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No Escurinho do Cinema
por Érika Liporaci

Cinema para Encher os Olhos


O cineasta chinês Zhang Yimou ficou famoso no começo dos anos 90 por seus filmes engajados, sempre a lançar um olhar crítico sobre a condição subserviente da mulher na tradição cultural de seu país. Para quem não está ligando o nome à pessoa, Yimou dirigiu o consagrado "Lanternas Vermelhas", que narra o cruel destino de uma jovem dos anos 20 vendida a um homem rico como sua quarta concubina e que logo se vê atropelada pelas disputas de poder das outras mulheres. Também é dele o singelo "Nenhum a Menos", um mordaz retrato do sistema educacional chinês ilustrado pela saga homérica da professorinha de uma comunidade rural em busca de resgatar o aluno que abandonara os estudos para trabalhar na cidade. Portanto, foi com estranheza que se recebeu a notícia de que Yimou filmara não apenas um, mas dois filmes seguidos de artes marciais. Parecia algo oportunista, na esteira dos quatro Oscars do taiwanês O Tigre e o Dragão.

Embora haja uma diferença de dois anos entre as duas produções de Zhang Yimou, quis o destino - ou os humores de nossos distribuidores - que ambas estreassem aqui quase simultaneamente. Herói, rodado em 2002, entrou em cartaz somente na última sexta-feira; O Clã das Adagas Voadoras tem previsão de estréia para 8 de abril. Herói era o mais aguardado, o que só torna mais inexplicável os sucessivos adiamentos de sua data de estréia. O longa foi indicado ao Oscar 2003 de melhor filme estrangeiro, mas acabou perdendo para o alemão Lugar Nenhum na África - correto, mas muito menos empolgante. Ano passado, tanto Herói como O Clã foram exibidos no Festival do Rio e a estréia do primeiro foi marcada para 31 de dezembro. Um belo dia, os trailers de Herói pararam de ser exibidos. E só agora, quase três anos após o início de sua carreira comercial, o filme chega até nós.

Mesmo os que admiram o cinema oriental costumam fazer a ressalva de que, muitas vezes, o brilhantismo estético parece mascarar fragilidade dramatúrgica. Um cinema que tem como base a fluidez costuma causar estranheza nas mentes ocidentais, não obstante a perfeição de suas imagens. Não é o caso de Herói, cujo incrível visual está entrelaçado com um roteiro inteligente e uma simbologia que trata de temas universais. A estrutura narrativa guarda uma certa semelhança com o clássico japonês "Rashomon", de Akira Kurosawa, ao recontar os mesmos fatos sob diferentes pontos de vista. Longe de tornar a história repetitiva, o recurso acrescenta uma nova e filosófica dimensão. Cada nova "camada" multiplica as possibilidades e torna mais difícil chegar à "verdade". Sem contar que o uso ostensivo de uma cor diferente para cada flashback dá um resultado simplesmente deslumbrante na telona.

A trama é situada há cerca de dois mil anos, quando a China era dividida em sete reinos que viviam em guerra entre si, e tem como ponto de partida um personagem real: o rei de Qin, a mais forte das províncias. Embora tenha sido, de fato, o unificador do país e idealizador da Grande Muralha, o monarca entrou para a História como um tirano que não mediu sangue derramado para alcançar seus objetivos. No filme, apesar de seu poder, o rei vivia sobressaltado por conta das inúmeras tentativas de assassiná-lo e temia sobretudo três lendários guerreiros: Céu, Neve e Espada Quebrada. Um dia, um simples oficial subalterno é levado até ele como o homem que, sozinho, derrotou os três inimigos de Qin. O rei faz questão de que o guerreiro sem nome lhe conte tudo sobre a façanha, mas logo começa a perceber que certos detalhes não fazem sentido. O que vemos na tela a partir daí é uma espécie de duelo verbal entre os dois homens, onde - como na fábula de Sherazzade - o poder de convencimento pode valer a vida.

A questão básica do filme é a subjetividade. Quem é herói? Geralmente, os que estão do mesmo lado que nós, embora o prólogo faça questão de ressaltar que "em toda guerra há heróis de ambos os lados". A tirania que trará paz vale a pena? O que é mais corajoso, derrotar o inimigo ou mudar de idéia? E, principalmente, existe uma única verdade?

O Clã das Adagas Voadoras parte de uma premissa mais simples, o triângulo amoroso, para contar uma história que envolve paixão, traição e juramentos quebrados. Desta vez, o período histórico enfocado é o ano de 859. A dinastia Tang luta para se manter no poder, embora esteja em plena decadência. Surgem inúmeros grupos rebeldes, dos quais o mais temido e habilidoso é o Clã das Adagas Voadoras. Jin, um guarda imperial, recebe a missão de se infiltrar no Clã para tentar descobrir seu líder e assassiná-lo, assim enfraquecendo o grupo. O grande obstáculo é que Jin não sabe nem por onde começar e sua única pista é uma dançarina cega.

Embora toquem fundo em questões metafísicas, são dois espetáculos ágeis, empolgantes e arrebatadores. Neste ponto, Yimou segue à risca a cartilha de seus antecessores: é cinema não apenas para os olhos, mas também para os ouvidos. Um exemplo é a seqüência de O Clã das Adagas Voadoras em que Mei dança pela sala rodeada de tambores ritmando os mesmos com suas mangas esvoaçantes. As imponentes trilhas sonoras de Herói e O Clã dão a impressão de fazer mil tambores rufarem dentro do peito de cada espectador.

Certamente que a narrativa de O Clã é menos sofisticada que a de Herói, embora o filme de 2004 chegue a superar seu antecessor em termos de beleza visual. Mas analisar estas duas produções em conjunto com a filmografia de Zhang Yimou leva a uma conclusão: o extraordinário talento do diretor, além de sua coragem em experimentar num gênero com o qual não estava familiarizado. E o resultado é o banquete sensorial que vemos na tela. O público, saciado, agradece.
 
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