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Sétima Arte
por Francisco Russo

Memórias de um Romance
Charlie Kaufman brilha mais uma vez

Em 1999 um novo nome começava a brilhar em Hollywood: Charlie Kaufman. Porém, ao contrário do usual na escala de sucesso do cinema americano, Kaufman não era um ator ou diretor iniciante, e sim um roteirista. Já em seu primeiro trabalho no cinema, Quero Ser John Malkovich, Kaufman ficaria marcado por roteiros extremamente criativos, que muitas vezes giram em torno de situações inusitadas. No próprio Quero Ser... isto ocorre, ao mostrar um túnel onde quem passa consegue entrar na mente do próprio John Malkovich. Junto com Quero Ser... veio também a primeira indicação ao Oscar de Charlie Kaufman, além da expectativa por seus trabalhos seguintes.

Em seguida veio "A Natureza Quase Humana" que, se não repetiu o sucesso de seu filme de estréia, também tratava de uma tema inusitado: a descoberta de um homem que vivia em plena selva, sem ter contato com a civilização moderna, sendo "adestrado" por cientistas. A estrela de Kaufman voltaria a brilhar em seu trabalho seguinte, Adaptação, quando levou a si mesmo para as telas na história de um roteirista atormentado pela adaptação de um livro para o cinema. Veio então mais uma indicação ao Oscar para seu currículo, por aquele que talvez seja o roteiro adaptado mais original da história do cinema.

Dois anos após Adaptação, e com o regular Confissões de uma Mente Perigosa entre eles, chega a vez de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, o novo filme de Charlie Kaufman. Sim, porque mais até do que o diretor Michel Gondry ou dos protagonistas Jim Carrey e Kate Winslet, o filme é de Kaufman. O inusitado, o flerte com o bizarro e o surpreendente estão lá novamente, prontos para surpreender o público. Quem conhece os demais filmes já feitos a partir de seus roteiros reconhece muitos pontos, em especial a utilização de uma situação inusitada para tratar de uma tema mais amplo. No caso de Brilho Eterno..., o amor.

Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é na verdade uma grande declaração de amor. O filme se passa quase que inteiramente na mente de Joel Barish, personagem de Jim Carrey. O inusitado da trama é a possibilidade real de que pessoas possam simplesmente apagar da memória lembranças indesejáveis, sempre que quiserem. O que termina acontecendo com Joel, que decide eliminar as lembranças de sua namorada, Clementine (Kate Winslet), após terem uma briga e descobrir que ela o apagara de suas memórias. Movido por vingança e raiva de ter sido eliminado, Joel decide fazer o mesmo com Clementine - para seu posterior desespero.

O filme então se transforma numa grande jornada pelos momentos, felizes ou não, de Joel e Clementine. Se de início as lembranças apenas se repetem, aos poucos o próprio Joel toma consciência - dentro de sua própria mente, vale ressaltar - de que não quer perder aquelas lembranças que, se hoje são dolorosas por não ter mais Clementine ao seu lado, fazem parte de sua própria história, de algo belo que viveu. Tem início então a luta de Joel contra o processo de eliminação de memórias, de forma a manter a lembrança de Clementine viva. Uma luta para manter vivo não o amor, mas a lembrança de que um dia ele existiu.

Ao contrário do que possa parecer, Brilho Eterno... não é um dramalhão. Pelo contrário, a descoberta da importância de manter viva estas memórias é feita de forma sutil e no decorrer do próprio filme. Outro ponto importante é o formato com o qual a história é narrada, que usa de forma magistral a bizarrice do fato de uma pessoa estar em sua própria mente lutando contra suas memórias. Sim, pois Joel não apenas revive suas memórias como também as subverte, alterando acontecimentos e personagens de sua vida e até mesmo criando memórias até então inexistentes.

É neste ponto que se destaca o diretor Michel Gondry, que também dirigiu "A Natureza Quase Humana". Usando os mais diversos truques, da simples mudança de iluminação e foco até métodos mais elaborados, Gondry consegue fazer com que o espectador sinta a aflição passada por Joel e passe a torcer por ele. As lembranças dos bons momentos vividos por Joel e Clementine, ao mesmo tempo realistas e encantadores, também ajudam no sentido de fazer com que o público torça para que aquele romance não termine, ou melhor, não seja esquecido. Vale destacar a cena de abertura do filme, em que Joel e Clementine se vêem na praia e, logo depois, conversam no trem. Simples, cativante e com uma trilha sonora inusitada que, até por causa disso, dá um charme a mais.

Brilho Eterno... possui uma grande quantidade de cenas surpreendentes, utilizando a situação de Joel estar em sua própria mente. Porém, mais do que todas estas cenas, o mais importante do filme é a mensagem que ele passa sobre amar e lembrar do que foi vivido, sejam eles bons ou maus momentos. Dizer mais seria estragar a grata surpresa que ele é. Excelente filme, desde já um dos melhores do ano.

 
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