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por Rodrigo Fernandes

Marlon Brando - Uma Retrospectiva

Queda e Ascensão


Pode-se dizer sem susto que o maior antagonista de Marlon Brando sempre foi ele mesmo. Por exemplo. No início dos anos 60 Marlon já era um ator consagrado, o maior astro do mundo, e isso graças a apenas meia dúzia de filmes. Mas essa posição, privilegiadíssima, não o satisfazia. O homem, tomado pelas loucuras do ego, resolveu também se meter do outro lado das câmeras. A principio seria apenas o produtor de A Face Oculta , um western estranho, pretensioso e cheio de "questões psicológicas", que seria dirigido por Stanley Kubrick com Karl Malden no papel principal. Brando despediu os dois e assumiu as duas funções. Resumo da ópera; A Face Oculta acabou como um filme lento, confuso e chato, que demorou o dobro do tempo previsto para ficar pronto e teve seu custo planejado triplicado. Críticas ferozes e bilheterias pífias ajudaram a afundar a produção. Marlon Brando nunca mais sentaria numa cadeira de diretor.

O ator seguiu os anos 60 tropeçando nas próprias pernas. Recusou o papel principal de Lawrence da Arábia , que consagrou Peter O`Toole. Entrou na canoa furada de O Grande Motim , um mega-fiasco de 28 milhões de dólares, uma fábula na época. E atuando sob a batuta pesada de Charlie Chaplin fez o frustrante A Condessa de Hong Kong com Sophia Loren. E assim foi durante toda a década, Brando trabalhando preguiçosamente em produções sem brilho ( Morituri, Caçada Humana, Sangue em Sonora , a comédia sem graça Candy ) e dilapidando seu próprio mito. Logo deixou de ser um nome quente, rentável, confiável. A Lenda hibernava.

Curiosamente seria com Queimada!, de 1969, que o astro começaria seu retorno ao mundo dos vivos. Dirigido pelo italiano Gillo Pontecorvo, Marlon faria ali seu trabalho favorito como ator. É curioso, pois ele e o diretor viviam às turras, se odiavam mútua e sinceramente. Pontecorvo chegou a exigir que o ator fizesse 41 tomadas de uma mesma cena e Brando por sua vez simplesmente pegou um avião e abandonou as filmagens. Os dois chegaram várias vezes às vias de fato, o clima era tão esquisito durante as filmagens que Pontecorvo andava armado no set. Apesar do filme ter sido recebido como a volta do bom e velho Marlon foi só em 72 que Brando recuperaria de vez seu status. Graças principalmente ao escritor Mario Puzo, que o indicou para interpretar o personagem central de seu livro O Chefão, que estava sendo filmado por Francis Ford Coppola. Marlon ficou com o papel - não antes de um teste - e com uma interpretação magnífica encarnou o inesquecível Don Vito Corleone, o patriarca de uma família mafiosa. Graças a O Poderoso Chefão , um dos grandes filmes da história do cinema, Brando tornou-se o ator mais bem pago do mundo e ganhou seu segundo oscar. O ator não compareceria à cerimônia, ao invés disso mandou uma índia falsificada buscar a estatueta, um protesto à falta de respeito aos nativos norte-americanos. Ele estava de volta.

No mesmo ano Marlon ainda provocaria tremores com o polêmico O Último Tango em Paris dirigido pelo então iniciante Bernardo Bertolucci. Bem, você com certeza já ouviu falar da cena da manteiga... Os anos setenta seguem generosos para o ator. Em 76 faz o bom Duelo de Gigantes, atuando com um Jack Nicholson meio abobalhado "enquanto os outros atores andam, Marlon Brando flutua" diria o ator. Em 78 outra prova de sua moral, Brando aparece como Jor-El, pai do futuro super-homem em Superman o filme e fatura 4 milhões de dólares americanos para aparecer dez minutos na tela. E seu nome é o primeiro nos créditos! Finalmente Marlon fecha a década com aquele que talvez seja seu grande último papel. O trágico e rebelde Coronel Kurtz do épico Apocalypse Now . Mesmo aparecendo apenas no final do filme é a imagem de Brando, com a cabeça raspada e fazendo um discurso alucinado, que melhor sintetiza o filme de Coppola, talvez o melhor retrato já feito sobre as loucuras da guerra do Vietnam.

A partir dos anos 80 mr. Brando passou a se distanciar dos sets. Filmava cada vez menos, preferindo fazer filmes menores e despretensiosos como o divertido Um Novato na Máfia e o delicioso Don Juan De Marco . Seu último trabalho, o mediano A Cartada Final de 2001 teve a proeza de reunir Brando, Robert De Niro e Edward Norton, talvez os três grandes atores de suas respectivas gerações, sendo os dois últimos discípulos confessos do primeiro. Em 94 o ator publicou sua esperada autobiografia Canções que minha mãe me ensinou (disponível em português) onde divaga longamente sobre sua luta a favor dos índios norte-americanos e sobre a ilha que comprou no Taiti. O livro, bem chatinho, nada fala das tragédias de sua vida, que não foram poucas. Seu filho matou o cunhado a tiros e anos depois sua filha se suicidaria. Brando também sofria de obesidade mórbida e seus últimos contratos rezavam que ele só podia ser filmado da cintura para cima.

Mais que desajustados sociais, guerrilheiros revolucionários, mafiosos e coronéis insanos, Brando interpretou como ninguém o século que ajudou a dar forma e cor. Sua bíblia foi o exagero. Provou de tudo e de todos, triturou e foi triturado, consumiu e foi consumido, teve todas as mulheres que quis e, segundo as más línguas, alguns homens também. Foi adulado a níveis divinos e respondeu com uma irritante indiferença. Se meteu em filmes ruins, brigou com diretores, exagerou em algumas interpretações e em outras foi displicentemente bocejante. Mas quando acertou fez história.

Ao falecer em 2004, entre depoimentos emocionados, o reconhecimento dos críticos e belas homenagens por todo o mundo, foram certamente as palavras de Bernardo Bertolucci que melhor definiram o desaparecimento da Lenda: "Brando morreu para se tornar imortal" . Ponto final. Ave Brando, os que são teus fãs te saúdam!

 
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