Antes
Tarde do que Nunca
"Abril
Despedaçado" demonstra crescimento de Walter Salles
como diretor
Muita gente
torceu o nariz para "Abril Despedaçado",
novo filme do diretor Walter Salles, por causa de sua
desastrada campanha de lançamento no Brasil. Com distribuição
nos Estados Unidos já comprada pela Miramax, que desejava
incluí-lo na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro,
o novo longa de Walter Salles precisava ser indicado
como o representante brasileiro para o Oscar mas enfrentava
um grande problema: os candidatos teriam que estrear nos cinemas
até outubro de 2001. Como o filme foi lançado
mundialmente no Festival de Veneza, ocorrido justamente um
mês antes, haveria tempo para um lançamento dentro
do prazo-limite. Entretanto, como se acreditava que com a
Miramax investindo em sua divulgação haveria
mais chances de "Abril Despedaçado"
ser indicado ao Oscar, não apenas de filme estrangeiro
mas também em outras categorias, foi elaborado um plano
bastante comum nos Estados Unidos mas até então
inédito no Brasil: "Abril Despedaçado"
teve um lançamento restrito dentro do prazo-limite,
para torná-lo elegível, sendo que seu lançamento
nacional seria guardado para o período de fevereiro/março,
época geralmente reservada para os lançamentos
dos indicados ao Oscar nos cinemas brasileiros.
No início o plano deu certo. "Abril Despedaçado"
estreou em uma única sala em Salvador e lá ficou
em cartaz por menos de uma semana, o suficiente para que fosse
indicado como representante brasileiro ao Oscar de melhor
filme estrangeiro. A imprensa e pessoas ligadas ao cinema
protestaram contra a tática, defendendo a indicação
de "Bicho de 7 Cabeças" ou "Lavoura
Arcaica" e também protestanto pelo fato do
público brasileiro não poder ver seu representante
ao Oscar antes dos Estados Unidos. Entretanto, as indicações
ao Globo de Ouro e ao BAFTA, sempre na categoria de filme
estrangeiro, indicavam que a tática daria resultado
e que o Brasil teria mais um filme nacional indicado ao Oscar,
o 5º de sua história. A estréia nacional
de "Abril Despedaçado" já estava
marcada para o dia 1º de março, duas semanas após
o anúncio dos indicados ao Oscar. Até que, na
hora H, aconteceu o inesperado para produtores e distribuidores:
"Abril Despedaçado" ficou de fora
da lista de indicados ao Oscar.
A não-indicação trouxe de volta as críticas
à campanha de lançamento de "Abril Despedaçado",
agora em quantidade bem maior pelo fato do atraso em sua estréia
nos cinemas nacionais não ter rendido nem a esperada
indicação ao Oscar. A estréia do filme
foi desmarcada e adiada para o período pós-Oscar,
mais exatamente para 1º de maio. E, quase 7 meses após
a indicação de "Abril Despedaçado"
como representante nacional ao Oscar, enfim o público
brasileiro pôde assisti-lo nos cinemas.
Mas deixemos a polêmica em torno de seu lançamento
um pouco de lado para falarmos, enfim, do filme. Baseado em
livro de Ismail Kadaré, "Abril Despedaçado"
mostra a guerra entre duas famílias situadas no Nordeste
brasileiro em que o ingrediente principal é a honra.
Quando o filho de uma das famílias é morto,
o filho mais velho da outra tem o direito de matar o assassino
como meio de "honrar o sangue derramado". A honra
existente entre os inimigos impede que matanças generalizadas
sejam realizadas, já que cada um apenas pode derramar
a mesma quantidade de sangue do outro. É assim que,
um a um, os homens de ambas as famílias são
eliminados.
É neste ambiente que Tonho (Rodrigo Santoro,
em boa atuação) é encarregado de vingar
a morte de seu irmão mais velho. Seu maior incentivador
em seguir a guerra e lavar a honra da família é
seu próprio pai (José Dumont), sendo
que Pacu (Ravi Ramos Lacerda, o melhor do elenco),
seu irmão caçula, não vê sentido
em continuar a disputa e tenta desestimulá-lo a cumprir
seu destino. Dividido entre a insistência do pai em
matar mais um integrante da família rival e a insistência
do irmão em fugir e esquecer a honra da família,
Tonho resolve cumprir sua sentença familiar
e se condena à morte.
Além da trama envolvendo a honra entre famílias
rivais, "Abril Despedaçado" pode ser
caracterizado pela falta de emoção entre seus
personagens. Tirando o relacionamento entre Pacu e
Tonho e, posteriormente, de ambos com Salustiano
(Luiz Carlos Vasconcelos) e Clara (Flávia
Marco Antônio), integrantes de um circo mambembe,
"Abril Despedaçado" é um filme
extremamente árido, não apenas no ambiente nordestino
como também no modo como cada personagem interage com
os demais. Esta aridez ressalta ainda mais a subserviência
que os personagens possuem à honra existente em ambas
as famílias e também à própria
hierarquia existente entre pais e filhos. Tonho e Pacu
sempre falam e agem com seu pai com respeito e medo, sendo
que a distância existente entre eles é tanta
que ambos estranham quando, após Tonho levar
um tombo, seu pai também começa a rir do ocorrido,
assim como já estavam fazendo Pacu e o próprio
Tonho.
Entretanto, pouco valeria a aridez dos relacionamentos nem
a honra existente entre as famílias se não fosse
o visível crescimento de Walter Salles como
diretor, que aqui demonstra controlar totalmente cada minuto
do filme. Cada tomada, cada enquadramento, cada detalhe de
"Abril Despedaçado" possui o dedo
de Salles, mostrando ainda um preciosismo técnico
exuberante, pouquíssimas vezes visto em filmes nacionais.
Existem diversas cenas belíssimas no decorrer do filme,
sendo que cito pelo menos três: toda a sequência
do assassinato realizado por Tonho, as cenas vistas
pelo alto da bolandeira e as cenas vistas, também do
alto, no momento em que Clara está pendurada na corda.
Analisando "Abril Despedaçado", é
justo dizer que a direção de Salles no
filme é melhor até que a direção
em seu maior sucesso, "Central do Brasil",
apesar de "Abril..." como um todo não
ser melhor que "Central...". Trata-se de
um filme que merece ser observado com atenção,
pelo modo como ele foi realizado e também pela maneira
como os personagens e a própria trama é conduzida.
Resumindo, trata-se de um filme que, apesar de toda a polêmica
em torno de sua campanha de lançamento, merece ser
conferido por se tratar de um dos melhores filmes brasileiros
dos últimos anos e, merecidamente, indicado como representante
nacional ao Oscar'2002.
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