próximo de nós,
aqui mesmo no Brasil. A utilização de recursos
visuais por parte do diretor Fernando Meirelles
realmente serve para dar um tom mais ágil, que acaba
atraindo o público que é fã do cinema
norte-americano de ação, mas isto não
é motivo para recriminações. O simples
fato deste mesmo público ir ao cinema para assistir
a um drama que fala sobre a violência no Brasil, quebrando
o preconceito ainda existente contra filmes nacionais, já
é algo a ser comemorado. Se além disto este
mesmo drama, além de servir como entretenimento, consegue
passar uma mensagem social e levantar discussões acaloradas,
como é o caso de Cidade de Deus, trata-se
de um filme que merece ser comemorado e nomeado como um dos
principais longa-metragens da atual fase do cinema brasileiro.
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