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| No Escurinho do Cinema |
por
Érika Liporaci |
Turbulência
na Telona
A gerente de hotel Lisa Reisert não está num
bom dia: ao voltar para Miami após o funeral da avó,
o aeroporto está um caos e os vôos atrasados.
Sua sorte parece melhorar quando o charmoso Jackson a convida
para tomar um drink enquanto esperam o vôo. No embarque,
descobrem que estão sentados lado a lado. O que parecia
ser um promissor flerte descamba para o terror quando Jackson
revela suas verdadeiras intenções: comandar
o assassinato de um importante político prestes a se
hospedar no hotel onde ela trabalha. Para que seu plano seja
bem-sucedido, Lisa deve ordenar que o hóspede seja
trocado de quarto. Caso se recuse, Jackson dará sinal
verde a um assassino que está de tocaia em frente à
casa do pai dela. Familiar o argumento? Não é
à toa. Se tirarmos o avião e jogarmos a história
em terra firme, fica bem parecida com Tempo
Esgotado - aquele filme em que Johnny Depp era coagido
a cometer um assassinato em troca da vida da filha. A diferença
é que Lisa não deve matar e sim colaborar para
que isso aconteça. Mas o calvário da moça
é semelhante: tentativas infrutíferas de pedir
socorro, a ameaça a um parente próximo, pouco
tempo para agir, um político como alvo.
A despeito de não primar pela originalidade e de pegar
carona no clima de insegurança da América pós-onze
de setembro, a história funciona bem enquanto se passa
dentro do avião. Ponto para a convincente atmosfera
de tensão e claustrofobia, alimentada pelo temor natural
que a maioria das pessoas sente ao voar. Sem contar a apreensão
de ter um vizinho de poltrona desagradável, exemplificada
na cena em que Lisa passa por alguns tipos esquisitos e suspira
de alívio ao ver que seu assento é ao lado de
Jackson. No entanto, o filme desanda completamente quando
o avião aterrissa. Livre do confinamento da aeronave,
a trama fica over. As soluções parecem
afobadas e o que era levemente implausível beira as
raias do nonsense . E aí os clichês
imperam: da perseguição estilo gato-e-rato ao
inevitável tropeção da mocinha na hora
H. Vamos combinar que ninguém agüenta mais esse
estereótipo hollywoodiano de mulher ficar tropeçando!
Até mesmo o vilão sedutor, que era a melhor
coisa do filme, perde a linha e vira uma caricatura grotesca
de si mesmo.
Podemos dizer que o longa padece de uma certa esquizofrenia.
São dois roteiros distintos: o eficiente, no ar, e
o capenga, na terra. Fica a impressão de que o roteirista
Carl Ellsworth escreveu até a metade com serenidade
e, de repente, por um motivo qualquer, ficou desesperado e
terminou o trabalho de qualquer jeito. Vôo
Noturno é seu primeiro roteiro para cinema. Isso
pode ser uma explicação, mas nunca uma desculpa.
O oscarizado roteiro de Thelma
& Louise, por exemplo, foi escrito pela então
estreante Callie Khouri.
Vale destacar que essa derrapada não desmerece o bom
trabalho do ator irlandês Cillian Murphy (visto recentemente
como o psiquiatra sádico de Batman
Begins), que constrói Jackson como um vilão
sofisticado e cheio de savoir-faire. Mesmo perdendo
o prumo depois, ainda são dele as melhoras falas do
roteiro. Enfim, um cara que conquistaria Lisa com facilidade
caso não resolvesse fazer ameaças de morte.
Já Rachel McAdams, que esteve ótima em Diário
de uma Paixão, aqui não consegue se livrar
da camisa-de-força da boa moça. Lisa é
tão chatinha e previsível que a gente quase
torce para Jackson dar um fim nela. O veterano Brian Cox,
que interpreta seu pai, é outro prejudicado. Sua participação
pode ser resumida a atender aos telefonemas da filha. Lamentável.
O diretor Wes Craven fez fama com a trilogia "Pânico",
que revitalizou os filmes de terror com sua abordagem debochada
e cheia de referências metalingüísticas.
Vôo
Noturno é o segundo filme dele a estrear este ano.
O primeiro foi Amaldiçoados,
que não fugia muito dessa linha que o consagrou. Se
Vôo
Noturno era uma tentativa de migrar para temas mais adultos...
ainda não foi dessa vez.
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