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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

O Signo da Morte 


Por mais que a imaginação humana seja capaz de inventar perversões, não existe história de horror mais impressionante do que a realidade. Zodíaco é baseado no caso real do serial killer que aterrorizou São Francisco por décadas, sem que nunca se tenha chegado a uma conclusão satisfatória sobre sua identidade. Um mistério tão intrigante quanto o de Jack, o Estripador e que perdurou por muito mais tempo, já que o assassino zombou da polícia e da imprensa por anos a fio. O Zodíaco era a versão anos setenta do bicho-papão. Tudo começa em 1969, quando três jornais recebem três diferentes cartas, contendo um código, enviadas pelo mesmo remetente. O autor, que se auto-intitula "O Zodíaco", fornece detalhes só conhecidos pela polícia sobre a morte de três pessoas e a tentativa de homicídio de uma quarta e exige que as cartas sejam publicadas, do contrário mais pessoas morreriam. Mesmo tendo seu desejo atendido, as mortes e as cartas se multiplicam, deixando os cidadãos em pânico e desnorteando as autoridades. David Toschi e William Armstrong, detetives responsáveis pelo caso, viram celebridades, assim como o repórter investigativo Paul Avery. Mas é Robert Graysmith, um tímido cartunista que trabalha no mesmo jornal que Avery, quem chega mais perto de solucionar o caso.

O mais desconcertante no Zodíaco é que, ao contrário da maioria dos serial killers, ele não seguia um padrão rígido. Seus assassinatos não eram ritualisticamente repetidos nos mínimos detalhes. Ele se dava até ao luxo de deixar sobreviventes algumas vezes. Parecia estar mais interessado em confundir as autoridades e provar a própria esperteza de que propriamente em matar. Por isso, o número de vítimas nunca será conhecido com exatidão.

Com uma história dessas e um nome como David Fincher na direção, a expectativa a respeito do filme era das maiores. Afinal de contas, à frente do projeto estava o cara que revitalizou o gênero com o cultuadíssimo Seven - Os Sete Crimes Capitais. Fincher começou a ficar conhecido em 1992, ao dirigir Alien 3, embora só tenha ficado realmente famoso três anos depois com Seven. O filme foi sucesso de público, crítica e bilheteria, o que fez de David Fincher um nome quente em Hollywood. Depois vieram o razoável Vidas em Jogo (1997) e o surpreendente e ousado Clube da Luta (1999). Mas o século XXI não trouxe boas novas para a carreira do cineasta que, desde então, dirigiu apenas o decepcionante O Quarto do Pânico (2001) e agora, após um jejum de seis anos, Zodíaco.

Este é o terceiro filme feito sobre o assassino do zodíaco: os anteriores foram The Zodiac Killer (1971) e O Zodíaco (2005). A idéia inicial para esta nova versão era criar uma ficção em cima dos fatos relatados por Robert Graysmith em seu livro. Mas quando o roteirista James Vanderbilt e o produtor Bradley Fischer, dois apaixonados pela história, conseguiram os direitos do livro, acabaram optando por uma adaptação fiel. O que criou um problema de ordem dramatúrgica, já que, como a identidade do Zodíaco nunca foi confirmada e o principal suspeito nem chegou a ser preso, não existe exatamente um desfecho para a trama.

Zodíaco é muito bom até a metade, quando o ritmo fica arrastado e o espectador tem a impressão de que nada - ou pouco - está acontecendo na tela. Perto do final, se recupera novamente. Mas aí é meio tarde, porque uma "barriga" já fora criada. É complicado apontar um grande defeito no filme, porque não há. É mais uma questão de timing, de falhar em segurar a atenção do espectador como Seven faz ao longo de toda a projeção. O que nos leva à questão que seria, no final das contas, a maior falha do filme: Zodíaco tem 158 minutos. Nada contra filmes longos, desde que tal duração se justifique. E, neste caso, simplesmente não há trama o suficiente para rechear duas horas e quarenta minutos. Daí a sensação desconfortável de quebra no ritmo narrativo.

O que é uma pena, porque o filme tem todos os elementos certos: uma história interessantíssima, um clima de suspense bem estabelecido e trilha sonora caprichada. Sem contar o elenco de primeira, encabeçado pelo ótimo Jake Gyllenhaal no papel de Robert Graysmith. Rodado com câmeras digitais de alta definição e com um orçamento de US$ 85 milhões, era para ser o thriller do ano. Mas até que a carreira internacional de Zodíaco começou bem. O longa foi exibido em Cannes e agradou a crítica, a despeito do desempenho fraco em casa (o filme estreou nos Estados Unidos em março, arrecadando meros US$ 33 milhões). O saldo final pende para o positivo: apesar de suas falhas, vale reservar um tempinho (ou melhor, um tempão) para conferir a produção.

 
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