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Sétima Arte
por Francisco Russo

Decadência a Olhos Vistos
"Atlantis" é o novo ponto negativo dos recentes desenhos da Disney

Houve uma época em Hollywood em que dizer que longa-metragem de animação era sinônimo de produção dos Estúdios Disney era bastante comum. Afinal de contas, o estúdio foi um dos pioneiros na arte da animação e produziu verdadeiros clássicos, como "Branca de Neve e os Sete Anões", "Pinóquio" e "Fantasia", além de inúmeros sucessos comerciais, como "Aladdin", "O Rei Leão" e "A Bela e a Fera", que chegaram inclusive a disputar e ganhar diversas estatuetas no Oscar.

Pois esta situação vem sendo bastante alterada nestes últimos anos e por dois grandes motivos. Primeiro por causa da entrada de diversos estúdios no ramo da animação, como a Warner Bros. ("O Gigante de Ferro" e "A Espada Mágica"), a 20th Century Fox ("Anastasia" e "Titan") e, principalmente, a DreamWorks SKG ("O Príncipe do Egito", "FormiguinhaZ" e "Shrek"). E em segundo pela visível queda de qualidade no chamado "padrão Disney" em suas produções de animação mais recentes, que não têm conciliado boas críticas da imprensa especializada e ainda sucesso de público nas bilheterias.

E o ápice desta má fase da Disney em seus desenhos é justamente a sua mais recente aposta: a aventura submarina "Atlantis - O Reino Perdido". Buscando fugir um pouco dos estereótipos criados por ela mesma em anos de trabalho com animações, o estúdio optou por produzir um desenho que foge um pouco aos seus padrões, excluindo totalmente as tradicionais canções e apostando firme numa aventura. A intenção era tentar se reciclar para manter-se na liderança, cada vez mais ameaçada pelos estúdios concorrentes. Mas, com o perdão do trocadilho, "Atlantis" naufragou em sua intenção e feio. A começar pelo desenvolvimento do roteiro, que tradicionalmente é um dos pontos fortes dos filmes da Disney. Repleto de falhas - algumas inacreditáveis, como personagens andarem perto de lava sem nem ao menos sentirem calor - e situações por demais impossíveis, o longa-metragem possui ainda muito pouco do que propõe mostrar ao público, que é justamente cenas de aventura. Tirando a perseguição inicial, que ocorre logo após Milo Thatch e companheiros partirem a bordo de um moderno submarino, há apenas mais uma cena de aventura no filme, que é justamente a do final.

Outro problema de "Atlantis" é que, apesar da não-existência de canções, vários outros clichês de filmes anteriores da Disney estão presentes. A começar por personagens engraçadinhos, daqueles que estão em cena com o único propósito de divertir a criançada com suas patetices. Em "Atlantis" a bola da vez é o escavador Moliere, que com seus binóculos de longo alcance é motivo para as piadas mais tolas, como colecionar terra. Além disso, atrapalha ainda mais o roteiro do filme o modo simples como várias tramas e mistérios são resolvidos, causando ao espectador aquela sensação de incredulidade sobre como não haviam descoberto isso antes. E para completar o leque de defeitos de "Atlantis" resta ainda falar da animação do filme, tradicional ao extremo e que não traz nada de inovador ao público que acompanha os desenhos que regularmente têm sido lançados nos cinemas nestes últimos anos.

Para alguns, tudo pode não passar de uma má fase da própria Disney, que não consegue um grande sucesso próprio, de crítica e de público, desde "O Rei Leão", de 1994. De lá para cá os maiores sucessos do estúdio foram os dois filmes da série "Toy Story", que foram produzidos em parceria com outra empresa de animação, a Pixar Animations Inc. No último ano, por exemplo, o estúdio lançou por conta própria "Dinossauro" e "A Nova Onda do Imperador", sendo que o primeiro possuía belíssimas cenas computadorizadas e um roteiro sofrível, enquanto que o segundo trazia um roteiro ágil e divertido mas que não conquistou o público em geral. Para este ano o estúdio conta ainda com um outro trunfo, "Monstros S.A.", mais uma vez produzido em parceria com a Pixar. Porém, é preciso que a Disney promova uma reformulação profunda no modo como contar uma história em animação, pois senão irá correr o sério risco de perder a liderança neste ramo em que, tradicionalmente, os Estúdios Disney sempre foram os pioneiros e líderes incontestáveis.

 
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