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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Quem É Essa Mulher? 

Confesso que aguardava a estréia de Zuzu Angel com um misto de ansiedade e temor. Afinal de contas, a última tentativa de levar para as telonas a biografia de uma heroína que lutara contra um regime ditatorial brasileiro não fora das mais felizes. É como dizem: gato escaldado tem medo de água fria. Mas, felizmente, Zuzu Angel não se atola na cartilha da dramaturgia rasa que tem pontuado algumas produções recentes do cinema nacional. O diretor Sérgio Rezende, após errar a mão em Onde anda você?, retorna com estilo à seara dos filmes de cunho histórico que sempre foram sua especialidade.

Não é de hoje que se fala em levar para as telas a impressionante trajetória de Zuzu Angel e sua brutal transformação: uma famosa estilista em ascensão internacional, sem qualquer envolvimento ideológico, subitamente se vê forçada a entrar em choque com a ditadura quando seu filho Stuart, militante da luta armada, desaparece. Seu drama era igual ao de inúmeros brasileiros que perderam pessoas amadas para a brutalidade insana da ditadura militar, mas sua coragem e determinação sem limites a tornaram um ícone da resistência e inconformismo.

O filme não se propõe a fazer uma biografia convencional, concentrando-se no período de 1971 a 1976, ou seja, nos cinco anos compreendidos entre o desaparecimento de Stuart e a morte de Zuzu num criminoso acidente de carro provocado pela repressão - seu assassinato só foi oficialmente reconhecido como tal já nos anos 90. Seu calvário começa na noite em que recebe um telefonema anônimo informando que Stuart havia sido preso, mas ela não consegue obter nenhuma informação concreta sobre o filho. Como num pesadelo kafkaniano, os militares negam sua prisão e até permitem que ela visite o quartel onde são detidos os revolucionários. Mas basta uma olhada para constatar que o local havia sido previamente "maquiado". A farsa continua a ponto de Stuart ser inocentado num inquérito algum tempo depois de Zuzu ter recebido uma carta relatando que ele havia sido torturado e morto na base aérea do Galeão. Em sua luta desesperada - agora para reaver o corpo do filho e poder, ao menos, enterrá-lo -, Zuzu vai se tornando um incômodo ao buscar aliados no exterior e desafiar abertamente os algozes de Stuart.

O roteiro de Marcos Bernstein e Sérgio Rezende dá conta de apresentar a transformação da personagem de empresária burguesa em uma mãe que não vê mais nada pela frente senão a violência cometida contra o filho. O único senão fica por conta do roteiro, bastante eficiente em termos gerais, em alguns momentos não deixar claro o porquê de certas passagens. Um exemplo é a conversa entre Zuzu e o pai de Lamarca. Apesar de ser uma boa cena, parece pouco plausível e desconectada do restante do filme.

Os sempre ótimos Daniel de Oliveira e Leandra Leal estão perfeitos como Stuart e Sonia, ainda que toda a carga dramatúrgica recaia sobre os ombros de Patrícia Pillar no papel-título. A atriz está presente em 90% das cenas e sua interpretação apaixonada, valorizada pelo bom trabalho de caracterização, é um dos pontos altos do filme. Impressionante como sua fisionomia altiva e sofisticada vai se desconstruindo progressivamente, até formar a imagem de uma mulher vergada pela dor e desesperança de travar uma batalha que, de todo modo, já está perdida.

O longa conta com diversas seqüências memoráveis, como o desfile em que Zuzu apresenta toda sua coleção bordada com motivos que denunciam seu drama, como anjos engaiolados e canhões. Destaque também para a impressionante cena do acidente, pontuada por "Apesar de Você", e a simbologia contida no fato do agente da repressão não conseguir calar a poesia da música. E nos despedimos da história da forma mais emocionante possível, quando os versos de "Angélica", a linda canção composta por Chico em homenagem a Zuzu, ecoam pelo escurinho do cinema enquanto os créditos finais enchem a tela: "Quem é essa mulher, que canta sempre esse estribilho? Só queria embalar meu filho, que mora na escuridão do mar (...) Quem é essa mulher, que canta sempre o mesmo arranjo? Só queria agasalhar meu anjo. E deixar seu corpo descansar."

 
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