Decadência
a Olhos Vistos
"Atlantis"
é o novo ponto negativo dos recentes desenhos da Disney
Houve uma
época em Hollywood em que dizer que longa-metragem
de animação era sinônimo de produção
dos Estúdios Disney era bastante comum. Afinal de contas,
o estúdio foi um dos pioneiros na arte da animação
e produziu verdadeiros clássicos, como "Branca
de Neve e os Sete Anões", "Pinóquio"
e "Fantasia", além de inúmeros sucessos
comerciais, como "Aladdin", "O Rei Leão"
e "A Bela e a Fera", que chegaram inclusive a disputar
e ganhar diversas estatuetas no Oscar.
Pois esta situação vem sendo bastante alterada
nestes últimos anos e por dois grandes motivos. Primeiro
por causa da entrada de diversos estúdios no ramo da
animação, como a Warner Bros. ("O Gigante
de Ferro" e "A Espada Mágica"), a 20th
Century Fox ("Anastasia" e "Titan") e,
principalmente, a DreamWorks SKG ("O Príncipe
do Egito", "FormiguinhaZ" e "Shrek").
E em segundo pela visível queda de qualidade no chamado
"padrão Disney" em suas produções
de animação mais recentes, que não têm
conciliado boas críticas da imprensa especializada
e ainda sucesso de público nas bilheterias.
E o ápice desta má fase da Disney em seus desenhos
é justamente a sua mais recente aposta: a aventura
submarina "Atlantis - O Reino Perdido". Buscando
fugir um pouco dos estereótipos criados por ela mesma
em anos de trabalho com animações, o estúdio
optou por produzir um desenho que foge um pouco aos seus padrões,
excluindo totalmente as tradicionais canções
e apostando firme numa aventura. A intenção
era tentar se reciclar para manter-se na liderança,
cada vez mais ameaçada pelos estúdios concorrentes.
Mas, com o perdão do trocadilho, "Atlantis"
naufragou em sua intenção e feio. A começar
pelo desenvolvimento do roteiro, que tradicionalmente é
um dos pontos fortes dos filmes da Disney. Repleto de falhas
- algumas inacreditáveis, como personagens andarem
perto de lava sem nem ao menos sentirem calor - e situações
por demais impossíveis, o longa-metragem possui ainda
muito pouco do que propõe mostrar ao público,
que é justamente cenas de aventura. Tirando a perseguição
inicial, que ocorre logo após Milo Thatch e companheiros
partirem a bordo de um moderno submarino, há apenas
mais uma cena de aventura no filme, que é justamente
a do final.
Outro problema de "Atlantis" é que, apesar
da não-existência de canções, vários
outros clichês de filmes anteriores da Disney estão
presentes. A começar por personagens engraçadinhos,
daqueles que estão em cena com o único propósito
de divertir a criançada com suas patetices. Em "Atlantis"
a bola da vez é o escavador Moliere, que com seus binóculos
de longo alcance é motivo para as piadas mais tolas,
como colecionar terra. Além disso, atrapalha ainda
mais o roteiro do filme o modo simples como várias
tramas e mistérios são resolvidos, causando
ao espectador aquela sensação de incredulidade
sobre como não haviam descoberto isso antes. E para
completar o leque de defeitos de "Atlantis" resta
ainda falar da animação do filme, tradicional
ao extremo e que não traz nada de inovador ao público
que acompanha os desenhos que regularmente têm sido
lançados nos cinemas nestes últimos anos.
Para alguns, tudo pode não passar de uma má
fase da própria Disney, que não consegue um
grande sucesso próprio, de crítica e de público,
desde "O Rei Leão", de 1994. De lá
para cá os maiores sucessos do estúdio foram
os dois filmes da série "Toy Story", que
foram produzidos em parceria com outra empresa de animação,
a Pixar Animations Inc. No último ano, por exemplo,
o estúdio lançou por conta própria "Dinossauro"
e "A Nova Onda do Imperador", sendo que o primeiro
possuía belíssimas cenas computadorizadas e
um roteiro sofrível, enquanto que o segundo trazia
um roteiro ágil e divertido mas que não conquistou
o público em geral. Para este ano o estúdio
conta ainda com um outro trunfo, "Monstros S.A.",
mais uma vez produzido em parceria com a Pixar. Porém,
é preciso que a Disney promova uma reformulação
profunda no modo como contar uma história em animação,
pois senão irá correr o sério risco de
perder a liderança neste ramo em que, tradicionalmente,
os Estúdios Disney sempre foram os pioneiros e líderes
incontestáveis.
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