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por Rodrigo Fernandes

Marlon Brando - Uma Retrospectiva

Forja-se a Lenda


Me lembro com a clareza e a limpidez de um copo de água mineral Caxambu. Era minha primeira aula de interpretação e eu um barnabé sem um átomo de talento, mas que realmente sonhava em ser um grande ator. O professor entrou na sala carrancudo. Sério e altivo como um pavão não dirigiu uma palavra sequer à turma, encolhida e curiosa. Apenas ligou o videocassete, enfiou uma fita no trambolho e disse, solene.

_ Vejam esse filme e tentem aprender algo.

A fita era um filme de Marlon Brando. Eu não sabia, mas estava sendo apresentado ao maior ator do mundo.

Se fosse possível resumir tudo o que foi Brando, se fosse possível (e não, não é) resumir todo o universo que gravita em torno do seu nome em uma única palavra essa teria de ser LENDA . Com maiúsculas. Lenda , pois desde sua aparição flamejante na peça Um bonde chamado desejo a seu último filme A cartada final, até mesmo as coisas que de fato aconteceram parecem caramelizadas numa calda de mito e absurdo.

Marlon Brando jr. veio do teatro onde causara estranhas sensações orgânicas nas mulheres encarnando Stanley Kowalski, um polonês bronco e sexy na famosa peça de Tennessee Williams. Autor que, aliás, o considerava "mais felino que homem" . Antes disso, antes de provocar esse frisson nas platéias Marlon já havia feito algumas peças até bem populares, mas foi com Um bonde chamado desejo que começaria a ser forjada sua Lenda . Ali se congelaria uma imagem que talvez seja a mais associada ao ator até hoje. A do homem que faz suas próprias regras, que domina os outros homens com sua presença sólida e as mulheres com sua força magnética e sexual. E se a platéia ficou hipnotizada com aquele novo talento a crítica não o perdoaria, o acharia um ator absolutamente excelente.

Brando sabia dessa dualidade que provocava e por isso em seus primeiros papéis no cinema alternaria este estereótipo de rebelde-sexy com outros, que lhe desafiassem como ator. Se em sua primeira incursão cinematográfica Espíritos indômitos, de 1950, ele interpretava um veterano de guerra paralítico, na seguinte voltava ao papel de Stan Kowalsky em Uma rua chamada pecado, a versão cinematográfica de Um Bonde . Se em Viva Zapata ! Marlon encarnou um líder revolucionário mexicano (com uma maquiagem pesadíssima e um bigode latino inacreditável) e em Júlio César o general romano Marco Antônio, em 54 Brando ainda voltaria ao seu velho tipo rebelde-molhador-de-calcinhas no superestimado O Selvagem , cujos cartazes berravam para a mulherada: "Aquele homem do bonde tem um novo desejo!" . Essa fase de dupla personalidade artística, esse sentimento de agradar tanto o público quanto a crítica só terminaria com Sindicato de Ladrões , o filme que lhe daria seu primeiro Oscar.

Sindicato de Ladrões ( On the Waterfornt ) conta a história do ex-boxeador Terry Malloy (Brando) que faz pequenos serviços - servicinhos beeemmm sinistros! - para o mafioso sindicato das docas de Nova Jersey. Mesmo tendo o irmão como um dos gangsters (o ótimo Rod Steiger) Malloy acaba arriscando o pescoço para denunciar a corrupção do sindicato picareta. Sindicato de Ladrões ficaria famoso por vários motivos. Além de se tornar um emblema da era da caça às bruxas do macarthismo - seu diretor, Elia Kazan, teria delatado vários colegas ao famigerado comitê anticomunista e passaria o resto da vida se justificando - o filme é, por si só, uma obra-prima cinematográfica. Vencedor de oito oscars, incluindo melhor filme, diretor e ator, talvez o maior feito de Sindicato tenha sido transformar Brando, enfim, em um ator sério, um nome respeitado e respeitável na fogueira de vaidades de Hollywood. Um nome, acima de tudo, lucrativo.

A partir daí, com Hollywood no bolso, mr. Brando encarnaria os mais variados e díspares papéis possíveis. Foi Napoleão Bonaparte em Desirée, O amor de Napoleão , na sua opinião seu pior trabalho, mas que uma vez mais foi saudado tanto pelo público quanto pela crítica. As produções seguintes, Eles e Elas e Casa de chá do Luar de Agosto , não honraram o talento de Brando. No primeiro Marlon cantou e dançou ao lado de ninguém menos que Frank "the voice" Sinatra, química zero entre os dois astros. E no segundo Brando interpreta um...um... bem... um japonês ! Os dois filmes foram fracassos medonhos. Porém, mesmo com esses reveses os anos cinqüenta terminariam com saldo positivo para Marlon. Em 57 filmaria Sayonara no Japão, filme que receberia nove indicações da academia e seria o campeão do ano em bilheteria. Em 58 seria a vez de filmar Os Deuses Vencidos , ao lado de Dean Martin e seu parceiro-e-rival Montgomery Clift. Outro sucesso. Marlon estava na crista da onda, uma onda preste a virar espuma.

(continua)

 
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