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Sétima Arte
por Francisco Russo

Realidade Brutal
Mel Gibson explora a violência em "Apocalypto"


Apesar de ter feito poucos filmes, já se pode constatar uma característica de Mel Gibson como diretor: seu gosto por sangue. Algo que já se podia perceber nas batalhas campais de Coração Valente ou na via-crúcis de Jesus em A Paixão de Cristo, mas não com a mesma intensidade de Apocalypto. O filme é uma recriação do início do século XVI na América Central, mais exatamente o período de declínio do império maia e anterior à chegada dos colonizadores espanhóis. Porém Apocalypto não é apenas uma recriação visual, mas também do ambiente e modo de vida da época. Uma vida brutal e violenta, que é apresentada com extremo realismo.

A história é focada em Jaguar Paw, interpretado pelo estreante Rudy Youngblood. Pai de família, Paw vive feliz em uma pequena aldeia, juntamente com seu pai e vários amigos. A tranquilidade local é aniquilada pela invasão da aldeia por um grupo de guerreiros, que capturam pessoas para servirem de sacrifício em um templo maia. Durante o ataque Paw consegue esconder seu filho e sua mulher, que está grávida, em um buraco em meio às rochas, o que impede sua captura. Porém o próprio Paw não tem a mesma sorte, sendo levado ao templo. Sua jornada ao império maia e consequente fuga, em uma tentativa de resgatar a família, conduzem o restante do filme.

Apocalypto impressiona pelo detalhismo como é apresentada a vida da época. Antes mesmo do ataque à aldeia, na cena inicial em que uma anta é perseguida, já se pode notar a violência existente. Uma violência cometida não por maldade ou crueldade, mas pela própria necessidade de sobrevivência. Gibson poderia poupar o espectador de certas cenas, desagradáveis e que fazem com que naturalmente se vire o rosto, mas as mantém justamente porque representam aquele momento, aquele estilo de vida da humanidade. Sim, há momentos de exagero nas consequências de atos violentos, nos quais é melhor demonstrada a simpatia que Gibson nutre por eles. Talvez até mesmo por causa da violência presente o diretor tenha se interessado pela história. Mas, apesar dela ser um elemento bastante importante na trama, Apocalypto não é apenas um filme violento. É um filme que usa a violência para recriar uma época, como um elemento natural existente para que aquela ambientação fosse crível. E é justamente esta ambientação que faz com que o filme brilhe, ainda que seja em meio a muito sangue.

Outro fator de destaque é o apuro técnico que Mel Gibson deu ao filme. Não apenas na fotografia e no cuidado na realização de certas cenas, em que é visível o uso de diversas câmeras e ângulos até mesmo inusitados, mas também na caracterização dos personagens e na sublime direção de arte. Cada personagem tem uma identidade visual diferente, com adereços, pinturas e marcas que se destacam. A direção de arte ganha destaque especial na chegada à cidade maia, pelo contraste com o verde reinante até então e, mais uma vez, pela impressionante recriação. A cidade maia é diferente de tudo o que é natural para a época, pelas cores, pela aglomeração de pessoas, pelos hábitos e pela própria nítida decadência.

Para completar, Apocalypto conta ainda com uma série de situações criativas para a resolução de sua história. E neste ponto o mérito é não apenas de Gibson mas também de Farhad Safinia, com quem escreveu o roteiro. A floresta e os recursos que ela proporciona são bastante explorados, de forma que muitas vezes o espectador é surpreendido. Nem sempre pela cena em si, mas pela idéia que a envolve. A diversidade apresentada demonstra que a dupla de roteiristas buscou estudar a fundo o tema, o que dá um brilho extra ao filme.

Apocalypto é um grande filme, que merecia ser melhor lembrado no Oscar. Um filme pesado, violentíssimo, mas também criativo e ousado em sua proposta.

 
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